Criatividade como matéria prima da economia

http://www.empreendedorescriativos.com.br/entrevistas/criatividade-como-materia-prima-da-economia/

7/JANRaul Perez

“A indústria criativa é um dos segmentos mais promissores da economia brasileira”, indicava uma manchete de revista no mês passado. De fato, só em 2012, estudos deram conta que o mercado criativo do país é o quinto maior do mundo e os profissionais da área chegam a receber salários até três vezes maiores do que a média nacional.

Além disso, o governo federal está de olho nessa economia que chega a movimentar 2,7% do Produto Interno Bruto do Brasil, segundo dados da Federação das Indústria do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). O setor ganhou uma secretaria exclusiva na estrutura do Ministério da Cultura e, em breve, novas linhas de crédito adaptadas a produtos e serviços criativos estarão disponíveis, segundo a SEC.

Mas a economia que tem na ideia sua matéria-prima exige novas abordagens e diferentes formas de troca. Uma das mais importantes vozes sobre o assunto no Brasil, Lala Deheinzelin, explica como funciona essa nova dinâmica, baseada em colaboração, trocas diretas e relacionamento em rede.

A entrevista faz parte da série iniciada no fim do ano passado pelo Empreendedores Criativos, em que curadores do Movimento HotSpot respondem questões elaboradas por jovens empreendedores sobre mercado. As perguntas desta entrevista foram feitas por Felipe Iszlaji, idealizador do Dicionário Criativo.

Publicitário, doutor em Linguística, escritor de poemas, roteiros e letras de música, ele fundou a plataforma como um “auxílio à escrita    criativa”. Desde então, o Dicionário Criativo participou da primeira edição do Empreendedores Criativos, fechou parceria com a Getty Images e, recentemente, foi aprovado em edital do CNPQ para contratar pesquisadores das áreas da Computação e Linguística Computacional para aperfeiçoar sua tecnologia semântica. Confira:

Felipe Iszlaji – Ao contrário da economia tradicional – a economia da escassez – a economia da cultura e do conhecimento é a economia da abundância. Isso porque conhecimento é um recurso infinito. No entanto, o tempo das pessoas para consumirem produtos culturais é finito. O tempo de um usuário em um site é, por exemplo, um dos parâmetros utilizados para a conquista de anunciantes. A disputa por esse ‘tempo’, por essa audiência, não continua sendo um motivo de feroz competição? 

Lala Deheinzelin – O tempo é outra faceta da moeda. Quando não existe moeda existe o tempo. Todos os negócios na internet que são aparentemente livres ou grátis, não são, estão sendo na verdade pagos com o único recurso que não se renova, é escasso e não é abundante, o tempo. Nessa nova economia da abundância, a questão é como trabalhar com isso e como as pessoas se conscientizam do valor do seu tempo. A época de portais disputando o tempo e a atenção das pessoas já vai começar a declinar, porque elas já estão muito mais ligadas naquilo que o Michel Bauwens fala sobre a passagem da economia da atenção para a economia da intenção, onde as pessoas se juntam em torno de um propósito.

Essa questão do tempo finito é o que vai levar inevitavelmente a sair da competição e entrar em modelos colaborativos, porque a única maneira que tem de ganhar tempo e de ganhar tudo é a partir de processos colaborativos, onde tempo, informação e desejo acabam convergindo na construção coletiva, a exemplo da Wikipedia e de outros processos que são feitos dessa maneira. Sendo assim, o sucesso da economia da abundância, da economia da cultura e do conhecimento está diretamente ligado ao uso do tempo e das pessoas se assenhorarem desse uso. O Clay Shirky, no livro “Cultura da Participação”, diz que para fazer a Wikipedia foram necessárias 100 mil horas. Esse tempo equivale, ao que se vê comerciais de TV,  a um único fim de semana, só nos Estados Unidos. Nós vemos 1 trilhão de horas de TV por ano e esse tempo, que não aproveitamos, será um dos recursos mais importantes no futuro.

FI – Os recursos que financiam os produtos culturais (patrocínio, publicidade, fomento etc.) estão de fato se pulverizando, podendo financiar um número exponencialmente maior de iniciativas? Pergunto isso porque o Dicionário Criativo está fazendo essa aposta. Ele acredita e pretende ser uma ferramenta para a democratização dos meios de produção culturais. Mas não basta democratizar os meios de produção e os meios de divulgação se os agentes desses novos produtos não conseguirem “pagar suas contas”.

LD – Conheço pouco sobre financiamento cultural, patrocínio, publicidade e fomento, porque trabalho mais com questões ligadas ao desenvolvimento e à sustentabilidade, mas sim, eu tenho impressão que a era do marketing cultural e do financiamento privado à cultura está se esgotando. Eu acho que, de maneira geral, as soluções estão no trabalho colaborativo, porque democratizar os meios de produção e os meios de divulgação é super importante. Não adianta ter produtos se não há processos.

Por exemplo, não adianta você ter um produto cultural se você não tem um processo de distribuição ou de torná-lo visível. E para que eles sejam eficazes a chave está em colaborar. Ter o seu escritório, a sua secretária, etc. não faz mais sentido, o futuro é de co-working. Toda a chave para poder pagar contas está na questão do colaborativo. A nossa metodologia de trabalho para conseguir pagar contas é o que a gente chama de mapeamento de recursos 4D , que são as quatro dimensões da sustentabilidade. E

Então não é apenas o recurso financeiro – além da moeda e do tempo -, mas as demais dimensões: os recursos sociais, culturais e ambientais. Quando você trabalha com isso, fazendo troca direta, por exemplo, usando outro tipo de recurso, a conta pode ser muito otimizada. A experiência mostra que você precisa de 30% de moeda e os outros 70% você consegue realizar em troca direta de recursos.

FI – Os exemplos do Google e do Facebook são emblemáticos da era do conhecimento. São empresas de sucesso e de grande valor de mercado. No entanto, elas são mais exceção do que regra de sucesso nessa nova economia. E os investidores de risco continuam procurando apenas exemplos como esses, ou seja, empresas que em poucos anos se tornem bilionárias. Existem agentes econômicos dispostos a investir em empresas inovadoras, de impacto, mas que não necessariamente se tornarão multimilionárias?

 LD– Eu sou futurista. A questão toda de trabalhar com o futuro é porque aquilo que existe hoje é fruto de pensamento do passado. Então tudo aquilo que faz sucesso atualmente é fruto de coisas que estão deixando de ser. É como quando olhamos para o céu e vemos estrelas, na verdade é a luz de algo que não está mais lá. Esse modelo concentrado, como o Google e, sobretudo o Facebook, já viveu o seu auge. Acredito que a próxima fase da internet vai ser uma fase distribuída e não concentrada e, com isso, o mercado vai se adaptar também. Acho que a saúde do mercado e o mercado do futuro serão muitas pequenas empresas, muito diferenciadas entre si.

Os investidores vão ter que entrar na nova lógica e aqueles que são mais espertos já estão entrando, estão vendo que é possível conseguir menos resultado em quantidade, porém mais resultado em qualidade e com mais possibilidade  porque Google e Facebook são a exceção e não a regra. Apoiar uma diversidade de negócios isso sim é o futuro. Os agentes estão crescendo cada vez mais, basta ver a quantidade de pessoas falando sobre startups, o número de investidores anjo que está crescendo, mas ainda falta muita, muita visão.

No nosso caso, por exemplo, o BNDES que deveria estar fazendo parcerias com instituições de financiamento como a Finep e o Sebrae ou mesmo com os bancos comerciais para poder ter financiamento, investimento e crédito em escala menor, ainda está operando na lógica antiga, de apoiar grandes infraestruturas – o menor investimento dele para a área criativa é de R$ 1 milhão, o que não é real. Estamos realmente vivendo um momento de transição e ela supõe mudanças nessa lógica, que, no meu ponto de vista, terão que acontecer inevitavelmente.  Quem demorar para mudar vai peder o bonde e quem mudar logo e começar a trabalhar com muitos, pequenos, distribuídos, colaborativos e em rede, vai se dar bem.

FI – Como montar uma equipe e mantê-la motivada dentro dessa nossa lógica da geração Y que, dizem, é essencialmente empreendedora? Onde encontrar os mais criativos e que tipo de relação de trabalho deve ser construída com eles?

 LD – Toda a questão de empreendedorismo vai provavelmente mudar muito e acho que o Brasil vai ter um papel grande nisso. O Domenico de Masi fala que os Estados Unidos exportaram o seu modelo, de um capitalismo até um pouco predatório, através de filmes, da cultura e de management, da ideia do empreendedor solitário, self-made man, lutando, competindo, aniquilando a concorrência. Isso tudo já foi, é passado. A gente ainda vê isso, mas é questão de tempo.

Quem passar para uma lógica colaborativa vai sobreviver, quem continuar acreditando que competitividade vem a partir da competição, no meu entender, não vai se dar muito bem. E o que a gente vê com os jovens é que eles cada vez mais estão saindo dos seus trabalhos porque cada vez mais eles fazem algo que os motiva e que dá prazer, se não, eles não se interessam. Existe uma crise de busca de talentos nas empresas, porque ninguém fica, ninguém vai se matar se não for por alguma coisa que acredita. As pessoas estão ficando cada vez mais autônomas.

E, mais uma vez, eu acho que a chave para encontrar os criativos é na questão colaborativa. O tipo de relação a ser construídas com eles é de rede, de coletivos, de todo o tipo de processo colaborativo, que foi, por exemplo, o que a gente trabalhou no CRio Redes (inciativa colaborativa para  propor soluções urbanas para o Rio de Janeiro), ou o que é o Hub, ou o que são os financiamentos coletivos. A tendência que a gente observa de forma muito clara é que todas as pessoas mais criativas, mais talentosas, estão entrando neste outro modelo. E se você der uma olhada em quem são as pessoas que participaram das falas do CRio Redes, todos eles já tão nessa nova lógica de trabalho.

FI – Quais são os principais modelos de negócios da Economia Criativa? Os empreendedores estão conseguindo inovar não apenas nos produtos e modelos de distribuição, mas também na maneira de produzir receita?

LD – Temos um modelo inicial, que eu chamaria de indústria criativa, que é setorial. Aquele modelo que foi difundido e muito estruturado pelo Reino Unido, com 11 ou 13 setores e que tem a ver com artes, produção de conteúdo ou serviços criativos. O segundo modelo, que já começo achar mais interessante, é aquele que sai do setorial e vai para o territorial, a ideia das cidades e dos territórios criativos, que já faz mais sentido, porque o futuro é muito pouco setorial. O trabalho setorial funciona quando você está falando em estrutura e em modelos indiferenciados. Num futuro onde tudo é cada vez mais diferenciado customizado, único, o modelo setorial não tem tanto sentido. E o que faz mais sentido, onde você consegue melhores resultados é no território, considerando o blend, a receita mista e sofisticada que é cada um desses territórios.

O terceiro modelo é o que eu chamo de economia criativa. Existem muitas definições, mas eu trabalho com ideia de que a economia criativa é uma economia baseada em recursos intangíveis. A economia tradicional é baseada em recursos tangíveis, como terra, ouro, petróleo, tudo aquilo que é material. E a economia criativa é baseada em intangíveis, ela inclui não apenas os negócios criativos, mas toda a inovação e a mudança e o que qualifica, diferencia e valoriza qualquer tipo de empreendimento, indústria, instituição a partir de seus atributos intangíveis. O que se percebe é que a economia criativa pode ser uma grande chave para a sustentabilidade  Esse é o modelo que mais me encanta, ver como é que se consegue criar um modelo de trabalho que possa ser uma solução para a sustentabilidade porque a economia tradicional não é. Não dá pra ser sustentável com uma economia baseada em recursos tangíveis.

O futuro mais uma vez vai depender da maneira de produzir receita. E o que eu tenho defendido como futurista e especialista em sustentabilidade é essa questão dos processos colaborativos, peer-to-peer e da enfase nos processos de distribuição e de visibilidade não tanto na produção. E nessa questão de ter formas de definir, recursos, resultados e valor para além do monetário, considerando várias dimensões.

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