A insubmissão: Michel Onfray

                         Fonte:http://resresil.blogspot.com.br/search/label/Michel%20Onfray

 
“A autoridade me é insuportável, a dependência, intolerável, a submissão, impossível” 
(Michel Onfray)
 

A popularização da filosofia contra o “mercado do conhecimento”

Michel Onfray é um dos filósofos mais populares e polêmicos da França. Fundou a Universidade Popular de Caen, em 2002, buscando resgatar uma “comunidade filosófica” contra o “mercado do conhecimento”. A Universidade Popular de Caen é gratuita e aberta a todos os interessados, independente de qualificação prévia e idade. Suas aulas são veiculadas pela rádio France Culture e podem ser acompanhadas pela internet [www.franceculture.fr] 
 
A seguir, uma entrevista com Michel Onfray realizada por Maria da Paz Trefaut para  Valor Econômico(06/10/2012) : 
Um homem de esquerda livre
 
 Professor secundário durante anos,Onfray deixou o ensino público há uma década para fundar, ao lado de 20 amigos, a Universidade Popular de Caen, na região francesa da Normandia. Suas aulas, abertas e gratuitas, são depois veiculadas pela rádio France Culture (www.franceculture.fr) e podem ser acompanhadas também pela internet. “Larguei meu trabalho de funcionário público porque tinha livros a escrever, conferências a fazer e queria tornar a filosofia popular, como nos incitou a fazer Diderot [1713-1784]”, afirma. 
 
 Aos 53 anos, com cerca de 60 livros publicados, Onfray faz parte do grupo de filósofos franceses mais midiáticos, conhecidos por popularizar a filosofia e traduzidos em vários países. No Brasil, sua obra vem sendo lançada pela editora WMF Martins Fontes – o mais recente é Os Ultras das Luzes – Contra-História da Filosofia 4. Se os bate-bocas e críticas o acompanham por toda parte, ele também faz questão de responder com a mesma virulência: “Sinceramente, estou me lixando para o que os intelectuais pensam do meu trabalho”. 
 
 
 Valor: Seus livros falam de uma temática contemporânea, que contempla da alimentação à estética. O senhor já escreveu sobre bioética, arte, política, história da filosofia e erotismo. Na sua opinião, quais são os temas mais inquietantes para as pessoas nos dias de hoje? 
 
Michel Onfray: Tudo se resume a uma coisa só: como viver no mundo sem ter uma bússola? Deus está morto, Marx também. O capitalismo se comporta muito bem, o niilismo triunfa e a maioria das pessoas busca uma ética e uma política de substituição. Depois de 1989 e a queda do Muro de Berlim, eu proponho alternativas: o hedonismo em matéria de moral e o anarquismo em termos políticos. 
 
 
Valor: Qual é a melhor maneira de definir o senhor politicamente? 
 
Onfray: Sou um socialista libertário, um leitor apaixonado de Proudhon, o defensor de umaesquerda libertária, como Camus. Detesto Marx e os marxistas. No século XX, o software marxista, repercutido via Sartre, Althusser, Zizek, Badiou, continuou fascinado pelo terror de 1793, por Robespierre e sua guilhotina, por Saint-Just, sedento de sangue, a pretexto da “virtude”. Eles aí encontram desculpas para o Gulag [arquipélago Gulag, conjunto de campos de trabalho forçado na Sibéria, durante a ex-União Soviética] argumentando que os Estados Unidos são um país de alguma forma totalitário. Detesto tanto o liberalismo e a direita quanto essa esquerda que se protege à sombra dos miradores. Minha esquerda é libertária. Ela se alimenta de anarco-sindicalismo, de anarquismo municipal, de pós-anarquismo. Se você quer me definir, sou um homem de esquerda livre. Ou um homem livre, de esquerda. 
 
 
 Valor: Com frequência seus textos falam sobre sua vida, sobre a pobreza e a miséria afetiva da infância. Isso ainda o incomoda? Como tudo isso determinou seu trabalho?
 
Onfray: Nietzsche revolucionou a filosofia ao escrever que ela não era nada mais do que a autobiografia, a confissão de seu autor. A filosofia institucional passa, evidentemente, essa verdade sob silêncio e persiste a declamar que o filósofo é um cérebro sem corpo, que alimenta um comércio desinteressado com ideias puras! Eu, de minha parte, mostro como a ideia genial de Nietzsche é uma verdade epistemológica, tomando como exemplo o que conheço melhor: minha vida. 
 
 
 Valor: Mas a filosofia pode curar ou apenas ajuda a suportar a angústia? 
 
Onfray: As duas coisas. Tudo depende da filosofia. Há filosofias diversas e múltiplas. Assim como há filósofos do conhecimento, da descrição pura, da estética etc. Alguns pensadores ajudam a viver, a bem viver, a melhor viver. Depois de 60 livros eu tento inscrever meu trabalho nessa linhagem. Não podemos viver de acordo com a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, ou o Ser e Tempo, de Heidegger. Mas podemos viver conforme as Cartas a Lucilius, de Sêneca, os Ensaios, de Montaigne, ou Assim Falava Zaratustra, de Nietzsche. 
 
 
 Valor: Um dos mais conhecidos neurocientistas brasileiros, Miguel Nicolelis, diz que atualmente a humanidade é dominada por três esquizofrênicos que ouviam vozes: Jesus Cristo, Maomé e Abraão. O que pensa a esse respeito? 
 
Onfray: Não conheço o trabalho desse homem valioso, mas peço ao céu (que é vazio de deuses…) para que ele fale francês (é uma pena que eu não fale sua bela língua). Assim eu poderia convidá-lo para me acompanhar ao restaurante, onde festejaremos essa comunhão deespírito
 
 
Valor: O senhor fundou a Universidade Popular de Caen para dar aulas abertas a todos e, depois, a Universidade Popular do Gosto, em Argentan. No que ela consiste e que resultados obteve? 
 
Onfray: Eu propus celebrar os cinco sentidos num lugar que é um “jardim” de reinserção social. Sob uma tenda, organizo jornadas consagradas a escritores, filósofos e nós celebramos com conferências, concertos, demonstrações culinárias e refeições festivas. Os cinco sentidos são mobilizados para construir uma conexão social hedonista. A última sessão consagrada a Camus [tema do mais recente livro de Onfray: A ordem libertária – a vida filosófica de Albert Camus], juntou 600 pessoas e nós servimos 400 refeições em Argentan, cidade onde nasci, onde moro e onde organizo as jornadas. 
 
Valor: Como analisa a moda da gastronomia que corre o mundo nos últimos anos? Será mesmo possível democratizá-la? 
 
Onfray: Existe, provavelmente, uma moda que ilustra o triunfo do narcisismo contemporâneo. Ela parte da suposição de que nós podemos nos dar prazer, celebrar nosso corpo e que conseguimos nos bastar a nós mesmos. Mas a gastronomia pode também ser popular, celebrar o convívio, ser festiva, alegre e compartilhada. Não consigo imaginar a gastronomia como uma ocasião de nos separarmos uns dos outros num exercício narcísico e ególatra – vejo-a como um momento de festa generalizada. A mesa é uma metáfora política: diz-me o que comes e eu te direi quem és… Charles Fourier, um socialista utópico do século XIX, é um modelo para mim. 
 
 Valor: Por que o senhor construiu sua carreira fora de Paris? 
 
Onfray: Paris é o lugar de todos os compromissos, de todos os poderes, e, portanto, o lugar de todas as infâmias. Os “Onfray” são descendentes dos vikings que chegaram à Normandia em meados do século X. Meus ancestrais estão nessa região da França há um milênio. Eu nasci, vivi, escrevi meus livros e serei enterrado em Argentan. Não há nada em Paris que me faça participar de seus bacanais de paixões tristes. 
 
 Valor: Como avalia a crise européia? Que futuro espera o continente? 
 
Onfray: A Europa morreu desde que os burocratas assim tentaram, depois da Segunda Guerra. Já a Primeira Guerra a tinha sangrado em vão. A Europa nasceu com a conversão do imperador Constantino ao cristianismo, no começo do século IV. E começou seu declínio quando Luis XVI foi decapitado, durante o Terror de 1793. Ela decaiu mais ainda, depois. Já perdeu seu lugar no concerto das civilizações planetárias e está sendo chamada a integrar o cemitério de civilizações defuntas… O barco segue seu curso, tomemos champanhe, mas sabendo que ele vai a pique. A vocês, o futuro!
        
                                Um Pensador Marginal

Folha Online 17/12/2002
ALCINO LEITE NETO
enviado especial a Caen (França) 

Michel Onfray é ao mesmo tempo uma estrela e um pensador marginal da cultura francesa. No meio filosófico do país, fazem de conta que ele não existe. “Não sou reconhecido pelos meus pares. Mas isso não importa, sou um indivíduo solitário.”
 
Na imprensa, entretanto, é citado com frequência. As editoras também estão sempre de portas abertas para o filósofo. E a admiração dos leitores é uma constante para ele, sobretudo depois do lançamento de “Antimanual de Filosofia”, em 2001, que vendeu mais de 100 mil exemplares. Não é o principal livro de Onfray, que já publicou 21 obras. No Brasil, teve cinco livros traduzidos, entre eles “A Escultura de Si” (212 págs., R$ 21,50) e “A Política do Rebelde” (291 págs., R$ 35), ambos pela Rocco. Na entrevista a seguir, Onfray conta por que decidiu abandonar o ensino público e criar a Universidade Popular. 
 
Folha – Por que o sr. se demitiu da escola pública? 
Michel Onfray – Porque eu estava cheio da política educacional nacional, das inspeções, dos modelos de ensino. Decidi que iria parar. Como posso viver de meus direitos autorais e tinha vontade de continuar a ensinar, mas livremente, resolvi me demitir e criar a Universidade Popular.
 
Folha – As universidades populares na França começaram no século 19. Na época, havia esse valor, o povo. A quem se dirige o seu projeto? 
Onfray – No século 19, o objetivo era atingir o maior número de pessoas, que não precisariam fazer exames para poder vir ao encontro do saber e não pagavam nada para ter acesso ao conhecimento. Foi um pouco nesse espírito que eu criei o meu projeto. Quanto ao povo, acho que seria preciso defini-lo hoje como aquele que não exerce o poder, mas sobre o qual o poder é exercido. São pessoas privadas do saber de uma maneira geral.
 
Folha – Com o projeto da Universidade Popular, o sr. não tem receio de ser chamado de populista?
Onfray – Não, pois popular é o contrário de populista. Ter preocupação com o povo nos dispensa de praticar a demagogia. Hoje, o povo —as pessoas modestas— fica em geral esquecido, e é a extrema direita que acaba se ocupando dele. Eu acho que a esquerda precisaria reencontrar o sentido do grande número. A chegada do [líder de extrema direita] Jean-Marie Le Pen ao segundo turno das eleições presidenciais na França é como o caso Dreyfus [processo judicial que marcou a França do séc. 19 por seu anti-semitismo]. É preciso deixar de ficar em seu canto, ralhando contra as pessoas que votaram em Le Pen e reprovando-as pela má escolha. Se temos vontade de esclarecer as pessoas, temos de ir à luta. Eu me sinto mais útil fazendo esse trabalho na Universidade Popular do que num liceu.
 
Folha – As escolas foram associadas à domesticação do indivíduo. Essa idéia ainda é válida? 
Onfray – Mas claro. Penso que as escolas não funcionam senão com isso e para isso. Elas não fabricam senão indivíduos dóceis, obedientes, formatados, que pensam o que os outros mandam eles pensarem, da forma como mandam. Elas ensinam o que é necessário para reproduzir o sistema social. A Universidade Popular é uma alternativa a isso.
 
Folha – Hoje, qual seria a função do professor?
Onfray – O professor é aquele que conduz, que aponta o norte, o sul, e depois diz ao aluno: ‘Vire-se você, faça o seu próprio caminho’. Nietzsche dizia que um bom mestre é aquele que ensina os alunos a se desligarem dele. Então é preciso ensinar as pessoas a se desligarem de seus mestres, a serem mestres de si mesmas. É um estranho paradoxo, mas nós, professores, somos feitos para não existir. O que interessa é que as pessoas tenham uma relação direta com a filosofia, na qual eu serei apenas um mediador. Eu sou feito para desaparecer.
 
Folha – O sr. acha que a escola deveria mudar?
Onfray – A escola deveria ser um lugar onde as pessoas tivessem vontade de estar, de ir e vir, um espaço mais ligado à vida da cidade, com cinema, cafés, bibliotecas, lugares de conferência. A escola se abriria para o mundo do ponto de vista arquitetural, mas também colocaria o saber mais em consonância com as necessidades da época, trazendo valores integrais e proposições que permitissem, por exemplo, discutir o que é o monoteísmo. Será necessário aprender sobre Carlos Magno? Será que não se deveria aprender outra coisa, de outra forma? Penso que há outros conteúdos, outros métodos, que poderiam ser adotados, bem como um novo modelo de frequência, de modo a permitir dizer ao aluno: ‘Construa você mesmo o seu aprendizado’.
 
Folha – O que é o saber, hoje, depois que se aprende a ler, escrever e contar? 
Onfray – É preciso aprender a pensar e a reunir a isso todos os saberes que permitem conhecer. Eu não estou certo que o trabalho de memória sobre um certo número de fatos seja útil para pensar. Então que se trabalhe a retórica, a argumentação, a lógica, a construção de um discurso e de uma proposição. São coisas que se pode aprender, mas que não se aprende. A gramática acabou nas escolas. Imagino que se possa reunir o clássico e o moderno, ensinando também o que é ecologia, informática, biotecnologia etc.
 
 
 
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