NÃO HÁ UMA ORDEM PRÉ-EXISTENTE- Augusto de Franco

A ordem está sempre sendo criada no presente da interação

O REFLORESCIMENTO DAS IDÉIAS ESPIRITUALISTAS que ocorreu na New Age provocou uma bateria de ondas que continuam até hoje quebrando nas praias dos buscadores de todos os matizes, mais de quarenta anos depois (se bem que, agora, já com intensidade bastante reduzida). As pessoas que, nas mais diversas situações, procuravam um sentido para suas vidas, tanto em experiências meditativas de recolhimento individual, quanto em ensaios coletivos de novos padrões de convivência social, queriam, no fundo, viver sua espiritualidade em uma época ainda pré-fluzz, mas que já anunciava tempos vertiginosos, de alta interatividade. E saíam então para todo lado em busca de novos caminhos, guias e mestres.

Grande parte desses exploradores, porém, não empreendia livremente ou sem pré-conceitos suas buscas. Estavam impregnados das idéias – assopradas e reforçadas pelos gurus que se apresentavam em profusão – de “um novo reino de velhos magos”. Na base das mais diversas doutrinas, seitas, sociedades e ordens espiritualistas e ocultistas que ofereciam naquele mercado seus produtos e serviços, havia, entretanto, uma mesma visão básica, a qual aderiam tanto físicos e biólogos de vanguarda interessados no diálogo entre ciência e religião quanto roqueiros, quase todos sem prestar muita atenção aos seus pressupostos: a ideia de que havia uma ordem implícita (ou implicada) pré-existente em alguma esfera da realidade, oculta ou não acessível imediatamente.

Eles queriam então ter acesso a essa ordem pura, queriam estabelecer uma sintonia com esse modelo não-manifestado, queriam atingir estados superiores de consciência para contemplar essa espécie de Unimatrix One e, para tanto, lançavam mão dos mais variados exercícios reflexivos, técnicas meditativas, rituais teúrgicos, práticas mágicas e processos de iniciação.

Ainda vivemos nas bordas dessas vagas, embora a New Age não tenha acontecido segundo o que foi previsto. O mundo único não se reencantou com o reflorescimento de espiritualidades ancestrais. Ainda bem. Porque o que está acontecendo nos múltiplos mundos altamente conectados é muito, muito mais profundo, mais abrangente e mais surpreendente do que tudo que anunciaram os gurus da nova era.

Depois dos gurus, vieram alguns hereges dizendo: não há uma ordem; se há, foi inventada por alguém e não quero me subordinar a ela. Os pioneiros da Internet e os visionários do ciberespaço dos anos 90 foram impelidos por esse vento libertário, em parte sob a influência de obras disruptivas como TAZ – Zona Autônoma Temporária e CAOS – Os panfletos do Anarquismo Ontológico, dois escritos seminais de Hakim Bey (1984-85) e dos romances de ficção científica Neuromancer de William Gibson (1984) e Ilhas na Rede de Bruce Sterling (1988) que, entre outros, deram origem aos cyberpunks. Talvez pouca gente suspeite disso, mas essa influência foi decisiva para a criação das ferramentas interativas que existem hoje (inclusive para a Internet e a World Wide Web), conquanto não se possa dizer que ela tenha durado muito. Tais pioneiros e visionários, em boa parte, logo entraram no contra-fluzz ao fecharem suas descobertas (construindo programas proprietários e escondendo seus algoritmos) para acumular suas fabulosas fortunas ou ao se deixarem contaminar pelas idéias contraliberais que impulsionaram os movimentos antiglobalização no dealbar dos anos 2000 sob a bandeira de que “um outro mundo é possível”. Se um herege inventa a sua própria ordem e quer que as pessoas passem a seguí-la – quer transformando-as em usuários cativos de seus produtos, quer arrebanhando-as em seus movimentos supostamente transformadores – aí já deixa de ser herege e passa a ser um sacerdote, um burocrata a serviço da reprodução do sistema que criou.

No entanto, a despeito dessas ondas regressivas que apenas revelavam a resiliência do velho mundo único, de suas estruturas e de suas dinâmicas, o vento continuou a soprar.

Começaram a aparecer os que, rejeitando os títulos de mestre ou guru, recomendavam simplesmente não-fazer nada. Já eram estes os precursores dos novos mundos-fluzz. Porque quando se espia “do outro lado”, não se vê ordem alguma – somente o nada, o abismo, fluzz. Fluzz significa que não há uma ordem pre-existente em algum mundo invisível (da emanação, da criação ou da formação). A ordem está sempre sendo criada no presente da interação. É mais ou menos assim como imaginou Ilya Prigogine (1984), destoando inclusive de outros cientistas envolvidos com tais especulações (de David Bohn a Paul Davies, passando por Fritjof Capra): o universo é criativo e “se cria à medida que avança”.

É o caso de dizer: bem, isso muda tudo.

Jack Kerouac e seus beatniks dos anos 50-60, Swami Satchidananda em Woodstock, os hippies dos anos 70 e os “hippies” tardios dos 80, talvez tenham pressentido isso, mas não podiam ter um entendimento do que estava vindo. O próprio Peter Lamborn Wilson (Hakim Bey) e os cyberpunks talvez tenham apenas sentido o sopro, sem chegarem a ver de onde (e para onde) ele soprava. Pierre Levy (2000), em uma corajosa jornada introspectiva, cujas notas estão no diário de bordo O fogo liberador (uma obra de inspiração heraclítica), empreendeu explorações em antigas tradições espirituais (como o budismo e a cabala) para tentar captar-lhe o sentido. Mas não havia sentido: “o vento sopra onde quer; você o escuta, mas não pode dizer de onde vem, nem para onde vai” (Jo 3: 8).

Pessoas como Paul Baran (On distributed communications), Vinton Cerf (TCP/IP), Tim Berners-Lee (WWW), Linus Torvalds (Linux) e Rob McColl (Apache), embora aparentemente nunca tenham feito tais explorações, contribuíram objetivamente para que hoje pudéssemos reconfigurar a busca (e talvez tenham causado um impacto mais profundo do que aqueles provocados pelos empreendimentos proprietários fechados dos Gates, dos Jobs, dos Pages, dos Stones e dos Zuckerbergs e de muitos outros trancadores de códigos que vieram ou ainda virão). 

Sim, reconfigurar a busca. Em mundos altamente conectados a busca não existe sem a polinização. Não há um mainframe (como se fosse um diretório de registros akashikos) onde você possar buscar respostas para suas perguntas. Se houver, tais respostas não lhe servirão. Serão respostas do passado que foi arquivado. Revelarão ordens pregressas. Conhecimento morto. A busca, qualquer busca, inclusive a busca espiritual, é sempre uma interação. Nos Highly Connected Worlds toda busca é P2P: no seu mundo e nos interworlds pelos quais você está navegando. A mesma busca, quando repetida, fornece respostas necessariamente diferentes. E deixa o rastro da pergunta. De sorte que as respostas são, no limite, combinações das perguntas que estão sendo feitas. Perguntas interagindo e se polinizando mutuamente para criar ordens inéditas.

O buscador é um polinizador. É um criador de mundos. O buscador-polinizador é uma pessoa-fluzz. Uma pessoa-fluzz é mais ou menos o que deveria ser uma pessoa-zen nas condições de um mundo de alta interatividade. Mas enquanto víamos a pessoa-zen como um indivíduo-no-caminho (conquanto ela não fosse isso realmente, posto que a descoberta-zen é a descoberta do ‘não-caminho’), a pessoa-fluzz não pode ser vista assim: ela é enxame. O enxame muda continuamente sua configuração, o que significa que os caminhos também mudam continuamente com a interação: o que era caminho em um momento já não é mais no momento seguinte. A pessoa, como disse Protágoras (c. 430 a. E. C.) – ou a ele se atribui – “é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”. Assim seja (ou não-seja). Let it be (ou not to be – o que é a mesma coisa).

Os hereges nômades que já experimentam esses novos padrões de interação viajando pelos interworlds e “audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve” começam a gritar para os que teimam em juntar e colar os cacos de céu velho que estão despregando para prorrogar a vigência do mundo único: “– Parem com isso! Não existem mestres. Não existem guias. Não existe caminho”.

🙂

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UNIVERSIDADES, TRANSDISCIPLINARIDADE E EXPERIÊNCIA HUMANA

http://professorubiratandambrosio.blogspot.com.br

 
Ubiratan D’Ambrosio
 
 
Etnomatemática
 
Produção de 1999
 
THOT 73
 
UNIVERSIDADES, TRANSDISCIPLINARIDADE E EXPERIÊNCIA HUMANA
 
O PAPEL DAS UNIVERSIDADES NA SOCIEDADE MODERNA
 
“Estamos aqui para nos aconselharmos mutuamente. Devemos construir pontes espirituais e científicas que liguem as nações ao mundo.”
 
Albert Einstein
 
A educação é uma estratégia desenvolvida pelo ser humano com duplo objetivo: estimular a vida em sociedade e acentuar a criatividade. Esse propósito tem sido alcançado por meio da transmissão do conhecimento acumulado pelas gerações anteriores e pela vivência de experiências desafiadoras. Ao longo da história, em todos os níveis educacionais e em todas as sociedades, percebem-se essas duas grandes metas. É claro que as características de cada sociedade determinam o estilo de educação adotado. Os sistemas de conhecimento predominantes determinam as práticas educacionais. Um grande número de estudos de caso ilustra isso.1
 
Estamos passando por grandes mudanças sociais. Os novos recursos de transporte, comunicações e coleta, estocagem e processamento de informações, trouxeram novas dimensões à tecnologia, desde a aurora da ciência moderna. Produziram reflexos evidentes nas características da moderna civilização, especialmente na vida urbana, nos modelos de propriedade, na produção e na economia2. Em conseqüência, novas percepções de eqüidade, segurança, reconhecimento e recompensa foram geradas e universalizadas nos tempos modernos.
 
A partir da postura colonial vigente na origem desses conceitos, movemo-nos a passos rápidos para ver a humanidade como uma totalidade e para o reconhecimento de uma raça humana, da qual a Terra é o lar. Buscamos nossa identidade como indivíduos que pertencem a uma espécie cujas muitas especificidades a diferenciam de todas as demais e habita um planeta que faz parte de um processo cósmico. Os indicadores dessas novas percepções são numerosos3. A educação moderna terá, necessariamente, de refleti-las. As universidades, em particular, estão fora de rumo em relação a essas mudanças recentes. Instituições universitárias criadas no modelo tradicional das colônias, e em nações cuja independência é recente, constituem indicadores dessa inadequação4.
 
Estamos em busca de novos modelos. Essa situação tem sido comum em qualquer estágio da humanidade em que surgiram novas formas de conhecimento5. Hoje, o caráter universal dos sistemas educacionais, a incorporação das tradições aos círculos individuais em todo o mundo, e a emergência de novas formas de produção, exigem uma nova organização desses locais de produção e transmissão de conhecimento. É claro que o conceito de conhecimento é essencial a qualquer proposta nessa direção. As considerações que se seguem refletem a abordagem transdisciplinar aplicada à compreensão de nós mesmos e do nosso lugar no cosmos.
 
 
TRANSDISCIPLINARIDADE
 
“Os mortos e os não-mortos são duas grandes divisões da sociedade primitiva, que parece quase apoiar-se mutuamente na relação dos explorados com as classes exploradoras (…) A imortalidade dos mortos é uma fantástica realidade.”
 
Christopher Caldwell
 
 
É importante reconhecer a necessidade de apoio intelectual ao nosso comportamento que seja o resultado de uma diversidade de pontos de vista. Num momento de intensos e disseminados indicadores de nacionalismos e fundamentalismos nas relações humanas, torna-se necessária uma visão planetária6.
 
Como chegamos a este ponto? Podemos tentar algumas considerações etimológicas. Nas principais línguas indo-européias, a palavra “vida” tem duas raízes. Uma remonta ao latim (vie, vita, vida) e tem o significado do comportamento que, no século 11, foi identificado com um complexo sistema de evolução a partir de doisstatus, a vida e a morte. A outra concepção vem de leip, que tem a ver com o funcionamento do corpo (fígado, gordura). Em ambos há um senso da dinâmica da continuidade do indivíduo e da espécie — a sobrevivência. A busca de alimento e os mecanismos de reprodução estão impressos no código genético.
 
A ciência moderna e a tecnologia criaram quase tudo, menos a vida, com sua esplendorosa complexidade e reprodução — a continuidade não apenas do indivíduo, mas também do processo vital, no sentido mais amplo da expressão. A partir desses impulsos, intrínsecos ao ser vivo, nascem os comportamentos altruístico e ecológico que garantem a vida.. Como todo vivente, o Homo sapiens sapiens é orientado para a sobrevivência do indivíduo e da espécie. Esse impulso permeia toda a nossa existência.
 
Entretanto, por sermos únicos entre as espécies, somos dotados também de um senso de temporalidade: almejamos transcender nossa existência e viajar para antes do nascimento e para depois da morte, levados pela consciência e pela vontade. Estas estão presentes nas manifestações mais precoces do comportamento humano. Nossa busca do passado e do futuro levou-nos aos cultos e à espiritualidade — sob a forma de tradições e religiões — e às profecias, manifestadas nas artes e ciências. O conhecimento significa a capacidade adquirida de sobreviver e transcender.
 
Sob esse duplo impulso — para a sobrevivência e para atranscendência —, o comportamento humano tem evoluído na direção da aquisição do conhecimento. Nessa evolução são perceptíveis algumas distorções. Sua principal particularidade é a contradição com a preservação da vida, na própria essência de seu código: a continuidade por meio do indivíduo e da espécie. Faz parte do processo vital o comportamento altruístico e ecológico que leva à eliminação de indivíduos ou de espécies para que outros possam sobreviver. Na espécie humana, isso se faz sob a orientação da consciência e da vontade. A questão básica que levanto liga-se a esse aspecto, isto é, a eliminação de uns para que os outros possam prosseguir. Essa é a mais fundamental das questões relativas à moralidade individual, social e ambiental. Nessa multiplicidade coloca-se a ética.
 
 
 
O QUE SIGNIFICA A ÉTICA?
 
“O conhecimento do bem e do mal parece ser o objetivo de toda reflexão ética. Nesse conhecimento, o homem não entende a si mesmo na realidade do destino que lhe foi estabelecido em sua origem, mas em suas próprias possibilidades de ser bom ou mau.”
 
Dietrich Bonhoeffer
 
 
O que significa um comportamento ético? De novo, um exercício etimológico nos mostra que os termos “ética”, bem como ethos eethno, são inter-relacionados. O reconhecimento do outro torna necessária uma ética. É importante que admitamos em nós mesmos os conflitos com o outro. É preciso admitir como legítima a alteridade do estranho. É fundamental reconhecer o outro nas sociedades e espécies competitivas. Sobrepujar o outro coincide com nossos impulsos para a sobrevivência e para a transcendência. O equilíbrio nessa concorrência é uma questão fundamental. Minhas reflexões são permeadas por esse tema básico.
 
Tem sido freqüente, no comportamento de nossas espécies, a aceitação de que algumas formas de vida têm mais valor do que outras, e que algumas não apenas são inúteis, mas em alguns casos ameaçadoras. Algumas espécies são perigosas — por isso, livremo-nos delas! Na mesma linha, alguns indivíduos de uma certa espécie são menos produtivos, dão-nos menos benefícios do que desejamos — portanto, fora com eles! Alguns nos aborrecem, como pernilongos no meio da noite. É preciso descartá-los, portanto! Esse raciocínio em cascata pode ser trazido para a nossa espécie: alguns indivíduos são menos produtivos e por isso devem ser excluídos. Alguns nos aborrecem e por isso devem ter o mesmo destino. Se usamos inseticidas contra os pernilongos que nos assediam, por que não usar guilhotinas, cadeiras elétricas e, hoje em dia, injeções letais, para eliminar esses desviantes que nos dão tanto trabalho?
 
Em suma, o comportamento humano tem sido crescentemente dominado pelo sentimento de que um indivíduo pode valer mais a pena do que outros. Essa é a origem do comportamento social e ambiental dos tempos atuais. Não vejo outra forma de fazer face à conduta social e ambiental do ser humano senão buscar valores e gerar uma ética apropriada, voltada para o restabelecimento do equilíbrio na concorrência entre a sobrevivência e a transcendência.
 
O conhecimento científico cresceu e continua crescendo, aparentemente sem limites. Revela-nos a mecânica do Universo e nos dá a capacidade de conhecer os componentes mais elementares da matéria e de tocar e moldar a evolução das formas vivas. Esse mesmo modo de pensar — o conhecimento científico — tem sido usado para convencer os indivíduos de que estão se aproximando da verdade absoluta. Além disso, gaba-se de um tal grau de precisão e autoconfiança que a mais humilde das pesquisas é substituída pela arrogância da certeza, que inibe a investigação e exalta o dogmatismo. Através da história, a maioria das distorções, na longa busca da humanidade pelo conhecimento, tem resultado da separação entre a ciência e as tradições.
 
Uma espécie de “neurose filosófica” tenta identificar e realçar contradições entre os conhecimentos tradicional e científico. O atributo de “racional” é reservado a este, de um modo que exclui com desprezo aquele. A responsabilidade ética foi “racionalizada”, encerrada em códigos normativos, ou depreciativamente confinada ao domínio dos valores e tradições. O Renascimento consolidou novos modos de pensar, que surgiram nas civilizações antigas da área do Mediterrâneo, desenvolveram-se na Europa e foram impostos ao mundo por meio das grandes navegações.
 
A “missão civilizatória” do Ocidente, que começou há cerca de 500 anos, resultou em um modelo de sociedade dominado pela ciência e pela tecnologia, com sua conseqüente ordem econômica, social e política. Modos de produção e divisão do trabalho e novos conceitos de propriedade e riqueza estão intimamente relacionados com a filosofia subjacente, que os tornou possíveis. Na verdade, tudo isso foi proposto para justificar a conquista e a colonização. Nesse empenho, línguas, modos de pensar e trabalhar e maneiras de lidar com a propriedade e a saúde foram impostos através da Terra. A ciência e os valores ligados ao pensamento científico e racional foram freqüentemente usados para racionalizar variantes de exploração de seres humanos, no processo de estocagem de suprimentos agrícolas. Os conceitos de humanidade e de uma ética para o homem foram gradualmente removidos desse pensamento.
 
Esse modo de pensar, dominante desde o século 16, foi responsável por:
 
a. interpretação de diferenças entre seres humanos como estágios diversos na evolução das espécies;
b. explicação de necessidades materiais básicas não-satisfeitas pela falta de empenho ou preguiça, e interpretação da busca da satisfação de necessidades espirituais como falta de racionalidade científica;
c. interpretação da preservação do patrimônio natural e cultural como obstáculos ao progresso. Com efeito, o progresso é um conceito associado ao novo modelo de pensamento.
 
Todas essas características do pensamento moderno levaram a uma conduta vil. As ligações são claras:
 
a. com a arrogância;
b. com a indiferença e a desumanidade;
c. com um comportamento irresponsável.
 
Trata-se de pecados capitais, que podem causar a destruição de espécies inteiras. Violam a sabedoria natural e constituem a mais séria ameaça à extinção do Homo sapiens sapiens. Precisamos restaurar a complementaridade dialética entre teoria e prática. Contudo, caímos com freqüência na armadilha da fascinação com o discurso teórico, em prejuízo do reconhecimento da essência da prática. Eis a essência da transdisciplinaridade.
 
 
 
UMA NOVA ÉTICA
 
“O maior dos erros filosóficos é contar como filósofos apenas os propriamente ditos, quando na verdade todo ser humano molda a sua própria filosofia; e a razão pela qual eles não a proferem ou especificam na linguagem técnica da filosofia aceita, pode ser o sentimento de que sua filosofia permanece mais filosoficamente verdadeira quando não é declarada.”
 
Paul Valéry
 
 
A espécie não pode sobreviver sem uma ética que contrabalance as características do pensamento moderno e apele para o simples e primário princípio de preservação da vida e da civilização na Terra. Chamo de ética da preservação aos seguintes princípios:
 
a. respeito ao outro apesar de todas as diferenças;
 
b. solidariedade para com o outro, na satisfação de suas necessidades básicas de sobrevivência e transcendência;
 
c. cooperação com o outro na preservação do patrimônio cultural e natural.
 
A civilização pode sobreviver sem uma ética planetária?
 
 
O COMPORTAMENTO HUMANO COMO AÇÃO
 
 
No breve espaço de tempo de sua presença neste planeta, o ser humano está ameaçado de extinção7 e, ao mesmo tempo, maravilhado por ver a si próprio como o centro de um processo. Proponho o entendimento do Homo sapiens sapiens como uma criatura em busca da sabedoria e do sublime.
 
O comportamento e a vida dos seres humanos são inseparáveis. A vida é a ação realizada pelo indivíduo na realidade e com ela. Trata-se de uma prática orientada por uma estratégia projetada por ele próprio como resultado de sua vontade, depois de ter processado informações vindas do mundo real. Entendo a realidade segundo a proposta de Basarab Nicolescu: “Uma realidade de interação ou de participação”8.
 
A vontade, somada ao processamento da informação, constitui a essência do comportamento livre e inteligente, que caracteriza nossa espécie e define nossa existência. Um indivíduo existe na medida em que reage a impulsos (informação) vindos da realidade e, de modo voluntário, processa-os e define suas estratégias de ação. A dinâmica do processo
 
… realidade – indivíduo – ação – realidade – indivíduo …
 
é a mesma da vida. Todos nós, como seres vivos, estamos sujeitos a ela9. Graças a isso, somos responsáveis pela modificação da realidade. Até que ponto? Até o limite da nossa sanidade mental.
 
A ação se manifesta de várias formas. Há, por exemplo, a que leva à sobrevivência e à satisfação das necessidades comuns a todos os seres vivos. E há a que conduz à satisfação das necessidades — caracteristicamente humanas — de explicação, entendimento e criação. Em outras palavras, o homem age para transcender sua própria existência e projetar a si mesmo no passado e no futuro.
 
Ao refletir sobre o comportamento das espécies vivas, percebemos que existe uma sabedoria natural, que pode ser vista de dois modos: a) segundo leis que determinam um comportamento rigoroso, previsível e matematicamente preciso. Essa é a proposta dos antigos paradigmas; b) pela perspectiva da complexidade, que desafia suposições básicas de causa e efeito. Devemos reconhecer que a abordagem complexa ainda é inacessível ao nosso modo atual de entendimento do mundo.
 
A crença na primeira hipótese levou ao sucesso da abordagem reducionista. Se nos aprofundarmos no exame desse fenômeno, veremos que o campo de interesses se estreita cada vez mais, sob preceitos metodológicos específicos e limitados. Para evitar isso — e diante de nossa necessidade de buscar explicações globais —, apelamos para as abordagens multidisciplinares e interdisciplinares. Mas estas não são mais do que incursões recorrentes no desconhecido, com os mesmos (ou similares) instrumentos metodológicos, que desviam o foco para outras questões.
 
Não teremos sucesso em nossa busca de explicação se permanecermos no plano dos métodos clássicos da ciência e nos concentrarmos nas funções e em seus domínios e contradomínios — em outros termos, se restringirmos nossa análise ao binômio causa-efeito. Precisamos ir mais além, investigar as próprias categorias de análise e compreender as relações entre os objetos e suas dependências dentro de várias categorias. Trata-se de uma abordagem semelhante à que vem sendo chamada de análise functorial pelos matemáticos. Nossa proposta contempla uma análise da dinâmica da totalidade do processo.
 
Os indivíduos, as sociedades e a natureza se inter-relacionam segundo estratégias de sobrevivência. Deixamos em aberto a explicação dessas estratégias, seja por meio das leis precisas pelas quais a sociobiologia tenta entendê-las, seja por intermédio de um comportamento caótico ou sinérgico. O fato é que a sobrevivência é inerente às espécies vivas e o equilíbrio se mantém. Ocorrem modificações, quando eventualmente as espécies mudam.
 
Relações tais como o acasalamento e os arranjos societários são bem conhecidas entre indivíduos da mesma espécie, e as ações coletivas obedecem a modelos comportamentais ditados pela estrutura genética. Ao mesmo tempo, os indivíduos devem interagir com o seu ambiente e com as outras espécies, por meio da ação sobre a natureza em que estão imersos — mas como parte constituinte dela e não como meros predadores. Tais condutas são reguladas pelos princípios da psicologia animal, da sociobiologia e da ecologia.
 
 
DA SOBREVIVÊNCIA À TRANSCENDÊNCIA
 
Na abordagem disciplinar (ou, na melhor das hipóteses, interdisciplinar), domínios cognitivos como fisiologia, sociobiologia e biologia aproximam-se, formando um triângulo. No entanto, a visão global pede uma abordagem transdisciplinar. Esta leva à metáfora geométrica, na qual vemos o triângulo como a essência do fenômeno da vida. A quebra desse triângulo em cada um de seus lados levaria ao fim da vida no planeta. Por isso, chamo-o de triângulo da sobrevivência. O universo no qual o colocamos é, em nossa imagem metafórica, a realidade total e plana. Como no romance de Abbott11, investigaremos as três dimensões mais altas, onde encontraremos o Omni.
 
Na longa história do cosmos — que representa a realidade em seu todo — a vida surge relativamente tarde e apenas em uma parte diminuta. Desde então ela tem se manifestado por meio de uma multiplicidade de fenômenos. Outras formas de vida, em diferentes universos, poderiam provavelmente suscitar diferentes metáforas geométricas. Dificilmente seria possível conceber os mesmos princípios de fisiologia, sociobiologia e ecologia em relação a um possível equivalente extraterrestre de vida.
 
Nessa realidade metaforicamente plana surgiram, por criação ou evolução, os hominídeos, há cerca de 4,5 milhões de anos. DoAustralopitecus ao Homo sapiens, e finalmente até a nossa própria espécie, outro triângulo se superpôs ao da sobrevivência, que entretanto continua a ser a essência do fenômeno a vida.
 
Quando o Homo sapiens surgiu, os instrumentos, as ferramentas e as técnicas desempenharam um importante papel nessas composições. As relações da nova espécie com a realidade natural — na qual ela estava imersa como parte e não como mero observador — não podem escapar ao modelo do triângulo de sobrevivência. Essa nova espécie apresentou outras características: um desenvolvimento especial do pescoço ou da cabeça, manifestado principalmente por uma disposição especial do ouvido interno, que possibilitou a posição ereta e permitiu um senso de observação mais agudo. Ou a diferenciação da parte superior da traquéia, que permitiu uma forma diferente de lidar com os sons, o que possibilitou um modo muito sofisticado de comunicação.
 
Essas peculiaridades, combinadas com o crescimento diferenciado do córtex cerebral, permitiram que a espécie tivesse um controle muito melhor do corpo, e também a capacidade de receber grandes quantidades de informações e processá-las por meio de uma memória enormemente desenvolvida. Somou-se a isso o desenvolvimento de uma forma criativa de comunicação — a linguagem — e o aparecimento de um senso de passado e futuro. Tais características, e o impulso para a sobrevivência, tornaram-se subordinados à inteligência e à vontade. Eis o Homo sapiens sapiens.
 
Essas peculiaridades superimpuseram ao triângulo da vida um outro, o triângulo da transcendência, responsável por novas intermediações entre os indivíduos, a natureza e as sociedades. Cada membro dessa nova espécie — o Homo sapiens sapiens —, que pode chamar a si mesmo de homem12, está, como qualquer ser vivo, em luta constante luta pela sobrevivência. Nesse processo, o ser humano desenvolve mediadores entre ele próprio, seus pares e a natureza: são os instrumentos, ferramentas, equipamentos, as técnicas e a comunicação. Alguns deles, com efeito, desfiguram o mundo natural13. Além do aglomerado de fatos naturais, a natureza agora exibe fatos novos, artefatos e mentefatos, produzidos pelos humanos. A realidade é assim modificada e ampliada.
 
Por meio dos sentidos — que ainda são pouco conhecidos e controlados pelo homem — os artefatos informam outros indivíduos, enquanto os mentefatos informam aquele que os produz. Nossos sentidos são vistos como capazes de reconhecer aquilo que se pode ser explicar como material. As vibrações, a luz, o som, as ondas ou partículas, são capazes de produzir sensações. As altas freqüências, porém, não são percebidas pelos sentidos humanos, mas o são pelo sentidos de outros animais14.
 
Cada indivíduo da espécie Homo sapiens sapiens é dotado de uma peculiaridade interna, que submete a luta pela sobrevivência individual e pela continuidade da espécie — características de todas as espécies vivas — a si mesmo e á sua vontade. Assim ele desenvolve uma nova capacidade, peculiar à sua espécie, que é o poder de decisão sobre sua conduta. Esse princípio (que é essencial), em diferentes tradições é chamado de espírito, alma,anima, carma etc.
 
A vontade gera a necessidade de explicar, entender e transcender a própria existência, inferir dos ancestrais e projetar sobre as gerações que virão. Dessa maneira, o ser humano adquire um senso de passado e futuro, o senso do tempo. O impulso de sobrevivência é, assim, associado ao de transcendência. Juntos eles compõem a essencialidade da vida humana. Comer, respirar e procriar assumem agora um outro significado. As pulsões puramente animais de sobrevivência, de alimentar-se e acasalar-se, são agora ligados ao impulso para a transcendência. Alimentar-se a acasalar-se são associados ao prazer e às emoções, mas também permeados por rituais.
 
A descoberta do outro media a relação entre o indivíduo e a sociedade. A busca do outro — um mero mecanismo da espécie, para os demais seres vivos — adquire uma nova dimensão com o homem. A busca e a descoberta do “tu” constituem o primeiro passo para transcendermos a nossa existência. O reconhecimento do “tu” e a busca por um “tu comum” leva naturalmente à criação de mitos e símbolos, tradições e normas, sabedoria e conhecimento. Leva á cultura, no sentido mais amplo da palavra. Os indivíduos se subordinam a essas categorias de conduta, que intermediam seus relacionamentos com seus semelhantes. Elas dominam as relações entre os indivíduos e a sociedade, bem como entre as sociedades a realidade em si mesma. A força orientadora para a sobrevivência das sociedades é assim modificada por fatores que resultam dessas mediações. Alguns exemplos são o trabalho e sua divisão, a propriedade e as estruturas de poder e hierarquia.
 
Essas novas intermediações constituem a essência do que se tornou conhecido como conhecimento — os matema. Essa circunstância transparece na aquisição de habilidades, capacidades, modos de fazer, explicar, entender — formas de lidar com as necessidades diárias de sobrevivência e transcendência. Manifesta-se por meio de distintos modos de comunicação, invenção de diferentes instrumentos, aceitação de diversos modos de auto-organização e divisão do trabalho. Grupos de indivíduos que vivem em uma sociedade, sujeitos a condições naturais específicas, dividem as mesmas especificidades, os mesmos matema.
 
Essas formas de comportamento são incorporadas ao conhecimento comum, que mantém juntos e operacionais grupos de pessoas, comunidades, sociedades. Desse modo a cultura se manifesta em diferentes modos e domínios, que estão obviamente inter-relacionados. São expressões culturais, tais como a linguagem, as práticas matemáticas, os sentimentos religiosos, a estrutura familiar, as roupas e os modelos comportamentais. Estão, é claro, ligadas à história dos grupos de indivíduos, comunidades e sociedades nas quais se desenvolveram.
 
É impossível evitar a diversidade das culturas. Uma comunidade maior divide-se sempre em variantes culturais. Cada uma tem sua própria história e responde de modo diferente aos mesmos estímulos. As relações entre as culturas são enriquecedoras e, ao mesmo tempo, desafiadoras. Como se sabe, as diferentes culturas que formam a humanidade são muitas vezes conflitantes. Os conflitos inter e intraculturais são inevitáveis. Conviver com eles é o principal desafio da dinâmica cultural e constitui o objetivo final da civilização.
 
A ESSÊNCIA DA HUMANIDADE
 
Discutirei agora o que significa ser humano, isto é, a essência do ser humano. O jogo entre o substantivo e o verbo — “ser” e “ser” — sintetiza essa discussão. A essência da humanidade é alcançada quando os dois estão juntos em relação simbiótica. Isso só pode ocorrer em uma dimensão superior à da realidade material bidimensional.
 
A estrela que resulta da superposição dos dois triângulos — o da sobrevivência e o da transcendência — é o símbolo da espécie. É o aspecto substantivo do Homo sapiens sapiens. A metáfora mostra que ele constitui a essência da espécie humana. Representa a realização, por essa espécie, de suas necessidades essenciais de sobrevivência e transcendência. Essa metáfora geométrica — aestrela da essencialidade — é um exemplo do que falei há poucos parágrafos. Tudo isso está imerso em uma realidade material, na qual a transcendência não pode ser satisfeita. Tal realidade é o presente, o momento em que estamos vivendo. Metaforicamente, é o universo bidimensional, o aqui-e-agora.
 
Um passo adiante, na direção da sabedoria total, pode fazer-nos alcançar outra dimensão. A espécie humana deu esse passo, que a diferenciou de todas as demais espécies vivas, e ele corresponde a um movimento rumo a outra dimensão. Não podemos alcançar o passado nem o futuro, mas somos dirigidos para eles. Tanto um quanto o outro, como comportamentos, ultrapassam a realidade e estão fora da bidimensionalidade do real. Penetrar nessa nova dimensão corresponde à consecução da espiritualidade: é alcançar o carma, a ultrapassagem da materialidade. O impulso que leva a ela é a essência da vontade. Assim, o homem só atinge a sua plenitude — só alcança a humanidade e toma posse de seu self — quando essa realidade tridimensional é realçada. Este é o meu conceito de aquisição do status total de ser humano.
 
Alcançar essa realidade tridimensional mais alta está além das capacidades de nossa percepção como espécie. Mas devemos buscá-la. Nosso objetivo, como indivíduos e como espécie, é alcançar a dimensão total de seres humanos. Sondamos o desconhecido e as dimensões mais altas, que são os domínios da onisciência, onipotência e onipresença.
 
“Porque vê sempre algo cada vez mais maravilhoso, o homem não deixa de olhar e de aprender.”
 
Jakob Boehme
 
NOTAS E REFERÊNCIAS
 
1. A educação tribal é um exemplo.
 
2. Ver a importância da urbanização no Novo Mundo, no estudo de José Sala Catalá: Ciencia y técnica en la metropolización de América, Theatrum Machinae, Madrid, 1994. Nessa obra, o autor mostra que vida urbana é o principal suporte do conhecimento científico e tecnológico.
 
3. Entre esses, menciono a crescente abolição de necessidade de vistos e facilitações de residência, a proliferação de religiões catastrofistas, o uso de substitutos para as moedas locais, os jornais internacionais, os automóveis mundiais, os softwares padronizados e os currículos internacionais.
 
4. Ver meu estudo sobre o papel das universidades no desenvolvimento: Knowledge transfer and the universities: a policy dilemma, Integrated Technology Transfer, ed. Jacques Richardson, Lomond Books, Mont Lairy, 1979, pp. 37-43.
 
5. Podemos entender assim as academias gregas, os monastérios e as universidades medievais, a universidade moderna e as universidades subsidiadas pelo governo.
 
6. Mesmo em meu país, o Brasil, construído por estrangeiros que aqui chegaram, voluntariamente ou forçados, no século 16, para dominar e impor aos nativos modos alienígenas de explanação, entendimento e modos de lidar com a realidade, há uma tendência crescente para tratar com dureza os “desviantes”. Os pretextos para eliminá-los, mesmo por meio da pena de morte, disseminam-se por todo o mundo.
 
7. Embora não queira ser catastrofista, não posso deixar de reconhecer os perigos que a natureza enfrenta — a humanidade em especial.
 
8. Basarab Nicolescu, La science, le sens et l´évolution. Essai sur Jakob Boehme, Éditions du Félin, Paris, 1988, p. 127.
 
9. Ver Ubiratan D’Ambrosio, Da realidade à ação (3ª edição), Summus Editorial, São Paulo, 1995.
 
10. Insano é alguém que se conforma inteiramente com a realidade, ou, por outro lado, que não aceita as suas próprias limitações.
 
11. Edwin A. Abbott, Flatland: a romance of many dimensions. New American Library, Nova York, 1984.
 
12. Poderia optar por “mulher” ou “criança” nesse momento, ou usar sempre “homem/mulher” ou “ele/ela”, como faz a maioria dos autores. Não estou convencido de que esse artifício tenha algum efeito sobre os homens ou mulheres da espécie humana, a não ser o de exteriorizar, ou algumas vezes disfarçar, uma atitude ou comportamento interior de desprezo. Não hesito, em qualquer lugar e tempo, em expressar meu profundo respeito pelo outro sexo, e minha ativa solidariedade para com a luta das mulheres no sentido de corrigir toda uma história de discriminação e exploração. O respeito e a solidariedade pelo outro vão além do sexo.
 
13. Um certo número de casos de supostas comunicações mentais, à distância e depois da morte, tem sido relatado. Sejam elas fatos ou imposturas, fazem parte do imaginário humano. São explicadas como capacidades extra-sensoriais de certos indivíduos. São semelhantes ao que, há 200 anos, era aceito como explicação para comportamentos esquizóides.
 
14. Ver Basarab Nicolescu, op cit, p. 195.
 
AO LEITOR
 
Este artigo conduz uma mensagem de esperança em relação ao futuro da humanidade. Pago ônus de ser franco no conteúdo — amor é do que precisamos — e didático no estilo: todo indivíduo, do simplório ao intelectual sofisticado, tem a responsabilidade e os meios para alcançar a transcendência.
 
Ubiratan D’ambrosio é matemático, Professor Emérito da UNICAMP (São Paulo) e consultor da UNESCO e da Organizações dos Estados Americanos (OEA)

Outros textos você encontra no meu site: http://vello.sites.uol.com.br/ubi.htm

 
Aprecie também:

 
Gaiolas Epistemológicas

 
Museus e Ciência

 
A INFLUÊNCIA DA TECNOLOGIA NO FAZER MATEMÁTICO AO LONGO DA …
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2 comentários:

  1. Uauuuu!!!

    Estou eu, essa madrugada, a estudar mais um pouco sobre a relaçao Etnomatemática e ensino universitário, mas tudo que tinha era às mãos era “Os paradigmas da ciência e a sobrevivência da universidade” (D’Ambrosio,2009).

    Mas essa internet é danada mesmo e, na sede por saber mais, acabei encontrando essa preciosidade que desconhecia: o blog do professor Ubiratan.

    Adorei a ideia do blog, desse compartilhamento com o público de tantas reflexões e estudos para uma nova visão de ser humano e de mundo, que devem orientar com urgência os princípios da educação.

    No Brasil, sentimos facilmente, nas últimas décadas, o desenvolvimento de uma classe social de jovens, que não pôde frequentar as escolas, porque nela não foram “bem-vindos” e dela não foram “bem-idos” de volta à sociedade. 

    No entanto, isso não inibe suas pulsões de sobrevivência e transcendência. E não encontrando seu lugar, nos ambientes sociais instituídos para a sua formação humana e sociocultural, encontrarão, sempre, seu lugar em outros espaços, às margens das redomas instiutcinalizadas movidas por diversos interesses, que não mais lhes interessam.

    Assim, a escola, por não conseguir envolver uma boa parcela da sociedade, acaba por expor toda a sociedade a problemas maiores. 

    O resultado disso é o medo que temos enfrentado de contracenar com o outro, e de expor nossos filhos e netos (protegidos em suas redomas) a uma sociedade marcada pela violência.

    Realmente, não dá mais para adiar, na educação, a preocupação com questões mais amplas e a preparação crítica dos jovens para lidar com elas.

    Parabéns, professor Ubiratan, pelo blog!

    Olha a referência:
    D’AMBROSIO, Ubiratan. Transdisciplinaridade. 2. ed. São Paulo: Palas Athena, 2009.

    Responder

     
     
  2. Olá, boa noite!!!Assim como a pessoa do comentario anterior, estava aqui estudando um pouco mais sobre a etnomatematica e encontrei você, uma pessoa inteligentíssima e que esta dando base para nossos estudos. Sou Stella da cidade de Bom Despacho – MG e gostaria de parabeniza-lo pelo trabalho q nos faz perceber a matematica com outros olhos. Seu trabalho é de mta importancia para todos professores. Aproveitando, gostaria de saber algum tipo de oficina q o vc sugere para demonstrar a etnomatematica em sala de aula, precisamos apresentar na universidade dia 27/04/2011. Conto com sua colaboração para enriquercer ainda mais nosso trabalho e mostrar a todos como é gostoso aprender matematica. Obrigada. Stella Fernandes.
    stellafernandesc@yahoo.com.br

    Responder

     
     
 
 

 


 
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UBIRATAN D’AMBROSIO – POÇOS DE CALDAS, 1 DE JULHO DE 1969

 
 
 
 
 

LA DIMENSIÓN ESPIRITUAL DEL SER HUMANO, SU DESPERTAR, POR ÁNGELES ROMÁN

La cultura Maya al referirse al origen del universo, sostiene que el tiempo funda el espacio. Este espacio flexible contiene el cambio incesante del cosmos y de la vida. Con la noción de tiempo medimos estos cambios.Para Henri Bergson, filósofo francés del siglo xx, existe un tiempo numerado mezclado con el espacio, cuantitativo; pero existe también un tiempo puro que es mera duración interna, el tiempo verdadero, es el fluir de nuestra interioridad en el sentido cualitativo, desprovisto de medida.Podemos representar al tiempo cronológico con la clásica flecha que señala el transcurrir de pasado a futuro, principio y fin; y al tiempo puro con una línea de forma helicoidal ascendente, que representa la evolución y la conexión cósmica superior.


Cronos, el tiempo inexorable, Kairos, el tiempo interior, tiempo del espíritu.

Desde que los primeros filósofos buscaron la explicación del mundo, un principio de unidad en la diversidad y dejaron escritos sobre la interpretación de sus sistemas, desde entonces y hasta ahora, la mayoría de la humanidad sigue bajo el parámetro, cronos, flecha del tiempo, razón, pensamiento. La especialización de la razón para la supervivencia es de suma importancia, de allí el desarrollo técnico-científico.

El problema es que el pensamiento atado al tiempo lineal no es libre, seguimos el movimiento, la cantidad, en un proceso constante basado en memoria y expectativa, pasado y futuro.

Los sucesos del afuera, de todos los hechos en el mundo, son el espejo de la psiquis interior de cada uno. Nos movemos en una esfera que desconocela vida interior, navegamos en nuestros roles sin parar la flecha inexorable que nos distancia constantemente, nos sentimos temporales en este cronos devorador, entonces la intención para sí, la separación.

Un velo de ignorancia marca nuestra arrogancia sobre los sistemas de la vida, con sólo mirar que el árbol, el venado, el pez, que toman sólo lo necesario para la subsistencia. Esta ignorancia sobre la naturaleza y sobre el tiempo interior, es más profunda en las personas que representan el poder imperante, pues lo ejecutan en perjuicio de la vida en la tierra, están embuídos por un materialismo radical.

El tiempo del espíritu, el que repliega la vista hacia el conocimiento interior, esa perla que habita en un cofre casi olvidado, consiste en una atemporalidad, que implica la realidad posible al margen del transcurso del tiempo-espacio, es una espiral ascendente que constituye un presente absoluto y nos hace trascendentes porque la podemos experimentar.

Esta consciencia (presencia-testigo), conoce acallando la mente (pensamiento-razón).

El sentido del tiempo lineal se manifiesta en proyectos, el sentido del tiempo helicoidal nos señala el camino de nuestra autorrealización trascendente.

Cuando nuestra atención se ancla en el instante, permanece en el presente, entonces la consciencia accede a la dimensión espiritual donde se despliega la información como algo nuevo y único.

El ahora es el misterio del ser, en el que deberíamos permanecer, pues allí reside el tiempo puro que nos señalaba Bergson, el tiempo del espíritu. Es el grito de presencia de nuestra consciencia y está en el escalón superior de la mente que corre prisionera.

Poseemos una atemporalidad potencial y trascendente que implica creación, y una consciencia omniabarcativa, que puede aprender a equilibrar el mundo interior al salir del tiempo basado en el temor y el deseo.

No es fácil ser el conductor, porque estamos acostumbrados a que los pensamientos nos lleven a saltos vertiginosos de aquí para allá, y según estos pensamientos pasamos por las más diversas emociones, hasta las que llegan a dañar.

Estar en el presente es un ejercicio de permanencia, de atención, de observación que debemos realizar; quizás imitar esa mirada sin resistencia de nuestras mascotas, donde reina la simpleza de lo que sucede en cada instante.

Darnos cuenta y decirnos: ¡anda! ¡gira! ¡regresa! ¡pon atención aquí! en lo que realizas, bueno, desciende y organiza, pero regresa a disfrutar de este siempre ahora.

Para la mitología griega Cronos es el Dios del tiempo inexorable, cuyo paso nos lleva a un final; Kairos, en cambio, es el Dios del tiempo interior, el tiempo del espíritu, es el que nos devuelve la vida y en el que surge lo nuevo. Es la mirada anclada en el presente eterno que nos conduce a experimentar la paz.

Llegar a vivir en el tiempo de Kairos es estar receptivos a vivir plenamente y a recibir resplandores de esa conexión cósmica, que nos conduce la línea en espiral ascendente.

Es iluminar nuestro psiquismo, y el espejo del mundo exterior cambiará, pues el medio se adapta al ser, quizás alcancemos el despertar de la masa crítica, tan imperioso, para que se produzca la transformación de esta humanidad herida en una humanidad donde el bien común sea su estandarte.


Ángeles Román
 es profesora de filosofía, poeta y coautora del libro Espiritualidad y Política

Enlace a todos los artículos de Ángeles Román en el blog

9 comentarios:

  1. Ignoro la profundidad de esta intuición del tiempo íntimo del Kairós. En estos momentos me parece algo insustancial. Me da igual en qué tiempo espiritual o existencial viva yo. Ya lo pensaré en el momento que preceda a mi muerte. Es el tiempo histórico el que me inquieta. Todo lo que he leído me resulta anodino ante las urgencias del presente. Eso de iluminar nuestro psiquismo y que cambiará el espejo del mundo exterior… es como leer poesía de Paulo Coelho. Puede ser que sea así, pero cuando los seres humanos se debaten entre el no ser y la supervivencia, me parecen reflexiones que, tal vez, en otro tiempo fueran oportunas para espíritus cultivados. Hoy me parecen triviales.

  2. Responder

    Estimado Joselu:

    Comprendo tus palabras y tu referencia a este tiempo histórico inquietante, pero vemos que el hombre no ha aprendido de sus errores a través de las diferentes civilizaciones a pesar del progreso exterior, precisamente porque su mirada sigue siendo hacia afuera y su intención interna es para sí, la propuesta es conocernos interiormente y trascender hacia afuera y lo que ello implica, este trascender es el otro que es igual a mi y es la naturaleza, con ello, respeto, dignidad y solidaridad, en estos dos movimientos se plasma la espiritualidad, ser y dar. La motivación del artículo es una invitación a conocernos en los dos tiempos en los cuales operamos, es claro que prevalece enormemente el tiempo lineal, pero si nos damos cuenta y mantenemos la atención en el presente, salimos de la razón segmentada del hemisferio izquierdo y comenzamos a operar con el derecho que es integrador, creativo e intuitivo. La propuesta es comenzar a operar desde una dimensión que tenemos pero apenas atisbamos, pues nos dejamos llevar por un sin fin de pensamientos, muchos inútiles y muchos basados en temores y deseos, perdiendo la atención en un ahora pleno. Si cambiamos cambia el entorno si tenemos violencia generamos violencia, si tenemos paz no responderemos a la violencia y el otro baja los brazos. La crisis que impera hoy en el sistema es una crisis de valores, es una crisis espiritual, y ello tiene que ver con el comportamiento del ser humano y con la mirada que cada uno tiene, o es una mirada utilitarista basada en el interés y en el tener, o es una mirada cualitativa basada en aprender, en dar, es decir en el ser. Nos cuenta la historia que nunca nadie pudo cambiar el mundo, pero si cada uno sostenemos la mirada cualitativa de la vida, el mundo solo cambiará.

    Un cordial saludo

  3. Es una forma de pensar y decir poético -filosófica la de Ángeles Román.
    El párrafo final es el que cuenta. Entendamos que estamos todos sobre este planeta y que si no empezamos a practicar la solidaridad nos seguiremos hundiendo.Todo es de todos y solo lo disfrutan unos pocos con un egoismo que aterra.
    El cambio de las cosas no necesita de un millón hablando al mismo tiempo. Con una sola ( A.Román por ejemplo ) se puede iniciar el proceso hacia una tierra para todos y todos cuidando de la Tierra.

    Responder

  4. “Es la mirada anclada en el presente eterno que nos conduce a experimentar la paz.”

    “Estar en el presente es un ejercicio de permanencia, de atención, de observación que debemos realizar.”

    Gracias por este precioso escrito, Ángeles Román, Cristobal…
    Un saludo.

    Responder

  5. Gracias por tu artìculo, Ángeles; es una brisa fresca en este mundo con tanta gente indiferente y centrada sòlo en sì misma,y sòlo pasar…sin màs.
    Creo firmemente que en algùn momento, con màs personas con conciencia, se va a hacer la masa crítica necesaria para que los cambios se produzcan…
    Saludos

    Responder

  6. Interesante.
    Inmersos en este mundo materialista es bueno hablar de consciencia

    Responder

  7. Mirar hacia adentro, eso es lo que debemos aprender. Lamentablemente el hombre de hoy está tan aterrado de él mismo que no se atreve, por ello se aferra a lo que está enfrente de él. Mira hacia afuera y se carga de expectativas, esperando que suceda lo que cambiará su mundo, sin darse cuenta que el único responsable de cualquier cambio es él. Gracias por este articulo que es una propuesta para un mundo mejor.

    Responder

  8. A pesar de lo que muchos afirman, el tiempo interior del que habla el artículo es algo consustancial al propio ser humano, es decir, no existe ser humano que no tenga una conciencia más o menos amplia de ese tiempo interior, eterno, fresco, vivo y vibrante. Todos lo hemos experimentado en alguna ocasión y lo seguiremos experimentando. Lo experimentaron los hombres prehistóricos y lo experimentará la humanidad de dentro de varios siglos. Es algo natural, inevitable y necesario. Lo que en mi opinión debemos hacer es en primer lugar amplificar la conciencia de ese tiempo, ser cada día más conscientes de él, permitir que se manifieste dentro, para que lo de fuera gire en torno a él. Hacer del tiempo interior el centro del tiempo externo, he ahí la verdadera maestría del tiempo, he ahí el nacimiento de la eternidad.

    Christian
    Orden Rosacruz

    Responder

  9. Desde acá se te lee y se comparte con sincronía. Sin Cronos.
    Es amor y verdad lo que transmiten tus palabras.

    Es el ahora la vida, pues esta espiritualidad es también llamada presencia y consciencia.
    El ayer siempre estará en el pasado y el mañana nunca llega.
    El Ayer es memoria y el mañana expectativa.

    Si estamos un poco desintonizados con el otro, silenciemos por un momento nuestros pensamientos, nuestra mente que condiciona, y escuchemos con gusto lo que se pronuncia ahora.

    Con todo amor, sin tener que conocerte, te digo a ti, que estas leyendo esto: Toma por favor el tiempo de escuchar. Comparto contigo otra voz que comunica esta alegría, que es mi misma voz, y la tuya, pues es manifestación de alegría.

    Juan Felipe

LA URGENCIA DE LA TRANSFORMACIÓN, POR ECKHART TOLLE

Fonte:http://espiritualidadypolitica.blogspot.com.es

 
La vida, ya sea de una especie o de una forma individual, muere, o se extingue, o se impone por encima de las limitaciones de su condición por medio de un salto evolutivo siempre que se ve enfrentada a una crisis radical, cuando ya no funciona la forma anterior de ser en el mundo o de relacionarse con otras formas de vida y con la naturaleza, o cuando la supervivencia se ve amenazada por problemas aparentemente insuperables.

Se cree que las formas de vida que habitan este planeta evolucionaron primero en el mar. Cuando todavía no había animales en la superficie de la tierra, el mar estaba lleno de vida. Entonces, en algún momento, alguna de las criaturas se aventuró a salir a la tierra seca. Quizás se arrastró primero unos cuantos centímetros hasta que, agobiada por la enorme atracción de la gravedad, regresó al agua donde esta fuerza prácticamente no existe y donde podía vivir con mayor facilidad. Después intentó una y otra vez hasta que, mucho después, pudo adaptarse a vivir en la tierra, desarrolló patas en lugar de aletas y pulmones en lugar de agallas. Parece poco probable que una especie se hubiera aventurado en semejante ambiente desconocido y se hubiera sometido a una transformación evolutiva a menos que alguna crisis la hubiera obligado a hacerlo. Quizás pudo suceder que una gran zona del mar hubiera quedado separada del océano principal y que el agua se hubiera secado gradualmente con el paso de miles de años, obligando a los peces a salir de su medioambiente y a evolucionar.

El desafío de la humanidad en este momento es el de reaccionar ante una crisis radical que amenaza nuestra propia supervivencia. La disfunción de la mente humana egotista, reconocida desde hace más de 2.500 años por los maestros sabios de la antigüedad y amplificada en la actualidad a través de la ciencia y la tecnología, amenaza por primera vez la supervivencia del planeta. Hasta hace muy poco, la transformación de la conciencia humana (señalada también por los antiguos sabios) era tan sólo una posibilidad a la cual tenían acceso apenas unos cuantos individuos aquí y allá, independientemente de su trasfondo cultural o religioso. No hubo un florecimiento generalizado de la conciencia humana porque sencillamente no era todavía una necesidad apremiante.

Una proporción significativa de la población del planeta no tardará en reconocer, si es que no lo ha hecho ya, que la humanidad está ante una encrucijada desgarradora: evolucionar o morir. Un porcentaje todavía relativamente pequeño pero cada vez más grande de personas ya está experimentando en su interior el colapso de los viejos patrones egotistas de la mente y el despertar de una nueva dimensión de la conciencia.

Lo que comienza a aflorar no es un nuevo sistema de creencias ni una religión, ideología espiritual o mitología. Estamos llegando al final no solamente de las mitologías sino también de las ideologías y de los credos. El cambio viene de un nivel más profundo que el de la mente, más profundo que el de los pensamientos. En efecto, en el corazón mismo de la nueva conciencia está la trascendencia del pensamiento, la habilidad recién descubierta de elevarse por encima de los pensamientos, de reconocer al interior del ser una dimensión infinitamente más vasta que el pensamiento. Por consiguiente, ya no derivamos nuestra identidad, nuestro sentido de lo que somos de ese torrente incesante de pensamientos que confundimos con nuestro verdadero ser de acuerdo con la vieja conciencia. Es inmensa la sensación de liberación al saber que no somos esa “voz que llevamos en la cabeza”. ¿Quién soy entonces? Aquel que observa esa realidad. La conciencia que precede al pensamiento, el espacio en el cual sucede el pensamiento, o la emoción o la percepción.

El ego no es más que eso: la identificación con la forma, es decir, con las formas de pensamiento principalmente. Si es que hay algo de realidad en el concepto del mal (realidad que es relativa y no absoluta), su definición sería la misma: identificación total con la forma: las formas físicas, las formas de pensamiento, las formas emocionales. El resultado es un desconocimiento total de nuestra conexión con el todo, de nuestra unicidad intrínseca con “todo lo demás” y también con la Fuente. Este estado de olvido es el pecado original, el sufrimiento, el engaño. ¿Qué clase de mundo creamos cuando esta falsa idea de separación total es la base que gobierna todo lo que pensamos, decimos y hacemos? Para hallar la respuesta basta con observar la forma como los seres humanos se relacionan entre sí, leen un libro de historia o ven las noticias de la noche.

Si no cambian las estructuras de la mente humana, terminaremos siempre por crear una y otra vez el mismo mundo con sus mismos males y la misma disfunción.

Fuente: Extracto del libro Una Nueva Tierra de Eckhart Tolle

Dragon Dreaming

Fonte: http://sinapsesgaia.blogspot.com.br/

What is Dragon Dreaming?

Dragon Dreaming is a holistic method for the implementation of creative, collaborative, sustainable projects.
The dream of a peacefull world and the awareness of the global challenges in our society are diving us. Within, personal growth of every single person, community building and an active responsibility for our earth are same weighted in the focus.
Dragon Dreaming is for dreamers and pragmatists, for warriors and discouraged, for optimists and idealists, for philosophers and nature lovers, for spiritual people and seekers.
Dragon Dreaming wants to create awareness for the connection with all life – wants to live cooperation, responsibility, interconnection – for transformation towards a peaceful, safe and sound world.
O que é Dragon Dreaming?
Dragon Dreaming é um método holístico para a implementação de projetos criativos, colaborativos e sustentáveis.
O sonho de um mundo pacífico e a consciência dos desafios globais de nossa sociedade está se aprofundando em nós. Intimamente, o crescimento pessoal de cada pessoa, a construção de comunidades e uma responsabilidade ativa para com nossa Terra tem o mesmo peso neste foco.
Dragon Dreaming é para sonhadores e pragmáticos, para os guerreiros e desanimados, para os otimistas e idealistas, para os filósofos e amantes da natureza, para as pessoas espirituais e buscadores.
Dragon Dreaming quer criar o despertar para a conexão com toda a vida – quer viver a cooperação, a responsabilidade, a interligação – por uma transformação em direção a um mundo pacífico, seguro e sadio.
 
ARTIGO 6
A natureza de um Projeto Gaia
por John Croft
tradução de Roberta Thomaz Bruscagin – revisão, nesta mensagem, de Claudio Estevam Próspero
http://dragondreamingbrasil.blogspot.com.br/p/artigos.html
IntroduçãoDragon Dreaming vive através dos projetos com os quais se compromete e apoia – se por alguma razão os projetos pararem, Dragon Dreaming deveria, de forma sensata, parar também.
Mas o que constitui um projeto? Como os projetos começam e como você ou outras pessoas poderiam se envolver em um Projeto Gaia, da Dragon Dreaming?
A palavra projeto literalmente significa “arremessar, projetar” – é um verbo e também pode ser um substantivo. Dragon Dreamers são “ativistas” e os Projetos Gaia existem como “ações”, e provavelmente tem mais em comum com o significado verbal da palavra “projeto” do que com o significado substantivo (o que se tem a intenção de fazer) da palavra.
Você pode vir a nunca entender algo até que você tente muda-lo. À medida que você muda você se descobre. À medida que você muda o mundo você descobre o mundo. Seu projeto de vida é o caminho através do qual, enquanto você está se transformando, você simultaneamente está transformando o mundo.
Começa com a intenção. Para o Gaia Foundation, da Austrália ocidental:
“Nossa intenção é capacitar carinhosamente a nós e aos outros para conhecermos a unidade com Gaia, a Terra viva, através de tomada de medidas corajosas e alegres, agora”.
Mas se um projeto Gaia tem esse sentido, o que é essa “ação” que é “arremessada” dessa forma? Um projeto Gaia pode ser definido como:
“Qualquer série de tarefas ou atividades, realizadas por qualquer pessoa, que ajuda a criar uma visão ou alcançar uma meta para o futuro de acordo com seus objetivos.”
O que é “arremessado” no projeto é a intenção dos iniciadores, ou a visão da diferença que o projeto poderia causar, nas suas próprias vidas, e nas vidas dos outros que se envolvem.
Assim todos os Projetos Gaia começam como o sonho de uma pessoa, que tem como objetivo fazer a diferença no mundo. Mas isso é provavelmente a verdade de qualquer projeto, bem como, a natureza de um Projeto Gaia.
Para ser um Projeto Gaia, o projeto tem que atender a três objetivos simultaneamente:
• Primeiro ele tem que ser um projeto de crescimento pessoal, para as pessoas que estão e estarão envolvidas. O projeto almeja ampliar nossas capacidades e nos permitir viver em maior medida para além de nossos limites auto-impostos, fora de todo o potencial que temos como seres humanos. Isso significa que o projeto tem que ter um compromisso com a sua cura e o seu empoderamento, seu e das outras pessoas que se envolvem.
• Segundo ele tem que ser um projeto de construção comunitária – fortalecendo as comunidades de que você faz parte. Comunidade é um termo que frequentemente tem sido usado com certo abuso em casos em que as comunidades não existem de fato. Nós olharemos o verdadeiro significado da palavra “comunidade” posteriormente. Por agora vamos dizer que comunidades das quais somos membros são sempre mais do que humanas.
• Terceiro, ele tem que ser um projeto a serviço da Terra – melhorando o bem-estar e a prosperidade de toda a vida. A Terra nos dá tanto que tendemos a considera-la como um direito adquirido. Como Daniel Quinn sugere, nossa cultura é a cultura dos “Pegadores”, não dos “Leavers” ou “Doadores”. Projetos Gaia objetivam reverter isso, para devolver a Terra, em gratidão pelo que a Terra tem nos dado.
[Referências acrescentadas ao texto]
escoladeredes.net/group/bibliotecadanielquinn/forum/…/alem-da-civilizacao
14 jan. 2010  [Inovação necessária] Tribalismo étnico => Civilização de conquista => ?
Publicado por Claudio Estevam Próspero em 8 abril 2009 às 8:37 em 
escoladeredes.net/profiles/blogs/alem-da-civilizacao
29 mar. 2009  Foi uma grata surpresa encontrar na Biblioteca E=R um link para esta obra de
Daniel Quinn. Tive a oportunidade de ler, já há alguns anos, 
escoladeredes.net/group/bibliotecadanielquinn – Em cache
Escola de Redes  QUINN, Daniel (1999): Além da civilização. QUINN  Além
da Civilização – Comentários e Extratos para estudo compartilhado 5 respostas 
Nesse sentido qualquer ação que busca esses três objetivos, e aja além da intenção de homens e mulheres comuns, pode ser chamada de Projeto Gaia.
Os projetos podem ser de três tipos:
1. Primeiramente, há projetos que são realizados desde o início como “um projeto Gaia”. Estes são projetos que as pessoas podem iniciar e que estão desde o início sendo considerados por eles e pelos outros como “projetos” de Gaia. Eles podem se anunciar como um “Projeto Gaia” para outras pessoas que estiveram envolvidas em atividades de projetos Gaia no passado, e assim, podem recorrer a outros recursos, de outros projetos, ou recorrer a outras pessoas, envolvidas em outros projetos por sua vez.
2. Em Segundo lugar, há projetos que podem não começar como “um projeto Gaia”, mas como projetos em que os Membros Gaia emprestam apoio pessoal de alguma forma, como se fossem todos membros da mesma organização. Dessa maneira, o projeto pode ser desenvolvido por alguns membros que cumprem os objetivos da organização, embora em todos os outros sentidos o projeto seja independente dessa organização. Em tais casos, às vezes, a organização pode desejar o patrocínio ou tentar usar alguns dos recursos de outros Projetos Gaia, para garantir seu sucesso.
3. Finalmente, há projetos que parecem não ter nada a ser feito com o processo Dragon Dreaming. Eles podem ser iniciados por outras organizações, para seus próprios fins, e como membro você decide dar suporte a este projeto como seu próprio projeto de crescimento pessoal, construção comunitária e serviço a Terra. Nesses casos, cabe ao indivíduo envolvido decidir se ele ou ela informa os outros membros do projeto que eles estão engajados em um projeto Gaia pessoal.
Aqui estamos preocupados apenas com o primeiro tipo de Projeto Gaia, embora o que se segue possa ser objeto de consideração para os Membros Gaia e até mesmo para outras pessoas envolvidas em outros tipos de projetos também.

COMO OS PROJETOS SE INICIAM

Todo projeto que já começou foi o resultado de um profundo encontro na comunidade, um encontro entre um “eu” individual e o ambiente de seu “mundo”, um mundo que é considerado “não-eu” ou “outro”. Esse encontro se é para ter sucesso requer uma contribuição, um “input” de ambos o “eu” e o “mundo”. Ao mesmo tempo, se é para ser verdadeiramente bem sucedido ele provoca uma mudança, ou um desenvolvimento do “mundo”, simultaneamente produzindo uma mudança, ou uma educação, no “eu’ do individuo. Dessa forma “desenvolvimento comunitário” e “auto-educação” são imagens espelhadas e opostas, um – “desenvolvimento” – sendo o que acontece no mundo como resultado de um projeto e outro – “educação” – sendo o que acontece ao individuo.
A natureza desse desenvolvimento é frequentemente mal compreendida. “Desenvolvimento” é uma palavra mal empregada na linguagem moderna, sendo que muitos “projetos de desenvolvimento” são, na realidade, nada mais que formas de profunda destruição e danos – estragos em um lugar, em uma comunidade e muitas vezes na própria natureza dos indivíduos que estão envolvidos.
Na realidade, a fim de descobrir a verdadeira natureza do desenvolvimento nós precisamos retornar para os verdadeiros significados da palavra.
A palavra “desenvolvimento” é constituída por três elementos:
• des- = prefixo que significa “remover”, “libertar” ou “soltar
• envolve = do Latin volupe na queda de Roma, significando “aquelas coisas que nos colocam para baixo
• -mento = sufixo que significa “o processo de
Então desenvolvimento pode ser definido como “o processo que nos liberta dos fatores que nos mantem pra baixo”. Desenvolvimento verdadeiro, por sua própria natureza envolve libertação e liberdade, fatores que nós iremos voltar a considerar mais tarde.
Assim como nós não entendemos a natureza do desenvolvimento, nós também não entendemos a natureza do processo de educação. As pessoas confundem educação com instrução, embora as duas sejam a mesma.Instrução do verbo instrúere que se formou do prefixo in- e do verbo strúere, no itálico vinculado ao tema STREU, alargamento de grau zero da raiz indo-européia STER- cuja acepção era a de “estender, espalhar”. Na língua de Cícero, strúere era entendido semanticamente como “amontoar materiais, ajuntar”. É um processo baseado na premissa da ignorância de um aprendiz e do conhecimento do instrutor, uma transferência de aprendizagem que também tem o significado de “disciplinar, colocar sob controle, deliberadamente treinar ou acostumar”. Muitas pessoas erroneamente acreditam que a educação termina quando a instrução formal também acaba. Isto está longe da verdade. A educação é – sempre tem sido – e sempre será – um processo vitalício, desde o berço até o túmulo.
A palavra educação vem de
• e-ducare = latim – verbo com sentido de “criar”. Etimologicamente significando “trazer à luz a ideia”, ou ainda, “tirar o que está dentro”.
• -ção = sufixo significando “a ação de”
Educação, portanto, significa “ação de alcançar o potencial interior”, ao invés de ter algo adicionado por meio da instrução ou do treino.
Nós precisamos reconhecer que a educação vem em três tipos distintos
1. Instrução formal – estruturada entre a pré-escola ou jardim de infância, primário, secundário, terciário e sistemas educacionais profissionalizantes. Esse sistema de ensino é pago por dinheiro publico ou privado arrecadado com o propósito de “educar”.
2. Educação informal ou eventual – estruturada através de noticias midiáticas e documentais, da aprendizagem no trabalho e da aprendizagem que ocorre com a participação no dia-a-dia da vida social na comunidade.

3. Educação não-formal 
– é a educação que acontece pelo ato de engajamento, levando a uma reflexão entre pensamento e ação e de volta ao pensamento, numa “práxis” reflexiva, um processo chamado pelo educador brasileiro Paulo Freire de “conscientização”.
Um Projeto Gaia pode, a partir deste ponto de vista, ser visto como um projeto de Educação Não-Formal, embora ele possa ocorrer no contexto formal e informal.
O processo de educação e desenvolvimento sempre ocorre melhor em comunidades, que ao mesmo tempo produz e é produzida por esses dois processos. A palavra comunidade é também largamente usada e frequentemente mal utilizada, de maneira que tiraram da palavra muito de seus significados. Os políticos em particular gostam dessa palavra. Hoje, o que é dito ser comunidades não é, sendo, na realidade, meras coleções acidentais de pessoas que têm algo em comum, como se essa fosse a origem da palavra. Mas esta coletividade acidental não é realmente uma comunidade.
Assim como desenvolvimento, comunidade é composta de três elementos:
• com- = sufixo Latim que significa “com”, “junto” ou “em conjunto”
• -muni- = novamente uma palavra antiga do Latim, vinda do Indo-Europeo, que significa “um presente”, ou “uma ligação recíproca” ou “troca”
• – dade = do Latim –atis, que significa formar ou ter a qualidade de ou condição
Então comunidade pode ser definida como “aqueles com quem nós temos uma recíproca doação de presentes”, ou “as ligações locais ou trocas que nos deixam juntos”.
Uma verdadeira comunidade é, por isso, caracterizada pela qualidade da comunicação dos seus membros. É uma comunicação respeitosa, favorável e generosa – porque apenas quando a comunicação tem estas qualidades nós podemos dizer que uma comunidade, na realidade, existe. Agora é fácil ver porque temos tão poucas comunidades hoje em dia, ou porque as condições modernas de anonimato, em que tudo é comprar ou vender, ao invés de ser presenteado ou doado, são tão destrutivas para a comunidade.
Projetos Gaia são construídos ao redor desse conceito de “comunidade autêntica”. Qualquer um envolvido num Projeto Gaia está envolvido em um profundo sentimento de presentear – para eles mesmos; em sua própria educação e auto-desenvolvimento – uns aos outros; em construir uma sensação de comunidade – e – ao resto do mundo do qual eles fazem parte.
Assim essa primeira dimensão, do eu-outro, ou individuo-comunidade-ambiente, nos fornece um modelo unidimensional de um projeto. Ele nos leva a considerar naturalmente uma segunda dimensão de um projeto baseado na “conscientização” – o reflexo de pensamento-ação ou teoria-prática.
Qualquer projeto baseado em ação, ou prática, sem levar em consideração “pensar sobre o mundo”, é cego. Similarmente, aqueles projetos baseados exclusivamente e apenas no pensamento ou na teoria, que nunca levam a uma ação ou prática, são irrelevantes. Os projetos que são mais bem sucedidos, sempre são aqueles que chegam a uma melhor integração entre teoria e prática.
Como antes, há uma série de trocas recíprocas entre o projeto e a teoria e a prática. Os indivíduos sempre iniciam um projeto com uma compreensão teórica de como as palavras do mundo dizem que o mundo é – uma visão baseada no senso comum cultural que eles acumularam durante o curso de suas vidas. Esta visão do senso comum do que é real é, entretanto, uma forma de delírio consensual. Outras realidades são possíveis, de fato a realidade de qualquer um é uma construção pessoal – e duas pessoas não vivem no “mesmo mundo” – assim como seu ponto de vista é feito a partir de sua própria experiência. Algumas dessas experiências vêm antes do nascimento, na natureza de sua experiência no útero, outras vêm da pré-infância, de sua família de origem, de experiências na escola e com os colegas. Camada sobre camada é construída, e dessa forma nós eventualmente construímos um modelo interior de como acreditamos que o mundo funciona. Neste modelo de mundo nós implantamos uma “auto-imagem” – um modelo de nós mesmos. Isso compreende o mundo que habitamos. Nossas ações são moldadas, não pelo que verdadeiramente acontecerá, mas pelo que nós acreditamos que irá acontecer. Nossa “auto-imagem” também determina o que nós acreditamos sermos capazes de fazer, de quem nós acreditamos sermos capazes de ser.
Estabelece um teto, contra o qual estamos continuamente nos medindo e nos limitando. Assim, a “auto-imagem” de cada um de nós é construída a partir de um pré-julgamento, é literalmente uma forma de “pré-julgamento”. Na verdade, é a pior forma de preconceito, muito mais prejudicial do que qualquer racismo ou sexismo. Ao contrário destes últimos, por conta do preconceito que temos contra nós mesmos – é a única forma de preconceito da qual nunca escapamos. Mas, o desenvolvimento, como vimos, promete libertação – e o Projeto Gaia oferece uma forma de libertação.
Essa é a natureza essencial de um Projeto Gaia. Assim que alguém se engaja no projeto começa a contribuir a partir de dentro da segurança de sua própria visão pré-existente de si e do mundo. Mas o processo de envolvimento transformará ambas as visões. Ninguém que completa um projeto é a mesma pessoa que era quando começou – uma transformação mensurável ocorreu.
Não é apenas uma transformação de pensamentos ou das teorias nas quais nós vivemos nossas vidas. É também uma transformação de nossas habilidades, as práticas e ações pelas quais vivemos nossas vidas. O que um ser humano é capaz de fazer? Quem você é capaz de ser? Você sabe? Quando alguém estuda história, encontra inumeráveis exemplos de pessoas que alcançaram coisas incríveis. Estamos presos em um momento de crise histórica onde nós estamos sendo chamados a ir adiante, para ser o que nascemos para nos tornarmos – agentes do processo pelo qual o Universo se transforma, alcançando assim sua própria salvação.
Todo Projeto Gaia, não importa se grande ou pequeno, tem seu potencial transformador.
CONSTRUINDO A ESTRUTURA PARA SEU PROJETO
Central para nossa concepção de mundo é um modelo de poder. Desde a era dos antigos gregos, nós, no Ocidente, acreditamos que aquelas coisas que são reais tem uma capacidade de resistir. O que é efêmero é visto como não real, algo que é apenas transitório. Na física clássica, por exemplo, objetos materiais eram reais. Forças são aplicadas a esses objetos para leva-los a mudarem de posição. A aceleração produzida é alcançada através da aplicação de força, e energia foi vista como a capacidade de fazer esse trabalho. Gregory Bateson, o pensador dos sistemas argumentou:
“O mito do poder é, é claro, um mito muito poderoso; e, provavelmente, a maioria das pessoas nesse mundo acredita nele, mais ou menos… Mas ainda é uma loucura epistemológica e leva inevitavelmente a todo tipo de desastre… Se continuarmos a operar em termos de um dualismo Cartesiano da mente versus matéria, nós também veremos provavelmente o mundo em termos de Deus versus homem; elite versus pessoas; raça escolhida versus as outras; nação contra nação e homem versus ambiente. É duvidoso que uma espécie, tendo uma tecnologia avançada e esta estranha forma de olhar o mundo, possa resistir …
O todo do nosso pensamento sobre quem somos e o que outras pessoas são tem que ser reestruturado. Isso não é engraçado, e eu não sei quanto tempo nós teremos para faze-lo. Se continuarmos a funcionar nas premissas que foram moda durante a era Pré-cibernética, e que foram especialmente delineadas durante a Revolução Industrial, que parece ter validado a visão Darwiniana de sobrevivência, nós podemos ter 20 ou 30 anos antes da lógica reductio ad absurdum de nossas antigas posições nos destruírem. Ninguém sabe quanto tempo temos, sob o atual sistema, antes que algum desastre, mais grave do que a destruição de qualquer grupo de nações nos atinja. A tarefa mais importante hoje é, talvez, a de aprender a pensar de um jeito diferente.”
As duas dimensões separadas apresentadas acima, quando combinadas, nos fornecem o tipo de conexão cibernética entre a situação do mundo e como nós o vemos. Por exemplo, pegue as duas dimensões separadas e as sobreponha, uma em cima da outra. Você ganha um modelo sintético deempoderamento que irá ajudá-lo a tornar qualquer projeto que você faça de muito sucesso.
Esse é o começo da jornada que fará você transformar seu sonho em realidade. Sonhos você segura na palma de suas mãos. Dragon Dreaming ajudará na mudança do seu poder para transformar este sonho em realidade.

O Manifesto da Transdiciplinaridade – Basarab Niclescu

Fonte:http://resresil.blogspot.com.br/search/label/transdisciplinaridade

Amanhã será tarde demais
 
Duas verdadeiras revoluções atravessaram este século: a revolução quântica e a revolução informática.
revolução quântica poderia mudar radical e definitivamente nossa visão do mundo. E, no entanto, desde o começo do século XX nada aconteceu. Os massacres dos homens pelos homens aumentam sem cessar.
A antiga visão continua senhora deste mundo. De onde vem esta cegueira? De onde vem este desejo perpétuo de fazer o novo com o antigo? A novidade irredutível da visão quântica continua pertencendo a uma pequena elite de cientistas de ponta. A dificuldade de transmissão de uma nova linguagem hermética — a linguagem matemática — é, sem dúvida, um obstáculo considerável; porém não intransponível. De onde vem este desprezo pela Natureza, que se pretende, sem nenhum argumento sério, muda e impotente no plano do sentido de nossa vida?
A revolução informática, que se desenrola diante de nossos olhos maravilhados e inquietos, poderia levar a uma grande liberação do tempo, a ser assim consagrado à nossa vida e não, como para a maioria dos seres sobre esta Terra, à nossa sobrevivência. Ela poderia levar a uma partilha de conhecimentos entre todos os humanos, prelúdio de uma riqueza planetária compartilhada. Mas, aí também, nada acontece. Os comerciantes apressam-se para colonizar o espaço cibernético e profetas incontáveis só nos falam dos perigos iminentes. Porque somos tão inventivos, em todas as situações, em descobrir todos os perigos possíveis e imaginários, mas tão pobres quando se trata de propor, de construir, de erguer, de fazer emergir o que é novo e positivo, não num futuro distante, mas no presente, aqui e agora?
O crescimento contemporâneo dos saberes não tem precedentes na história humana. Exploramos escalas outrora inimagináveis: do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, do infinitamente curto ao infinitamente longo. A soma dos conhecimentos sobre o Universo e os sistemas naturais, acumulados durante o século XX, ultrapassa em muito tudo aquilo que pôde ser conhecido durante todos os outros séculos reunidos. Como se explica que quanto mais sabemos do que somos feitos, menos compreendemos quem somos? Como se explica que a proliferação acelerada das disciplinas torne cada vez mais ilusória toda unidade do conhecimento? Como se explica que quanto mais conheçamos o universo exterior, mas o sentido de nossa vida e de nossa morte seja deixado de lado como insignificante e até absurdo? A atrofia do ser interior seria o preço a ser pago pelo conhecimento científico? A felicidade individual e social, que o cientificismo nos prometia, afasta-se indefinidamente como uma miragem.
Dirão a nós que a humanidade sempre esteve em crise e que sempre encontrou os meios para sair dela. Esta afirmação era verdadeira outrora. Hoje, equivale a uma mentira. Pois, pela primeira vez em sua história, a humanidade tem a possibilidade de destruir a si mesma inteiramente, sem nenhuma possibilidade de retorno.
Esta destruição potencial de nossa espécie tem uma tripla dimensão: material, biológica e espiritual. Na era da razão triunfante, o irracional é mais atuante que nunca.

As armas nucleares acumuladas na superfície de nosso planeta podem destruí-lo completamente várias vezes, como se uma única vez não bastasse. A guerra branda substitui a guerra fria. Ontem as armas eram zelosamente guardadas por algumas potências; hoje passeia-se com suas peças desmontadas debaixo do braço de um lado para outro do planeta e amanha estarão à disposição de qualquer pequeno tirano. Qual seria o milagre da dialética que faz com que sempre se pense na guerra quando falamos da paz? De onde vem a loucura assassina do ser humano? De onde vem sua misteriosa e imensa capacidade de esquecer?  Milhões de mortos por nada, sob nossos olhos insensíveis, hoje, em nome de ideologias passageiras e dos inúmeros conflitos cujo motivo profundo nos escapa.
Pela primeira vez em sua história, o ser humano pode modificar o patrimônio genético de nossa espécie. Na falta de uma nova visão do mundo, deixar o barco correr equivale a uma autodestruição biológica potencial. Não avançamos nem um milímetro no que diz respeito às grandes questões metafísicas, mas nos permitimos intervir nas entranhas de nosso ser biológico. Em nome do que?
Sentados em nossa cadeira, podemos viajar à velocidade máxima permitida pela Natureza: a velocidade da luz. O tamanho da Terra reduz-se progressivamente a um ponto: o centro de nossa consciência. Devido ao casamento insólito entre nosso próprio corpo e a máquina informática, podemos modificar livremente nossas sensações até criarmos uma realidade virtual, aparentemente mais verdadeira que a realidade de nossos órgãos dos sentidos. Nasceu assim, imperceptivelmente, um instrumento de manipulação das consciências em escala planetária. Em mãos imundas, este instrumento pode levar à destruição espiritual de nossa espécie. Esta tripla destruição potencial — material, biológica e espiritual — é, na verdade, o produto de uma “tecnociência” cega, mas triunfante, que só obedece à implacável lógica da eficácia pela eficácia. Mas como pedir a um cego que enxergue?
Paradoxalmente, tudo está estabelecido para nossa autodestruição, mas tudo também está estabelecido para uma mutação positiva comparável às grandes reviravoltas da História. O desafio da autodestruição tem sua contrapartida na esperança do auto-nascimento. O desafio planetário da morte tem sua contrapartida numa consciência visionária, transpessoal e planetária, que se alimenta do crescimento fabuloso do saber. Não sabemos para que lado penderá a balança. Por isto é necessário agir com rapidez, agora. Pois amanhã será tarde demais.
Grandeza e decadência do cientificismo
Desde a noite dos tempos a mente humana permanece obcecada pela idéia de leis e de ordem, que dão sentido ao Universo onde vivemos e à nossa própria vida. Os antigos inventaram assim a noção metafísica, mitológica e metafórica de cosmo. Eles se acomodavam muito bem a uma Realidade multidimensional, povoada de diversas entidades, dos homens aos deuses, passando eventualmente por toda uma série de intermediários. Estas diferentes entidades viviam em seu próprio mundo, regido por suas próprias leis, mas estavam interligadas por leis cósmicas comuns geradoras de uma ordem cósmica comum. Assim os deuses podiam intervir nos assuntos dos homens, os homens eram às vezes semelhantes aos deuses e tudo tinha um sentido, ora mais, ora menos escondido, mas ainda assim um sentido.
A ciência moderna nasceu de uma ruptura brutal em relação à antiga visão de mundo. Ela está fundamentada numa idéia, surpreendente erevolucionária para a época, de uma separação total entre o indivíduo conhecedor e a Realidade, tida como completamente independente ao indivíduo que a observa. Mas, ao mesmo tempo, a ciência moderna estabelecia três postulados fundamentais, que prolongavam, a um grau supremo, no plano da razão, a busca de leis e da ordem:
1. A existência de leis universais, de caráter matemático.
2. A descoberta destas leis pela experiência cientifica.
3. A reprodutibilidade perfeita dos dados experimentais.
 
Uma linguagem artificial, diferente da linguagem da tribo — as matemáticas — era assim elevada, por Galileu, ao nível de linguagem comum entre Deus e os homens. Os sucessos extraordinários da física clássica, de Galileu, Kepler e Newton até Einstein, confirmaram a justeza destes três postulados. Ao mesmo tempo, eles contribuíram para a instauração de um paradigma da simplicidade, que se tornou predominante na entrada do século XIX. A física clássica conseguiu construir, ao longo de dois séculos, uma visão do mundo apaziguante e otimista, pronto a acolher, no plano individual e social, o surgimento da idéia de progresso.

A física clássica está fundamentada na idéia de continuidade, de acordo com a evidência fornecida pelos órgãos dos sentidos: não se pode passar de um ponto a outro do espaço e do tempo sem passar por todos os pontos intermediários. Além disso, os físicos já tinham à sua disposição um aparelho matemático fundado na continuidade: o cálculo infinitesimal de Leibniz e Newton.
A idéia de continuidade está intimamente ligada a um conceito chave da física clássica: a causalidade local. Todo fenômeno físico poderia ser compreendido por um encadeamento contínuo de causas e efeitos: a cada causa em um ponto dado corresponde um efeito em um ponto infinitamente próximo e a cada efeito em um ponto dado corresponde uma causa em um ponto infinitamente próximo. Assim dois pontos separados por uma distância, mesmo que infinita, no espaço e no tempo, estão, todavia, ligados por um encadeamento contínuo de causas e efeitos: não há necessidade alguma de qualquer ação direta à distância. A causalidade mais rica dos antigos, como, por exemplo, a de Aristóteles, era reduzida a um só destes aspectos: a causalidade local. Uma causalidade formal ou uma causalidade final já não tinha seu lugar na física clássica. 

As conseqüências culturais e sociais de uma tal amputação, justificada pelos sucessos da física clássica, são incalculáveis. Mesmo hoje aqueles muitos que não têm agudos conhecimentos de filosofia, consideram como uma evidência indiscutível a equivalência entre “a causalidade” e “a causalidade local”, a tal ponto que o adjetivo “local” é, na maioria dos casos, omitido.

O conceito de determinismo podia realizar assim sua entrada triunfante na história das idéias. As equações da física clássica são de tal natureza que, se soubermos as posições e as velocidades dos objetos físicos num dado instante, podemos prever suas posições e velocidades em qualquer outro momento do tempo. As leis da física clássica são leis deterministas. Os estados físicos sendo funções de posições e de velocidades, resultando daí que, se especificamos as condições iniciais (o estado físico num determinado instante), podemos prever completamente o estado físico em qualquer outro momento dado do tempo.
É evidente que a simplicidade e a beleza estética de tais conceitos — continuidade, causalidade local, determinismo — tão operativos na Natureza, tenham fascinado os maiores espíritos destes quatro últimos séculos, incluindo o nosso.
 
Faltava dar um passo que já não era de natureza científica, mas de natureza filosófica e ideológica: proclamar a física rainha das ciências. Mais precisamente, reduzir tudo à física e o biológico e o psíquico aparecendo apenas como etapas evolutivas de um único e mesmo fundamento. Este passo foi facilitado pelos avanços indiscutíveis da física. Assim nasceu a ideologia cientificista, que surgiu como uma ideologia de vanguarda e que experimentou uma extraordinária disseminação no século XIX. Com efeito, perspectivas inusitadas abriram-se diante do espírito humano.
Se o Universo não passasse de uma máquina perfeitamente regulada e perfeitamente previsível, Deus poderia ser relegado à condição de simples hipótese, não necessária para explicar o funcionamento do Universo. O Universo foi subitamente dessacralizado e sua transcendência jogada nas trevas do irracional e da superstição. A Natureza oferecia-se ao homem como uma amante, para ser penetrada em suas profundezas, dominada, conquistada. Sem cair na tentação de uma psicanálise do cientificismo. somos obrigados a constatar que os escritos cientificistas do século XIX sobre a Natureza estão repletos de alusões sexuais das mais desenfreadas.
Seria de se espantar que a feminilidade do mundo tivesse sido negligenciada, ultrajada, esquecida numa civilização baseada na conquista, na dominação, na eficácia a qualquer preço? Como conseqüência funesta, mas inevitável, a mulher é geralmente condenada a desempenhar um papel menor na organização social.
Na euforia cientificista da época, era natural postular, como Marx e Engels o fizeram, o isomorfismo entre as leis econômicas, sociais, históricas e as leis da Natureza. Todas as idéias marxistas estão baseadas, em última análise, nos conceitos provenientes da física clássica: continuidade, causalidade local, determinismo, objetividade.
Se a História submete-se, como a Natureza, a leis objetivas e deterministas, podemos fazer tábua rasa do passado, por uma revolução social ou qualquer outro meio. Com efeito, tudo o que importa é o presente, como condição inicial mecânica. Impondo certas condições iniciais sociais bem determinadas, podemos prever de maneira infalível o futuro da humanidade. Basta que as condições iniciais sejam impostas em nome do bem e do verdadeiro — por exemplo, em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade — para construir a sociedade ideal. A experiência foi feita em escala planetária, com os resultados que conhecemos.
Quantos milhões de mortos por alguns dogmas? Quanto sofrimento em nome do bem e da verdade? Como idéias tão generosas em sua origem transformaram-se em seus opostos?
No plano espiritual, as conseqüências do cientificismo também foram consideráveis. Um conhecimento digno deste nome só pode ser científico, objetivo. A única Realidade digna deste nome era, naturalmente, a realidade objetiva, regida por leis objetivas. Todo conhecimento, além do científico, foi afastado para o inferno da subjetividade, tolerado no máximo como ornamento, ou rejeitado com desprezo como fantasma, ilusão, regressão, produto da imaginação. A própria palavra “espiritualidade” tornou-se suspeita e seu uso foi praticamente abandonado.
A objetividade, instituída como critério supremo de verdade, teve uma conseqüência inevitável: a transformação do sujeito em objeto. A morte do homem, que anuncia tantas outras mortes, é o preço a pagar por um conhecimento objetivo. O ser humano torna-se objeto: objeto da exploração do homem pelo homem, objeto de experiências deideologias que se anunciam científicas, objeto de estudos científicos para ser dissecado, formalizado e manipulado. O homem-Deus é um homem objeto cuja única saída é se autodestruir. Os dois massacres mundiais deste século, sem levar em conta as inúmeras guerras locais, que também fizeram incontáveis cadáveres, não passam do prelúdio de uma autodestruição em escala planetária

Ou, talvez, de um auto-nascimento. No fundo, além da imensa esperança que suscitou, o cientificismo nos legou uma idéia persistente e tenaz: a da existência de um único nível de Realidade, no qual a única verticalidade concebível é a da pessoa ereta numa Terra regida pela lei da gravidade universal.

Física quântica e níveis de Realidade

Por uma dessas estranhas coincidências, das quais a História possui os segredos, a mecânica quântica, a primeira guerra mundial e a revolução russa surgiram praticamente ao mesmo tempo. Violência e massacres no plano do visível e revolução quântica no plano do invisível. Como se os espasmos visíveis do mundo antigo fossem acompanhados pelo surgimento discreto, quase imperceptível, dos primeiros sinais do novo mundo. Os dogmas e as ideologias que devastaram o século XX vieram do pensamento clássico, baseados nos conceitos da física clássica. Uma nova visão do mundo iria arruinar os fundamentos de um pensamento que não parou de acabar.
 
No começo do século XX, Max Planck confrontou-se com um problema de física, de aparência inocente, como todos os problemas de física. Mas, para resolvê-lo, ele foi conduzido a uma descoberta que provocou nele, segundo seu próprio testemunho, um verdadeiro drama interior. Pois ele tinha se tornado a testemunha da entrada da descontinuidade no campo da física. Conforme a descoberta de Planck, a energia tem uma estrutura discreta, descontínua. O “quantum” de Planck, que deu seu nome à mecânica quântica, iria revolucionar toda física e mudar profundamente nossa visão do mundo.
Como compreender a verdadeira descontinuidade, isto é, imaginar que entre dois pontos não há nada, nem objetos, nem átomos, nem moléculas, nem partículas, apenas nada. Aí, onde nossa imaginação habitual experimenta uma enorme vertigem, a linguagem matemática, baseada num outro tipo de imaginário, não encontra nenhuma dificuldade. Galileu tinha razão: a linguagem matemática tem uma natureza diversa da linguagem humana habitual.
Colocar em questão a continuidade significa colocar em questão a causalidade local e abrir assim uma temível caixa de Pandora. Os fundadores da mecânica quântica — Planck, Bohr, Einstein, Pauli, Heisenberg, Dirac, Schrödinger, Bohm, de Broglie e alguns outros, que também tinham uma sólida cultura filosófica, estavam plenamente conscientes do desafio cultural e social de suas próprias descobertas. Por isto avançavam com grande prudência, enfrentando polêmicas acirradas. Porém, enquanto cientistas, eles tiveram que se inclinar, não importando suas convicções religiosas ou filosóficas, diante das evidências experimentais e da autoconsistência teórica.
Assim começou uma extraordinária Mahabharata moderna, que iria atravessar o século XX e chegar até os nossos dias.
Para esclarecer a metodologia da transdisciplinaridade, o autor optou por, ao longo de dois ou três capítulos, explanar os resultados um pouco abstratos da física quântica. O leitor é, portanto, convidado a percorrer algumas considerações teóricas antes de entrar no cerne da questão.
O formalismo da mecânica quântica e posteriormente, o da física quântica (que se disseminou depois da segunda guerra mundial, com a construção dos grandes aceleradores de partículas), tentaram, é verdade, salvaguardar a causalidade local tal como a conhecemos na escala macrofísica. Mas era evidente, desde o começo da mecânica quântica, que um novo tipo de causalidade devia estar presente naescala quântica, a escala do infinitamente pequeno e do infinitamente breve. Uma quantidade física tem, segundo a mecânica quântica, diversos valores possíveis, afetados por probabilidades bem determinadas. No entanto, numa medida experimental, obtém-se, evidentemente, um único resultado para a quantidade física em questão. 

Esta abolição brusca da pluralidade dos valores possíveis de um “observável” físico, pelo ato de medir, tinha uma natureza obscura mas indicava claramente a existência de um novo tipo de causalidade.

Sete décadas após o nascimento da mecânica quântica, a natureza deste novo tipo de causalidade foi esclarecida graças a um resultado teórico rigoroso — o teorema de Bell — e a experiências de uma grande precisão. Um novo conceito adentrava assim na física: a não separabilidade. Em nosso mundo habitual, macrofísico, se dois objetos interagem num momento dado e em seguida se afastam, eles interagem, evidentemente, cada vez menos. Pensemos em dois amantes obrigados a se separar, um numa galáxia e outro noutra. Normalmente, seu amor tende a diminuir e acabar por desaparecer.
No mundo quântico as coisas acontecem de maneira diferente. As entidades quânticas continuam a interagir qualquer que seja o seu afastamento. Isto parece contrário a nossas leis macrofísicas. A interação pressupõe uma ligação, um sinal e este sinal tem, segundo a teoria da relatividade de Einstein, uma velocidade limite: a velocidade da luz. Poderiam as interações quânticas ultrapassar este barreira da luz? Sim, se insistirmos em conservar, a todo custo, a causalidade local, e pagando o preço de abolir a teoria da relatividade. Não, se aceitarmos a existência de um novo tipo de causalidade: uma causalidade global’que concerne o sistema de todas as entidades físicas, em seu conjunto. E, no entanto, este conceito não é tão surpreendente na vida diária.
Uma coletividade — família, empresa, nação — é sempre mais que a simples soma de suas partes. Um misterioso fator de interação, não redutível às propriedades dos diferentes indivíduos, está sempre presente nas coletividades humanas, mas nós sempre o repelimos para o inferno da subjetividade. E somos forçados a reconhecer que em nossa pequena Terra estamos longe, muito longe da não separabilidade humana.
Em todo caso, a não separabilidade quântica não põe em dúvida a própria causalidade, mas uma de suas formas, a causalidade local. Ela não põe em dúvida a objetividade científica, mas uma de suas formas: a objetividade clássica, baseada na crença de ausência de qualquer conexão não local. A existência de correlações não locais expande o campo da verdade, da Realidade. A não separabilidade quântica nos diz que há, neste mundo, pelo menos numa certa escala, uma coerência, uma unidade das leis que asseguram a
evolução do conjunto dos sistemas naturais.
Um outro pilar do pensamento clássico — o determinismo — iria, por sua vez, desmoronar. As entidades quânticas: os quantuns são muito diferentes dos objetos da física clássica: os corpúsculos e as ondas. Se quisermos a qualquer preço ligá-los aos objetos clássicos, seremos obrigados a concluir que os quantuns são, ao mesmo tempo, corpúsculos e ondas, ou mais precisamente, que eles não são nem partículas nem ondas. Se houver uma onda, trata-se, antes, de uma onda de probabilidade, que nos permite calcular a probabilidade de realização de um estado final a partir de um certo estado inicial.
Os quantuns caracterizam-se por uma certa extensão de seus atributos físicos, como, por exemplo, suas posições e suas velocidades. As célebres relações de Heisenberg mostram, sem nenhuma ambiguidade, que é impossível localizar um quantum num ponto preciso do espaço e num ponto preciso do tempo. Em outras palavras, é impossível traçar uma trajetória bem determinada de uma partícula quântica. O indeterminismo reinante na escala quântica é um indeterminismo constitutivo, fundamental, irredutível, que de maneira nenhuma significa acaso ou imprecisão.
O aleatório quântico não é acaso.
A palavra “acaso” vem do árabe az-zahr que quer dizer “jogo de dados”. Com efeito, é impossível localizar uma partícula quântica ou dizer qual é o átomo que se desintegra num momento preciso. Mas isto não significa de modo algum que o acontecimento quântico seja um acontecimento fortuito, devido a um jogo de dados (jogado por quem?): simplesmente, as questões formuladas não têm sentido no mundo quântico. Elas não têm sentido porque pressupõe a existência de uma trajetória localizável, a continuidade, a causalidade local. No fundo, o conceito de “acaso”, como o de “necessidade”, são conceitos clássicos. O aleatório quântico é ao mesmo tempo acaso e necessidade ou, mais precisamente, nem acaso nem necessidade. O aleatório quântico é um aleatório construtivo, que tem um sentido: o da construção de nosso próprio mundo macrofísico. Uma matéria mais fina penetra uma matéria mais grosseira. As duas coexistem, cooperam numa unidade que vai da partícula quântica ao cosmo. Indeterminismo não quer de maneira alguma dizer “imprecisão”, se a noção de “precisão” não estiver implicitamente ligada, de maneira talvez inconsciente, às noções de trajetórias localizáveis, continuidade e causalidade local. As previsões da mecânica quântica sempre foram, até o presente, verificadas com uma grande precisão por inúmeras experiências. Porém, esta precisão diz respeito aos atributos próprios às entidades quânticas e não aos dos objetos clássicos. Aliás, mesmo no mundo clássico, a noção de precisão acaba de ser fortemente questionada pela teoria do “caos”
Uma minúscula imprecisão das condições iniciais leva a trajetórias clássicas extremamente divergentes ao longo do tempo. O caos instala-se no próprio seio do determinismo. Os planificadores de toda espécie, os construtores de sistemas ideológicos, econômicos ou outros, ainda podem existir num mundo que é ao mesmo tempo indeterminista e caótico?
O maior impacto cultural da revolução quântica é, sem dúvida, o de colocar em questão o dogma filosófico contemporâneo da existência de um único nível de Realidade. Damos ao nome “realidade” seu significado tanto pragmático como ontológico. Entendo por Realidade, em primeiro lugar, aquilo que resiste às nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizações matemáticas. Afísica quântica nos fez descobrir que a abstração não é um simples intermediário entre nós e a Natureza, uma ferramenta para descrever a realidade, mas uma das partes constitutivas da Natureza. Na física quântica, o formalismo matemático é inseparável da experiência.
Ele resiste, a seu modo, tanto por seu cuidado pela auto-consistência interna como por sua necessidade de integrar os dados experimentais, sem destruir esta auto-consistência. Também noutro lugar, na realidade chamada “virtual” ou nas imagens de síntese, são as equações matemáticas que resistem: a mesma equação matemática dá origem a uma infinidade de imagens. As imagens estão latentes nas equações ou nas séries de números. Portanto, a abstração é parte integrante da Realidade.
É preciso dar uma dimensão ontológica à noção de Realidade, na medida em que a Natureza participa do ser do mundo. A Natureza é uma imensa e inesgotável fonte de desconhecido que justifica a própria existência da ciência. A Realidade não é apenas uma construção social o consenso de uma coletividade, um acordo intersubjetivo. Ela também tem uma dimensão trans-subjetiva, na medida em que um simples fato experimental pode arruinar a mais bela teoria científica. Infelizmente, no mundo dos seres humanos, uma teoria sociológica, econômica ou política continua a existir apesar de múltiplos fatos que a contradizem.
Deve-se entender por nível de Realidade um conjunto de sistemas invariantes sob a ação de um número de leis gerais: por exemplo, asentidades quânticas submetidas às leis quânticas, as quais estão radicalmente separadas das leis do mundo macrofísico. Isto quer dizer que dois níveis de Realidade são diferentes se, passando de um ao outro, houver ruptura das leis e ruptura dos conceitos fundamentais (como, por exemplo, a causalidade).
Ninguém conseguiu encontrar um formalismo matemático que permita a passagem rigorosa de um mundo ao outro. As sutilezas semânticas, as definições tautológicas ou as aproximações não podem substituir um formalismo matemático rigoroso. Há, mesmo, fortes indícios matemáticos de que a passagem do mundo quântico para o mundo macrofísico seja sempre impossível. Contudo, não há nada de catastrófico nisso. A descontinuidade que se manifestou no mundo quântico manifesta-se também na estrutura dos níveis de Realidade Isto não impede os dois mundos de coexistirem. A prova: nossa própria existência. Nossos corpos têm ao mesmo tempo uma estrutura macrofísica e uma estrutura quântica
Os níveis de Realidade são radicalmente diferentes dos níveis de organização, tais como foram definidos nas abordagens sistêmicas. Os níveis de organização não pressupõem uma ruptura dos conceitos fundamentais: vários níveis de organização pertencem a um único e mesmo nível de Realidade. Os níveis de organização correspondem a estruturações diferentes das mesmas leis fundamentais. Por exemplo, a economia marxista e a física clássica pertencem a um único e mesmo nível de Realidade.
O surgimento de pelo menos dois níveis de Realidade diferentes no estudo dos sistemas naturais é um acontecimento de capital importância na historia do conhecimento. Ele pode nos levar a repensar nossa vida individual e social, a fazer uma nova leitura dos conhecimentos antigos, a explorar de outro modo o conhecimento de nós mesmos, aqui e agora.
A existência dos níveis de Realidade diferentes foi afirmada por diferentes tradições e civilizações, mas esta afirmação estava baseada seja em dogmas religiosos, seja na exploração do universo interior.
 
Em nosso século, Husserl e alguns outros pesquisadores, num esforço de questionamento a respeito dos fundamentos da ciência, descobriram a existência dos diferentes níveis de percepção da Realidade pelo sujeito observador. Mas eles foram marginalizados pelos filósofos acadêmicos e incompreendidos pelos físicos, fechados em sua própria especialidade. De fato, eles foram pioneiros na exploração de uma realidade multidimensional e multireferencial, onde o ser humano pode reencontrar seu lugar e sua verticalidade.
Um bastão sempre tem duas extremidades
O desenvolvimento da física quântica, assim como a coexistência entre o mundo quântico e o mundo macrofísico, levaram, no plano da teoria e da experiência científica, ao aparecimento de pares de contraditórios mutuamente exclusivos (A e não-A): onda e corpúsculo, continuidade e descontinuidade, separabilidade e não separabilidade, causalidade local e causalidade global, simetria e quebra de simetria, reversibilidade e irreversibilidade do tempo etc.
Por exemplo, as equações da física quântica submetem-se a um grupo de simetrias, mas suas soluções quebram estas simetrias. Da mesma forma, supõe-se que um grupo de simetria descreva a unificação de todas as interações físicas conhecidas, mas esta simetria deve ser quebrada para poder descrever a diferença entre as interações forte, fraca, eletromagnética e gravitacional.
O problema da flecha do tempo sempre fascinou os espíritos. Nosso nível macrofísico caracteriza-se pela irreversibilidade (a flecha) do tempo. Caminhamos do nascimento para a morte, da juventude para a velhice.
O inverso é impossível. A flecha do tempo está associada à entropia, ao crescimento da desordem. Por outro lado, o nível microfísico caracteriza-se pela invariância temporal (reversibilidade do tempo). Tudo se passa como se, na maioria dos casos, um filme rodado no sentido inverso, produzisse exatamente as mesmas imagens do que quando rodado no sentido correto. Há, no mundo microfísico, alguns processos que violentam esta invariância temporal. As exceções estão intimamente ligadas ao nascimento do universo, mais precisamente à predominância da matéria sobre a antimatéria. O Universo é feito de matéria e não de antimatéria, graças a esta pequena violação da invariância temporal.
Esforços notáveis foram feitos para introduzir uma flecha do tempo também no nível microfísico, mas, por enquanto, nada se conseguiu. Amecânica quântica não pôde ser substituída por uma teoria mais preditível.
Devemos nos habituar à coexistência paradoxal da reversibilidade e da irreversibilidade do tempo, um dos aspectos da existência de diferentes níveis de Realidade. Ora, o tempo está no centro de nossa vida terrestre.
É necessário ressaltar que o tempo dos físicos já é uma aproximação grosseira do tempo dos filósofos. Nenhum filósofo conseguiu seriamente definir o momento presente. “Quanto ao tempo presente,” — já dizia Santo Agostinho — “se ele sempre fosse presente e não passasse, deixaria de ser um tempo, seria a eternidade. Portanto, se o tempo só é tempo porque ele passa, como podemos dizer que ele é, ele que só é porque está a ponto de deixar de ser; e portanto não é verdade dizer que só é um tempo porque tende ao não-ser.”. O tempo presente dos filósofos é um tempo vivo. Ele contém em si mesmo tanto o passado como o futuro, não sendo o passado nem o futuro. O pensamento é impotente para apreender toda a riqueza do tempo presente.
Os físicos aboliram a diferença essencial entre o presente de um lado e o passado e o futuro de outro, substituindo o tempo por uma banal linha do tempo onde os pontos representam sucessivamente e indefinidamente os momentos passados, presentes e futuros. O tempo torna-se assim um simples parâmetro (da mesma maneira que uma posição no espaço), que pode ser perfeitamente compreendido pelo pensamento e perfeitamente descrito no plano matemático. A nível macrofísico esta linha do tempo é dotada de uma flecha indicando a passagem do passado para o futuro. Esta linha do tempo, dotada de um flecha, é, portanto ao mesmo tempo uma representação matemática simples e uma representação antropomórfica. A grande surpresa é constatar que até uma representação matemática, portanto rigorosa, do tempo, de acordo
com a informação que nos é fornecida por nossos órgãos dos sentidos, é colocada em dúvida pelo surgimento do nível quântico, como nível de Realidade diferente do nível macrofísico. Será que o tempo dos físicos conserva apesar de tudo, uma lembrança do tempo vivo dos filósofos, graças à intervenção sempre inesperada da Natureza? Todavia, apesar de tudo, esta coexistência paradoxal não é tão surpreendente quando nos referimos a nossa experiência de vida. Todos nós sentimos que nosso tempo de vida não é a vida de nosso tempo. A vida, nossa vida, é algo mais que um objeto delimitado no espaço e no tempo. Mas o surpreendente é constatar que um vestígio desse tempo vivo encontra-se na Natureza. Seria a Natureza, não um livro morto que está a nossa disposição para ser decifrado, mas um livro vivo, sendo continuamente escrito?
O escândalo intelectual provocado pela mecânica quântica consiste no fato de que os pares de contraditórios que ela coloca em evidência são de fato mutuamente opostos quando analisados através da grade de leitura da lógica clássica. Esta lógica baseia-se em três axiomas:

1. O axioma da identidade: A é A;
2. O axioma da não-contradição: A não é não-A;
3. O axioma do terceiro excluído: não existe um terceiro termo T (T de “terceiro incluído”) que é ao mesmo
tempo A e não-A.
Na hipótese da existência de um único nível de Realidade, o segundo e terceiro axiomas são evidentemente equivalentes. O dogma de um único nível de Realidade, arbitrário como todo dogma, está de tal forma implantado em nossas consciências, que mesmo lógicos de profissão esquecem de dizer que estes dois axiomas são, de fato, distintos, independentes um do outro.
Se, no entanto, aceitamos esta lógica que, apesar de tudo reinou, durante dois milênios e continua a dominar o pensamento de hoje, em particular no campo político, social e econômico, chegamos imediatamente à conclusão de que os pares de contraditórios postos em evidência pela física quântica são mutuamente exclusivos, pois não podemos afirmar ao mesmo tempo a validade de uma coisa e seu oposto: A e não-A. A perplexidade produzida por esta situação é bem compreensível: podemos afirmar, se formos sãos de espírito, que a noite é o dia, o preto é o branco, o homem é a mulher, a vida é a morte?
O problema pode parecer da ordem da pura abstração, interessando alguns lógicos, físicos ou filósofos. Em que a lógica abstraia seria importante para nossa vida de todos os dias?
A lógica é a ciência que tem por objeto de estudo as normas da verdade (ou da “validade”, se a palavra “verdade” for forte demais em nossos dias). Sem norma, não há ordem. Sem norma, não há leitura do mundo e, portanto, nenhum aprendizado, sobrevivência e vida. Fica claro, portanto, que de maneira muitas vezes inconsciente, uma certa lógica e mesmo uma certa visão do mundo estão por trás de cada ação, qualquer que seja: a ação de um indivíduo, de uma coletividade, de uma nação, de um estado. Uma certa lógica determina, em particular, a regulação social.
Desde a constituição definitiva da mecânica quântica, por volta dos anos 30, os fundadores da nova ciência se questionaram agudamente sobre o problema de uma nova lógica, chamada “quântica”. Após os trabalhos de Birkhoff e Von Neumann, toda uma proliferação delógicas quânticas não tardou a se manifestar. A ambição dessas novas lógicas era resolver os paradoxos gerados pela mecânica quântica e tentar, na medida do possível, chagar a uma potência preditiva mais forte do que a permitida com a lógica clássica.
 
Por uma feliz coincidência, esta proliferação de lógicas quânticas foi contemporânea à proliferação de novas lógicas formais, rigorosas no plano matemático, que tentavam alargar o campo de validade da lógica clássica.
Este fenômeno era relativamente novo pois, durante dois milênios, o ser humano acreditou que a lógica fosse única, imutável, dada uma vez por todas, inerente a seu próprio cérebro.
Há, no entanto uma relação direta entre a lógica e o meio ambiente: meio ambiente físico, químico, biológico, psíquico, macro ou micro sociológico. Ora, o meio ambiente, assim como o saber e a compreensão, mudam com o tempo. Portanto, a lógica só pode ter um fundamento empírico. A noção de história da lógica é muito recente — aparece no meio do século XIX. Pouco tempo depois aparece uma outra noção capital: a da História do Universo. Outrora, o universo, como a lógica, era considerado eterno e imutável.
A maioria das lógicas quântica modificou o segundo axioma da lógica clássica: o axioma da não-contradição, introduzindo a não-contradição com vários valores de verdade no lugar daquela do par binário (A, não-A).

Estas lógicas multivalentes, cujo estatuto ainda é controvertido quanto a seu poder preditivo, não levaram em conta uma outra possibilidade, a modificação do terceiro axioma — o axioma do terceiro excluído.
O mérito histórico de Lupasco foi mostrar que a lógica do terceiro incluído é uma verdadeira lógica, formalizável e formalizada, multivalente (com três valores: A, não-A e T) e não-contraditória. Lupasco, como Husserl, pertencia à raça dos pioneiros. Sua filosofia, que toma como ponto de partida a física quântica, foi marginalizada por físicos e filósofos. Curiosamente, ela teve em contrapartida um poderoso impacto, ainda que subterrânea, entre os psicólogos, os sociólogos, os artistas ou os historiadores das religiões. Lupasco teve razão cedo demais. A ausência da noção de “níveis de Realidade” em sua filosofia obscurecia talvez seu conteúdo. Muitos acreditaram que a lógica de Lupasco violava o principio da não-contradição — de onde provém o nome, um pouco infeliz, de “lógica da contradição” — e que admitia o risco de infindáveis sutilezas semânticas. Além disso, o medo visceral de introduzir a noção de “terceiro incluído”, com suas ressonâncias mágica, só fez com que aumentasse a desconfiança em tal lógica.
A compreensão do axioma do terceiro incluído — existe um terceiro termo T que é ao mesmo tempo A e não-A — fica totalmente clara quando é introduzida a noção de “níveis de Realidade”.
Para se chegar a uma imagem clara do sentido do terceiro incluído, representemos os três termos da nova lógica — A, não-A e T — e seus dinamismos associados por um triângulo onde um dos ângulos situa-se a um nível de Realidade e os dois outros a um outro nível de Realidade. Se permanecermos num único nível de realidade, toda manifestação aparece como uma luta entre dois elementos contraditórios (por exemplo: onda A e corpúsculo não-A). O terceiro dinamismo, o do estado T, exerce-se num outro nível de Realidade, onde aquilo que parece desunido (onda ou corpúsculo) está de fato unido (quantum), e aquilo que parece contraditório é percebido como não-contraditório.
É a projeção de T sobre um único e mesmo nível de Realidade que produz a impressão de pares antagônicos, mutuamente exclusivos (A e não-A). Um único e mesmo nível de Realidade só pode provocar oposições antagônicas. Ele é, por sua própria natureza, autodestruidor, se for completamente separado de todos os outros níveis de Realidade. Um terceiro termo, digamos, T’, que esteja situado no mesmo nível de Realidade que os opostos A e não-A, não pode realizar sua conciliação. A “síntese” entre A e não-A é antes uma explosão de imensa energia, como a produzida pelo encontro entre matéria e antimatéria. Nas mãos de marxistas-leninistas, a síntese hegeliana surgia como o resultado radioso de uma sucessão no plano histórico: sociedade primitiva (tese), sociedade capitalista (antítese), sociedade comunista (síntese). Infelizmente, ela se metamorfoseou em seu contrário. Em verdade, a queda inesperada do império soviético estava inexoravelmente inscrita na própria lógica do sistema. Uma lógica nunca é inocente. Ela pode chegar a fazer milhões de mortos.
 
Toda diferença entre uma tríade de terceiro incluído e uma tríade hegeliana se esclarece quando consideramos o papel do tempo. Numa tríade de terceiro incluído os três termos coexistem no mesmo momento do tempo.
Por outro lado, os três termos da tríade hegeliana sucedem-se no tempo. Por isso, a tríade hegeliana é incapaz de promover a conciliação dos opostos, enquanto a tríade de terceiro incluído é capaz de fazê-lo. 

Na lógica do terceiro incluído os opostos são antes contraditórios: a tensão entre os contraditórios promove uma unidade mais ampla que os inclui.

Vemos assim os grandes perigos de mal-entendidos gerados pela confusão bastante comum entre o axioma de terceiro excluído e o axioma de não-contradição. A lógica do terceiro incluído é não-contraditória, no sentido de que o axioma da não-contradição é perfeitamente respeitado, com a condição de que as noções de “verdadeiro” e “falso” sejam alargadas, de tal modo que as regras de implicação lógica digam respeito não mais a dois termos (A e não-A), mas a três termos (A, não-A e T), coexistindo no mesmo momento do tempo. É uma lógica formal, da mesma maneira que qualquer outra lógica formal: suas regras traduzem-se por um formalismo matemático relativamente simples.
Vê-se porque a lógica do terceiro incluído não é simplesmente uma metáfora para um ornamento arbitrário da lógica clássica, permitindo algumas incursões aventureiras e passageiras no campo da complexidade. A lógica do terceiro incluído é uma lógica da complexidade e até mesmo, talvez, sua lógica privilegiada, na medida em que permite atravessar, de maneira coerente, os diferentes campos do conhecimento. A lógica do terceiro incluído não elimina a lógica do terceiro excluído: ela apenas limita sua área de validade. A lógica do terceiro excluído é certamente validada por situações relativamente simples, como, por exemplo, a circulação de veículos numa estrada: ninguém pensa em introduzir, numa estrada, um terceiro sentido em relação ao sentido permitido e ao proibido. Por outro lado, a lógica do terceiro excluído é nociva nos casos complexos, como, por exemplo, o campo social ou político. Ela age, nestes casos, como uma verdadeira lógica de exclusão: bem ou mal, direita ou esquerda, mulheres ou homens, ricos ou pobres, brancos ou negros. Seria revelador fazer uma análise da xenofobia, do racismo, do anti-semitismo ou do nacionalismo à luz da lógica do terceiro excluído. Seria também muito instrutivo passar os discursos dos políticos pelo crivo da mesma lógica.
 
A sabedoria popular exprime algo muito profundo quando nos diz que um bastão sempre tem duas extremidades.
Imaginemos, como na paródia Lê bout du bout de Raymond Devos (que, aliás, compreendeu melhor que muitos eruditos o sentido do terceiro incluído) que um homem queira, a todo custo, separar as duas extremidades de um bastão. Ele vai cortar seu bastão e perceber que agora tem, não apenas duas extremidades, mas dois bastões. Ele vai continuar a cortar cada vez mais nervosamente seu bastão, porém, embora estes se multipliquem sem parar, é impossível separar as duas extremidades!
Estaremos nós, em nossa civilização atual, na situação do homem que queria a todo custo separar as duas extremidades de seu bastão? Àbarbárie da exclusão do terceiro responde a inteligência da inclusão. Pois um bastão sempre tem duas extremidades.
O surgimento da pluralidade complexa
Simultaneamente ao aparecimento dos diferentes níveis de Realidade e das novas lógicas (entre elas a do terceiro incluído) no estudo dos sistemas naturais, um terceiro fator veio se juntar para desferir o golpe de misericórdia na visão clássica do mundo: a complexidade.
 
Ao longo do século XX, a complexidade instala-se por toda parte, assustadora, terrificante, obscena, fascinante, invasora, como um desafio a nossa própria existência e ao sentido de nossa própria existência. A complexidade em todos os campos do conhecimento parece ter fagocitado o sentido.
A complexidade nutre-se da explosão da pesquisa disciplinar e, por sua vez, a complexidade determina a aceleração da multiplicação das disciplinas.
A lógica binária clássica confere seus títulos de nobreza a uma disciplina cientifica ou não cientifica. Graças a suas normas de verdade, uma disciplina pode pretender esgotar inteiramente o campo que lhe e próprio. Se esta disciplina for considerada fundamental, como a pedra de toque de todas as outras disciplinas, este campo alarga-se implicitamente a todo conhecimento humano.
Na visão clássica do mundo, a articulação das disciplinas era considerada piramidal, sendo a base da pirâmide representada pela física. A complexidade pulveriza literalmente esta pirâmide provocando um verdadeiro big-bang disciplinar.
O universo parcelado disciplinar esta em plena expansão em nossos dias. De maneira inevitável, o campo de cada disciplina torna-se cada vez mais estreito, fazendo com que a comunicação entre elas fique cada vez mais difícil, até impossível. Uma realidade multi-esquizofrênica complexa parece substituir a realidade unidimensional simples do pensamento clássico. O individuo, por sua vez, é pulverizado para ser substituído por um número cada vez maior de peças destacadas, estudadas pelas diferentes disciplinas. E o preço que o indivíduo tem de pagar por um conhecimento de certo tipo que ele mesmo instaura.
As causas do big-bang disciplinar são várias e poderiam ser objeto de diversos tratados eruditos. Mas a causa fundamental pode facilmente ser descoberta: o big-bang disciplinar responde às necessidades de uma tecnociência sem freios, sem valores, sem outra finalidade que a eficácia pela eficácia.
 
Este big-bang disciplinar tem enormes conseqüências positivas, pois conduz ao aprofundamento sem precedente do conhecimento do universo exterior e assim contribui volens nolens para a instauração de uma nova visão do mundo. Pois um bastão sempre tem duas extremidades. Quando um balanço vai longe demais num sentido, sua volta e inexorável.
 
Paradoxalmente, a complexidade instalou-se no próprio coração da fortaleza da simplicidade: a física fundamental. De fato, nas obras de vulgarização, diz-se que a física contemporânea e uma física onde reina uma maravilhosa simplicidade estética da unificação de todas as interações físicas através de alguns “tijolos” fundamentais: quarks, leptons ou mensageiros. Cada descoberta de um novo tijolo, prognosticada por esta teoria, é saudada com a atribuição de um prêmio Nobel e apresentada como um triunfo da simplicidade que reina no mundo quântico.
 
Mas para o físico que pratica a essência desta ciência, a situação mostra-se infinitamente mais complexa. Os fundadores da física quântica esperavam que algumas partículas pudessem descrever, enquanto tijolos fundamentais, toda a complexidade física. No entanto, já por volta de 1960 este sonho desmoronou: centenas de partículas foram descobertas graças aos aceleradores de partículas. Foi proposta uma nova simplificação com a introdução do princípio do bootstrap nas interações fortes: há uma espécie de “democracia” nuclear, todas as partículas são tão fundamentais quanto as outras e uma partícula é aquilo que ela é porque todas as outras partículas existem ao mesmo tempo. Esta visão de auto-consistência das partículas e de suas leis de interação, fascinante no plano filosófico, iria por sua vez desabar devido à inusitada complexidade das equações que traduziam esta auto-consistência e à impossibilidade prática de encontrar suas soluções. A introdução de subconstituintes dos hádrons (partículas de interações fortes) os quarks — iria substituir a proposta do bootstrap e introduzir assim uma nova simplificação no mundo quântico. Esta simplificação levou a uma simplificação ainda maior, que domina a física de partículas atualmente: a procura de grandes teorias de unificação e de superunificação das interações físicas. Contudo, ainda assim, a complexidade não demorou em mostrar sua onipotência.
 
Por exemplo, segundo a teoria das supercordas na física de partículas, as interações físicas aparecem como sendo muito simples, unificadas e submetendo-se a alguns princípios gerais se descritas num espaço tempo multidimensional e sob uma energia fabulosa, correspondendo à massa dita de Planck. A complexidade surgiu no momento da passagem para o nosso mundo, necessariamente caracterizado por quatro dimensões e por energias acessíveis muito menores. As teorias unificadas são muito poderosas no nível dos princípios gerais, mas são bastante pobres na descrição da complexidade de nosso próprio nível. Alguns resultados matemáticos rigorosos até indicam que esta passagem de uma única e mesma interação unificada para as quatro interações físicas conhecidas é extremamente difícil e até mesmo impossível. Um número enorme de questões matemáticas e experimentais, de extraordinária complexidade, permanece sem resposta. A complexidade matemática e a complexidade experimental são inseparáveis na física contemporânea.
 
É interessante observar, de passagem, que a teoria das supercordas surgiu graças à teoria das cordas que, por sua vez, apareceu graças à abordagem do bootstrap. Na teoria das cordas, os hádrons são representados por cordas vibrantes que carregam quarks e antiquarks em suas extremidades. Por exemplo, um meson é representado por urna corda tendo, como um bastão, duas extremidades: um quark e um antiquark. É impossível separar as duas extremidades de uma corda: cortando-se uma corda não é um quark e um antiquark que conseguimos mas várias cordas, todas elas com duas extremidades. Se alguém ficar obcecado pela separação das duas extremidades de uma corda, vai chocar-se com uma impossibilidade teórica que carrega a designação erudita de “confinamento”: os quarks e antiquarks ficam aprisionados para sempre no interior dos hádrons. Seria necessária uma energia infinita para afastar e separar completamente um quark e um antiquark. Esta propriedade paradoxal, e não obstante simples, esconde, de fato, uma infinita complexidade de interação entre as partículas quânticas. Os físicos ainda não encontraram uma demonstração matemática rigorosa do confinamento dos quarks.
 
Aliás, a complexidade se mostra por toda parte, em todas as ciências exatas ou humanas, rígidas ou flexíveis.
 
A biologia e a neurociência, por exemplo, que vivem hoje um rápido desenvolvimento, revelam-nos novas complexidades a cada dia que passa e assim caminhamos de surpresa em surpresa.
 
O desenvolvimento da complexidade é particularmente espantoso nas artes. Por uma interessante coincidência, a arte abstrata aparece ao mesmo tempo em que a mecânica quântica. Porém, em seguida, um desenvolvimento cada vez mais caótico parece presidir pesquisas cada vez mais formais. Salvo algumas exceções notáveis, o sentido desaparece em proveito da forma. O rosto humano, tão belo na arte do Renascimento, decompõe-se cada vez mais até desaparecer complemente no absurdo e na feiúra. Uma nova arte — a arte eletrônica — aparece para substituir gradualmente a obra estética pelo ato estético. Na arte, como em outros campos, o bastão sempre tem duas extremidades.
 
complexidade social sublinha, até o paroxismo, a complexidade que invade todos os campos do conhecimento. O ideal de simplicidade de uma sociedade justa, baseada numa ideologia científica e na criação de um “homem novo”, desabou sob o peso de umacomplexidade multidimensional. O que restou, baseado na lógica da eficácia pela eficácia, não é capaz de nos propor outra coisa senão o “fim da História”. Tudo se passa como se já não houvesse futuro. E se não há mais futuro, a lógica sã nos diz que já não há presente. O conflito entre a vida individual e a vida social aprofunda-se num ritmo acelerado. E como podemos sonhar com uma harmonia social baseada na aniquilação do ser interior?
 
Edgar Morin tem razão quando assinala a todo mo mento que o conhecimento do complexo condiciona uma política de civilização. O conhecimento do complexo, para que seja reconhecido como conhecimento, passa por uma questão preliminar: a complexidade da qual falamos seria uma complexidade desordenada, e neste caso seu conhecimento não teria sentido ou esconderia uma nova ordem e uma simplicidade de uma nova natureza que justamente seriam o objeto do novo conhecimento? Trata-se de escolher entre um caminho de perdição e um caminho de esperança.
 
Teria a complexidade sido criada por nossa cabeça ou se encontra na própria natureza das coisas e dos seres?
 
O estudo dos sistemas naturais nos dá uma resposta parcial a esta pergunta: tanto uma como outra. A complexidade das ciências é antes de mais nada a complexidade das equações e dos modelos. Ela é, portanto, produto de nossa cabeça, que é complexa por sua própria natureza. Porém, esta complexidade é a imagem refletida dacomplexidade dos dados experimentais, que se acumulam sem parar. Ela também está, portanto na natureza das coisas.
 
Além disso, a física e a cosmologia quânticas nos mostram que acomplexidade do Universo não é a complexidade de uma lata de lixo, sem ordem alguma. Uma coerência atordoante reina na relação entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande. Um único termo está ausente nesta coerência: a abertura do finito – o nosso. O indivíduo permanece estranhamente calado diante da compreensão da complexidade. E com razão, pois fora declarado morto. Entre as duas extremidades do bastão — simplicidade e complexidade —, falta o terceiro incluído: o próprio indivíduo.
 
Uma nova visão do mundo: a transdisciplinaridade
 
O processo de declínio das civilizações é extremamente complexo e suas raízes estão mergulhadas na mais completa obscuridade. É claro que podemos encontrar várias explicações e racionalizações superficiais, sem conseguir dissipar o sentimento de um irracional atuando no próprio cerne deste processo. Os atores de determinada civilização, das grandes massas aos grandes líderes, mesmo tendo alguma consciência do processo de declínio, parecem impotentes para impedir a queda de sua civilização. Uma coisa é certa: uma grande defasagem entre as mentalidades dos atores e as necessidades internas de desenvolvimento de um tipo de sociedade, sempre acompanha a queda de uma civilização. Tudo ocorre como se os conhecimentos e os saberes que uma civilização não para de acumular não pudessem ser integrados no interior daqueles que compõem esta civilização. Ora, afinal é o ser humano que se encontra ou deveria se encontrar no centro de qualquer civilização digna deste nome.
 
O crescimento sem precedente dos conhecimentos em nossa época torna legítima a questão da adaptação das mentalidades a estes saberes. O desafio é grande, pois a expansão contínua da civilização de tipo ocidental por todo o planeta torna sua queda equivalente a um incêndio planetário sem termo de comparação com as duas primeiras guerras mundiais.
 
Para o pensamento clássico só existem duas soluções para sair de uma situação de declínio: a revolução social ou o retorno a uma suposta “idade de ouro”.
 
revolução social já foi tentada no decorrer do século que está acabando e seus resultados foram catastróficos. O homem novo não passou de um homem vazio e triste. Quaisquer que sejam os retoques cosméticos que o conceito de “revolução social” sofrer no futuro próximo, eles não poderão apagar de nossa memória coletiva aquilo que efetivamente foi experimentado.
 
O retorno à idade de ouro ainda não foi tentado, pela simples razão de que a idade de ouro não foi encontrada. Mesmo se supormos que esta idade de ouro tenha existido em tempos imemoriais, este retorno deveria necessariamente se fazer acompanhar por uma revolução interior dogmática, imagem espelhada da revolução social. Os diferentes integrismos religiosos que cobrem a superfície da terra com seu manto negro são um mau presságio da violência e do sangue que poderia jorrar desta caricatura de “revolução interior”.
 
No entanto, como sempre, há uma terceira solução. Esta terceira solução é o objeto do presente manifesto.
 
A harmonia entre as mentalidades e os saberes pressupõe que estes saberes sejam inteligíveis, compreensíveis.
 
Todavia, ainda seria possível existir uma compreensão na era do big-bang disciplinar e da especialização exagerada?
 
Um Pico de la Mirandola é inconcebível em nossa época. Dois especialistas na mesma disciplina têm, hoje em dia, dificuldade em compreender seus resultados recíprocos. Isto nada tem de monstruoso, na medida em que é a inteligência coletiva da comunidade ligada a esta disciplina que a faz progredir e não um único cérebro que teria de conhecer todos os resultados de todos seus colegas-cérebros, o que é impossível. Pois, hoje em dia, existem centenas de disciplinas. Como poderia um físico teórico de partículas dialogar seriamente com um neurofisiologista, um matemático com um poeta, um biólogo com um economista, um político com um especialista em informática, exceto sobre generalidades mais ou menos banais? E, no entanto, um verdadeiro líder deveria poder dialogar com todos ao mesmo tempo. A linguagem disciplinar é uma barreira aparentemente intransponível para um neófito. E todos somos neófitos uns dos outros. Seria a Torre de Babel inevitável?
 
No entanto, um Pico de La Mirandola em nossa época é concebível na forma de um supercomputador no qual poderíamos injetar todos os conhecimentos de todas as disciplinas. Este supercomputador poderia tudo saber, mas nada compreender. O usuário deste supercomputador não estaria em melhor situação que o próprio supercomputador. Ele teria acesso instantâneo a não importa que resultado de não importa qual disciplina, mas seria incapaz de compreender seus significados e muito menos de fazer ligação entre os resultados das diferentes disciplinas.
 
Este processo de babelização não pode continuar sem colocar em perigo nossa própria existência, pois faz com que qualquer líder se torne, queira ou não, cada vez mais incompetente. Um dos maiores desafios de nossa época, como, por exemplo, os desafios de ordem ética, exigem competências cada vez maiores. Mas a soma dos melhores especialistas em suas especialidades não consegue gerar senão uma incompetência generalizada, pois a soma das competências não é a competência: no plano técnico, a intercessão entre os diferentes campos do saber é um conjunto vazio. Ora, o que vem a ser um líder, individual ou coletivo, senão aquele que é capaz de levar em conta todos os dados do problema que examina?
 
A necessidade indispensável de laços entre as diferentes disciplinas traduziu-se pelo surgimento, na metade do século XX, dapluridisciplinaridade e da interdisciplinaridade.
 
pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma mesma e única disciplina por várias disciplinas ao mesmo tempo. Por exemplo, um quadro de Giotto pode ser estudado pela ótica da história da arte, em conjunto com a da física, da química, da história das religiões, da história da Europa e da geometria.
 
Ou ainda, a filosofia marxista pode ser estudada pelas óticas conjugadas da filosofia, da física, da economia, da psicanálise ou da literatura. Com isso, o objeto sairá assim enriquecido pelo cruzamento de várias disciplinas. O conhecimento do objeto em sua própria disciplina é aprofundado por uma fecunda contribuição pluridisciplinar. A pesquisa pluridisciplinar traz um algo a mais à disciplina em questão (a história da arte ou a filosofia, em nossos exemplos), porém este “algo a mais” está a serviço apenas desta mesma disciplina. Em outras palavras, a abordagem pluridisciplinar ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade continua inscrita na estrutura da pesquisa disciplinar.
 
interdisciplinaridade tem uma ambição diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela diz respeito à transferência de métodos de uma disciplina para outra. Podemos distinguir três graus de interdisciplinaridade:

a) um grau de aplicação. Por exemplo, os métodos da física nuclear transferidos para a medicina levam ao aparecimento de novos trata mentos para o câncer; b) um grau epistemológico. Por exemplo, a transferência de métodos da lógica formal para o campo do direito produz análises interessantes na epistemologia do direito; c) um grau de geração de novas disciplinas. Por exemplo, a transferência dos métodos da matemática para o campo da física gerou a física-matemática; Os da física de partículas para a astrofísica, acosmologia quântica; os da matemática para os fenômenos meteorológicos ou para os da bolsa, a teoria do caos; os da informática para a arte, a arte informática. Como a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade também permanece inscrita na pesquisa disciplinar. Pelo seu terceiro grau, a interdisciplinaridade chega a contribuir para o big-bang disciplinar.
 
transdisciplinaridade como o prefixo “trans” indica, diz respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento.
 
Haveria alguma coisa entre e através das disciplinas e além delas? Do ponto de vista do pensamento clássico, não há nada, absolutamente nada, O espaço em questão é vazio, completamente vazio, como o vazio da física clássica. Mesmo renunciando à visão piramidal do conhecimento, o pensamento clássico considera que cada fragmento da pirâmide, gerado pelo big-bang disciplinar, é uma pirâmide inteira; cada disciplina proclama que o campo de sua pertinência é inesgotável. Para o pensamento clássico, a transdisciplinaridade é um absurdo por que não tem objeto. Para a transdisciplinaridade por sua vez, o pensamento clássico não é absurdo, mas seu campo de aplicação é considerado como restrito.
 
Diante de vários níveis de Realidade, o espaço entre as disciplinas e além delas está cheio, como o vazio quântico está cheio de todas as potencialidades: da partícula quântica às galáxias, do quark aos elementos pesados que condicionam o aparecimento da vida no Universo.
 
A estrutura descontínua dos níveis de Realidade determina a estrutura descontínua do espaço transdisciplinar que, por sua vez, explica porque a pesquisa transdisciplinar é radicalmente distinta da pesquisa disciplinar, mesmo sendo complementar a esta. A pesquisa disciplinar diz respeito, no máximo a um único e mesmo nível de Realidade; aliás, na maioria dos casos, ela só diz respeito a fragmentos de um único e mesmo nível de Realidade. Por outro lado, atransdisciplinaridade se interessa pela dinâmica gerada pela ação de vários níveis de Realidade ao mesmo tempo. A descoberta desta dinâmica passa necessariamente pelo conhecimento disciplinar. Embora a transdisciplinaridade não seja uma nova disciplina, nem uma nova hiperdisciplina, alimenta-se da pesquisa disciplinar que, por sua vez, é iluminada de maneira nova e fecunda pelo conhecimento transdisciplinar. Neste sentido, as pesquisas disciplinares e transdisciplinares não são antagonistas, mas complementares.
 
Os três pilares da transdisciplinaridade os níveis de Realidade, a lógica do terceiro incluso e a complexidade — determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar.Há um paralelo surpreendente entre os três pilares da transdisciplinaridade e os três postulados da ciência moderna.
 
Os três postulados metodológicos da ciência moderna permaneceram imutáveis de Galileu até os nossos dias, apesar da infinita diversidade dos métodos, teorias e modelos que atravessaram a história das diferentes disciplinas científicas. No entanto, uma única ciência satisfaz inteira e integralmente os três postulados: a física. As outras disciplinas científicas só satisfazem parcialmente os três postulados metodológicos da ciência moderna.Todavia, a ausência de uma formalização matemática rigorosa da psicologia, da historia das religiões e de um número enorme de outras disciplinas não leva à eliminação dessas disciplinas do campo da ciência.
 
Mesmo as ciências de ponta, como a biologia molecular, não podem pretender, ao menos por enquanto, uma formalização matemática tão rigorosa como a da física. Em outras palavras, há graus de disciplinaridade proporcionais à maior ou menor satisfação dos três postulados metodológicos da ciência moderna.
 
Da mesma forma, a maior ou menor satisfação dos três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar gera diferentes graus de transdisciplinaridade. A pesquisa transdisciplinar correspondente a um certo grau de transdisciplinaridade se aproximará mais damultidisciplinaridade (como no caso da ética); num outro grau, se aproximará mais da interdisciplinaridade (como no caso da epistemologia); e ainda num outro grau, se aproximará mais da disciplinaridade.
 
A disciplinaridade a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são as quatro flechas de um único e mesmo arco: o do Conhecimento.
 
Como no caso da disciplinaridade, a pesquisa transdisciplinar não é antagonista mas complementar à pesquisa pluridisciplinar e interdisciplinar. A transdisciplinaridade é, no entanto, radicalmente distinta da pluri e da interdisciplinaridade, por sua finalidade: a compreensão do mundo presente, impossível de ser inscrita na pesquisa disciplinar. A finalidade da pluri e da interdisciplinaridade sempre é a pesquisa disciplinar. Se a transdisciplinaridade é tão freqüentemente confundida com a inter e a pluridisciplinaridade (como, aliás, a interdisciplinaridade é tão freqüentemente confundida com a pluridisciplinaridade), isto se explica em grande parte pelo fato de que todas as três ultrapassam as disciplinas. Esta confusão é muito prejudicial, na medida em que esconde as diferentes finalidades destas três novas abordagens.
 
Embora reconhecendo o caráter radicalmente distinto datransdisciplinaridade em relação à disciplinaridade,   pluridisciplinaridade e à interdisciplinaridade, seria extremamente perigoso absolutizar esta distinção, pois neste caso a transdisciplinaridade seria esvaziada de todo seu conteúdo e sua eficácia na ação reduzida a nada.
 
O caráter complementar das abordagens disciplinar, pluridisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar é evidenciado de maneira fulgurante, por exemplo, no acompanhamento dos agonizantes. Esta atitude relativamente nova de nossa civilização é extremamente importante, pois, reconhecendo o papel de nossa morte em nossa vida, descobrimos dimensões insuspeitas da própria vida. O acompanhamento dos agonizantes não pode dispensar uma pesquisatransdisciplinar, na medida em que a compreensão do mundo presente passa pela compreensão do sentido de nossa vida e do sentido de nossa morte neste mundo que é o nosso. 

* NICOLESCU, Basarab. O Manifesto da Transdisciplinaridade. Triom : São Paulo, 1999.

 
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A insubmissão: Michel Onfray

                         Fonte:http://resresil.blogspot.com.br/search/label/Michel%20Onfray

 
“A autoridade me é insuportável, a dependência, intolerável, a submissão, impossível” 
(Michel Onfray)
 

A popularização da filosofia contra o “mercado do conhecimento”

Michel Onfray é um dos filósofos mais populares e polêmicos da França. Fundou a Universidade Popular de Caen, em 2002, buscando resgatar uma “comunidade filosófica” contra o “mercado do conhecimento”. A Universidade Popular de Caen é gratuita e aberta a todos os interessados, independente de qualificação prévia e idade. Suas aulas são veiculadas pela rádio France Culture e podem ser acompanhadas pela internet [www.franceculture.fr] 
 
A seguir, uma entrevista com Michel Onfray realizada por Maria da Paz Trefaut para  Valor Econômico(06/10/2012) : 
Um homem de esquerda livre
 
 Professor secundário durante anos,Onfray deixou o ensino público há uma década para fundar, ao lado de 20 amigos, a Universidade Popular de Caen, na região francesa da Normandia. Suas aulas, abertas e gratuitas, são depois veiculadas pela rádio France Culture (www.franceculture.fr) e podem ser acompanhadas também pela internet. “Larguei meu trabalho de funcionário público porque tinha livros a escrever, conferências a fazer e queria tornar a filosofia popular, como nos incitou a fazer Diderot [1713-1784]”, afirma. 
 
 Aos 53 anos, com cerca de 60 livros publicados, Onfray faz parte do grupo de filósofos franceses mais midiáticos, conhecidos por popularizar a filosofia e traduzidos em vários países. No Brasil, sua obra vem sendo lançada pela editora WMF Martins Fontes – o mais recente é Os Ultras das Luzes – Contra-História da Filosofia 4. Se os bate-bocas e críticas o acompanham por toda parte, ele também faz questão de responder com a mesma virulência: “Sinceramente, estou me lixando para o que os intelectuais pensam do meu trabalho”. 
 
 
 Valor: Seus livros falam de uma temática contemporânea, que contempla da alimentação à estética. O senhor já escreveu sobre bioética, arte, política, história da filosofia e erotismo. Na sua opinião, quais são os temas mais inquietantes para as pessoas nos dias de hoje? 
 
Michel Onfray: Tudo se resume a uma coisa só: como viver no mundo sem ter uma bússola? Deus está morto, Marx também. O capitalismo se comporta muito bem, o niilismo triunfa e a maioria das pessoas busca uma ética e uma política de substituição. Depois de 1989 e a queda do Muro de Berlim, eu proponho alternativas: o hedonismo em matéria de moral e o anarquismo em termos políticos. 
 
 
Valor: Qual é a melhor maneira de definir o senhor politicamente? 
 
Onfray: Sou um socialista libertário, um leitor apaixonado de Proudhon, o defensor de umaesquerda libertária, como Camus. Detesto Marx e os marxistas. No século XX, o software marxista, repercutido via Sartre, Althusser, Zizek, Badiou, continuou fascinado pelo terror de 1793, por Robespierre e sua guilhotina, por Saint-Just, sedento de sangue, a pretexto da “virtude”. Eles aí encontram desculpas para o Gulag [arquipélago Gulag, conjunto de campos de trabalho forçado na Sibéria, durante a ex-União Soviética] argumentando que os Estados Unidos são um país de alguma forma totalitário. Detesto tanto o liberalismo e a direita quanto essa esquerda que se protege à sombra dos miradores. Minha esquerda é libertária. Ela se alimenta de anarco-sindicalismo, de anarquismo municipal, de pós-anarquismo. Se você quer me definir, sou um homem de esquerda livre. Ou um homem livre, de esquerda. 
 
 
 Valor: Com frequência seus textos falam sobre sua vida, sobre a pobreza e a miséria afetiva da infância. Isso ainda o incomoda? Como tudo isso determinou seu trabalho?
 
Onfray: Nietzsche revolucionou a filosofia ao escrever que ela não era nada mais do que a autobiografia, a confissão de seu autor. A filosofia institucional passa, evidentemente, essa verdade sob silêncio e persiste a declamar que o filósofo é um cérebro sem corpo, que alimenta um comércio desinteressado com ideias puras! Eu, de minha parte, mostro como a ideia genial de Nietzsche é uma verdade epistemológica, tomando como exemplo o que conheço melhor: minha vida. 
 
 
 Valor: Mas a filosofia pode curar ou apenas ajuda a suportar a angústia? 
 
Onfray: As duas coisas. Tudo depende da filosofia. Há filosofias diversas e múltiplas. Assim como há filósofos do conhecimento, da descrição pura, da estética etc. Alguns pensadores ajudam a viver, a bem viver, a melhor viver. Depois de 60 livros eu tento inscrever meu trabalho nessa linhagem. Não podemos viver de acordo com a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, ou o Ser e Tempo, de Heidegger. Mas podemos viver conforme as Cartas a Lucilius, de Sêneca, os Ensaios, de Montaigne, ou Assim Falava Zaratustra, de Nietzsche. 
 
 
 Valor: Um dos mais conhecidos neurocientistas brasileiros, Miguel Nicolelis, diz que atualmente a humanidade é dominada por três esquizofrênicos que ouviam vozes: Jesus Cristo, Maomé e Abraão. O que pensa a esse respeito? 
 
Onfray: Não conheço o trabalho desse homem valioso, mas peço ao céu (que é vazio de deuses…) para que ele fale francês (é uma pena que eu não fale sua bela língua). Assim eu poderia convidá-lo para me acompanhar ao restaurante, onde festejaremos essa comunhão deespírito
 
 
Valor: O senhor fundou a Universidade Popular de Caen para dar aulas abertas a todos e, depois, a Universidade Popular do Gosto, em Argentan. No que ela consiste e que resultados obteve? 
 
Onfray: Eu propus celebrar os cinco sentidos num lugar que é um “jardim” de reinserção social. Sob uma tenda, organizo jornadas consagradas a escritores, filósofos e nós celebramos com conferências, concertos, demonstrações culinárias e refeições festivas. Os cinco sentidos são mobilizados para construir uma conexão social hedonista. A última sessão consagrada a Camus [tema do mais recente livro de Onfray: A ordem libertária – a vida filosófica de Albert Camus], juntou 600 pessoas e nós servimos 400 refeições em Argentan, cidade onde nasci, onde moro e onde organizo as jornadas. 
 
Valor: Como analisa a moda da gastronomia que corre o mundo nos últimos anos? Será mesmo possível democratizá-la? 
 
Onfray: Existe, provavelmente, uma moda que ilustra o triunfo do narcisismo contemporâneo. Ela parte da suposição de que nós podemos nos dar prazer, celebrar nosso corpo e que conseguimos nos bastar a nós mesmos. Mas a gastronomia pode também ser popular, celebrar o convívio, ser festiva, alegre e compartilhada. Não consigo imaginar a gastronomia como uma ocasião de nos separarmos uns dos outros num exercício narcísico e ególatra – vejo-a como um momento de festa generalizada. A mesa é uma metáfora política: diz-me o que comes e eu te direi quem és… Charles Fourier, um socialista utópico do século XIX, é um modelo para mim. 
 
 Valor: Por que o senhor construiu sua carreira fora de Paris? 
 
Onfray: Paris é o lugar de todos os compromissos, de todos os poderes, e, portanto, o lugar de todas as infâmias. Os “Onfray” são descendentes dos vikings que chegaram à Normandia em meados do século X. Meus ancestrais estão nessa região da França há um milênio. Eu nasci, vivi, escrevi meus livros e serei enterrado em Argentan. Não há nada em Paris que me faça participar de seus bacanais de paixões tristes. 
 
 Valor: Como avalia a crise européia? Que futuro espera o continente? 
 
Onfray: A Europa morreu desde que os burocratas assim tentaram, depois da Segunda Guerra. Já a Primeira Guerra a tinha sangrado em vão. A Europa nasceu com a conversão do imperador Constantino ao cristianismo, no começo do século IV. E começou seu declínio quando Luis XVI foi decapitado, durante o Terror de 1793. Ela decaiu mais ainda, depois. Já perdeu seu lugar no concerto das civilizações planetárias e está sendo chamada a integrar o cemitério de civilizações defuntas… O barco segue seu curso, tomemos champanhe, mas sabendo que ele vai a pique. A vocês, o futuro!
        
                                Um Pensador Marginal

Folha Online 17/12/2002
ALCINO LEITE NETO
enviado especial a Caen (França) 

Michel Onfray é ao mesmo tempo uma estrela e um pensador marginal da cultura francesa. No meio filosófico do país, fazem de conta que ele não existe. “Não sou reconhecido pelos meus pares. Mas isso não importa, sou um indivíduo solitário.”
 
Na imprensa, entretanto, é citado com frequência. As editoras também estão sempre de portas abertas para o filósofo. E a admiração dos leitores é uma constante para ele, sobretudo depois do lançamento de “Antimanual de Filosofia”, em 2001, que vendeu mais de 100 mil exemplares. Não é o principal livro de Onfray, que já publicou 21 obras. No Brasil, teve cinco livros traduzidos, entre eles “A Escultura de Si” (212 págs., R$ 21,50) e “A Política do Rebelde” (291 págs., R$ 35), ambos pela Rocco. Na entrevista a seguir, Onfray conta por que decidiu abandonar o ensino público e criar a Universidade Popular. 
 
Folha – Por que o sr. se demitiu da escola pública? 
Michel Onfray – Porque eu estava cheio da política educacional nacional, das inspeções, dos modelos de ensino. Decidi que iria parar. Como posso viver de meus direitos autorais e tinha vontade de continuar a ensinar, mas livremente, resolvi me demitir e criar a Universidade Popular.
 
Folha – As universidades populares na França começaram no século 19. Na época, havia esse valor, o povo. A quem se dirige o seu projeto? 
Onfray – No século 19, o objetivo era atingir o maior número de pessoas, que não precisariam fazer exames para poder vir ao encontro do saber e não pagavam nada para ter acesso ao conhecimento. Foi um pouco nesse espírito que eu criei o meu projeto. Quanto ao povo, acho que seria preciso defini-lo hoje como aquele que não exerce o poder, mas sobre o qual o poder é exercido. São pessoas privadas do saber de uma maneira geral.
 
Folha – Com o projeto da Universidade Popular, o sr. não tem receio de ser chamado de populista?
Onfray – Não, pois popular é o contrário de populista. Ter preocupação com o povo nos dispensa de praticar a demagogia. Hoje, o povo —as pessoas modestas— fica em geral esquecido, e é a extrema direita que acaba se ocupando dele. Eu acho que a esquerda precisaria reencontrar o sentido do grande número. A chegada do [líder de extrema direita] Jean-Marie Le Pen ao segundo turno das eleições presidenciais na França é como o caso Dreyfus [processo judicial que marcou a França do séc. 19 por seu anti-semitismo]. É preciso deixar de ficar em seu canto, ralhando contra as pessoas que votaram em Le Pen e reprovando-as pela má escolha. Se temos vontade de esclarecer as pessoas, temos de ir à luta. Eu me sinto mais útil fazendo esse trabalho na Universidade Popular do que num liceu.
 
Folha – As escolas foram associadas à domesticação do indivíduo. Essa idéia ainda é válida? 
Onfray – Mas claro. Penso que as escolas não funcionam senão com isso e para isso. Elas não fabricam senão indivíduos dóceis, obedientes, formatados, que pensam o que os outros mandam eles pensarem, da forma como mandam. Elas ensinam o que é necessário para reproduzir o sistema social. A Universidade Popular é uma alternativa a isso.
 
Folha – Hoje, qual seria a função do professor?
Onfray – O professor é aquele que conduz, que aponta o norte, o sul, e depois diz ao aluno: ‘Vire-se você, faça o seu próprio caminho’. Nietzsche dizia que um bom mestre é aquele que ensina os alunos a se desligarem dele. Então é preciso ensinar as pessoas a se desligarem de seus mestres, a serem mestres de si mesmas. É um estranho paradoxo, mas nós, professores, somos feitos para não existir. O que interessa é que as pessoas tenham uma relação direta com a filosofia, na qual eu serei apenas um mediador. Eu sou feito para desaparecer.
 
Folha – O sr. acha que a escola deveria mudar?
Onfray – A escola deveria ser um lugar onde as pessoas tivessem vontade de estar, de ir e vir, um espaço mais ligado à vida da cidade, com cinema, cafés, bibliotecas, lugares de conferência. A escola se abriria para o mundo do ponto de vista arquitetural, mas também colocaria o saber mais em consonância com as necessidades da época, trazendo valores integrais e proposições que permitissem, por exemplo, discutir o que é o monoteísmo. Será necessário aprender sobre Carlos Magno? Será que não se deveria aprender outra coisa, de outra forma? Penso que há outros conteúdos, outros métodos, que poderiam ser adotados, bem como um novo modelo de frequência, de modo a permitir dizer ao aluno: ‘Construa você mesmo o seu aprendizado’.
 
Folha – O que é o saber, hoje, depois que se aprende a ler, escrever e contar? 
Onfray – É preciso aprender a pensar e a reunir a isso todos os saberes que permitem conhecer. Eu não estou certo que o trabalho de memória sobre um certo número de fatos seja útil para pensar. Então que se trabalhe a retórica, a argumentação, a lógica, a construção de um discurso e de uma proposição. São coisas que se pode aprender, mas que não se aprende. A gramática acabou nas escolas. Imagino que se possa reunir o clássico e o moderno, ensinando também o que é ecologia, informática, biotecnologia etc.