Pertencimento e Identidade

Proponho olhar o conceito de “pertencer” à luz de uma situação em que se guia por entre conjuntos. Ao nos sentirmos pertencentes a um conjunto, excluímo-nos daqueles que não estão “con-juntos”. Portanto pertencer remete tanto à inclusão, como à exclusão.

Pertencer, como pessoa, significa que compartilhamos atributos com um grupo de outras pessoas (o conjunto a que nos incluímos). E são esses atributos que caracterizam o conjunto.

Podemos pertencer a grupos que não temos ciência da existência, como é o caso de agrupamento por atributos subjetivos de outros. Por exemplo, você pode pertencer ao grupo de pessoas que considero, sob meu critério, interessantes. Pode também pertencer ao grupo de pessoas consideradas elegíveis para receber benefícios governamentais do programa Bolsa Família. Nesses casos, os atributos de pertencimento não precisam ser do seu conhecimento. São abstraídos segundo interesses alheios aos seus e você não precisa sequer se sentir pertencente, para dessa forma ser.

Caso mais interessante se dá quando nos sentimos conscientemente pertencentes a um grupo e cultivamos relações com os outros membros de forma a perpetuar esse grupo. Nesse caso, o grupo pode ser visto como um organismo. Uma visão de seu interior sob um quadro de fechamento operacional e autopoiese nunca será verdadeira, em se tratando de pessoas. Se assim o for, mesmo por específicas conveniências metodológicas, isto será um brutal reducionismo. Cada pessoa compartilha com outra (ou consigo mesma: conjunto unitário) algum atributo comum cuja preservação a ela interesse.  Esse interesse perfaz o grupo e nos dá a sensação de pertencimento. Como os interesses das pessoas são circunstanciais e contingentes, mesmo que consideremos escalas de tempo/espaço enormes, vivemos permanentemente configurando infinitos conjuntos, num processo dinâmico, isto é, pertencemos simultaneamente a infinitos grupos que se fazem e desfazem, se combinam e se desintegram, um tecido de trama variável, como um rizoma segundo Deleuze e Guattari. Por limitações cognitivas não só pessoais como também sociais, damos definição, ou seja, formamos conceitos para apenas uma parte desses conjuntos.

Um aspecto interessante dessa noção de pertencimento é que ela nos forma a identidade.

Somos aquilo que é caracterizado pelo que fazemos. O que fazemos implica uma rede de relações com outros fazeres, em um eterno processo de construção, de vir a ser.

Isso então significaria que nossa identidade é volúvel? Penso que vivemos para realizar uma capacidade potencial, ou seja, uma virtude, o que acreditamos ser. Sempre estamos em algum ponto no percurso dessa realização. Isso dá uma direção para nossa identidade, um caráter.

Mas o mais interessante que penso sobre isso, é que, como identidade, podemos assumir pertencer ao organismo total das pessoas do mundo, não apenas aquele organismo delimitado por nossa pele. Podemos, menos que isso, assumir também apenas um subconjunto desse total, arbitrariamente e temporariamente. E com atributos de diversas naturezas.

Arrisco dizer que identidade é uma consciência participatória, voluntária ou não, bastante relacionada com pertencimento.

Nos identificamos com, e pertencemos a, Zonas Autônomas Temporárias, a graça do mundo atual.

Sergio Teixeira de Carvalho

 

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One thought on “Pertencimento e Identidade

  1. MInha percepção é que temos varias identidades (internamente coexistentes), que são construidas e exstentes via interação com pessoas e ambientes, são como personas que nos habitam, ou desdobramentos de nossa potência quando se localiza em algum presente que pode ser telemático ou presencial. Se tratando de subjetividade, é virtual sempre. A graça do mundo contemporâneo é que tudo isso fica muito mais palpável com as tecnologias de interação e comunicação que nos permitem vislumbrar o peso da conectivdade em nossas vidas, os moviemntos de fluxo e de conservação das redes são mais visiveis. O desafio é viver tantas identidades sem procurar eliminar a contradição que pode existir entre muitas delas, pois temos algum apego em relação à coerência. A (des) graça é a impermanência e a natureza líquida de tudo isso, pois somos colocados em contato direto com a precariedade e fragilidade da existência humana e alguma coisa em nós pede por alguma segurança, permanência. Talvez muito do que cosntruimos seja resultado desse desejo (impossível de ser realizado) de permanência.

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