Nosso lugar, nosso tempo – John Holloway

Fonte:http://resresil.blogspot.com.br/2012/11/nosso-lugarnosso-tempo-john-hollway.html

[Discurso pronunciado em um concerto em Rostock no dia 3 de junho de 2007, no contexto dos protestos contra o G8. Agradecimentos a Dorothea Härlin, Lars Stubbe, Néstor López, Raquel Gutiérrez e Vittorio Sergi.]
Traduzido por Daniel Cunha
 
 
Nosso lugar. Este é o nosso lugar. Não seu, nosso. O nosso é um espaço sem fronteiras, sem definições. Eles têm seu próprio lugar, aí, atrás das barreiras metálicas, do arame farpado, cercado por milhares de policiais. Aí está o lugar para os assassinos em massa, no cárcere que nós criamos para eles. Os líderes políticos do mundo se movem somente quando estão cercados de policiais e guarda-costas, atrás de barreiras altas, protegidos por armas e helicóptetros. Não podem mover-se livremente porque têm medo.

Nosso tempo. Este é o nosso tempo. Não seu, nosso. 

 
Um tempo de intensidade, um tempo de paixão, um tempo de sonhos, um tempo de romper o tempo. Um tempo no qual negamos toda continuidade, um tempo para fazer um mundo novo. Dançaremos até o amanhecer e mais além se quisermos. O tempo deles é o tempo do relógio que marca os segundos da morte, o tempo da continuidade que diz “obedece hoje, obedece amanhã”. Seu tempo é a agenda de seu plano para a destruição da humanidade.
 
Nossa música, nosso baile. Esta é a nossa música, este é o nosso baile. Não seu, nosso.Eles não têm música, a única música que conhecem é a música que colocam em alto volume para abafar os gritos das pessoas que estão torturando em Guantánamo e nos campos de concentração em todo o mundo. O único baile que conhecem é a marcha de seus soldados que pisoteiam o mundo.
 
Nosso lugar, nosso tempo, nossa música, nosso baile. Somos o centro do mundo.

É importante ter isto presente. Sobretudo nestes tempos miseráveis. Sobretudo quando eles lançaram a quarta guerra mundialcontra nós, a guerra de todos os estados contra toda a gente. Sobretudo quando ocapital está festejando suas orgias. Sobretudo quando a repressão violenta de todos o que queremos criar outro mundo chegou a ser a prática rotineira de todos os estados. Querem nos subordinar. Nos converter em robôs sem mente. Nos fazer como eles.

 
Querem que sejamos como eles. Imaginem, ser como eles, pedaços mal-cheirosos de inumanidade! Somente a idéia dá vontade de vomitar. Isto é a última coisa no mundo que queremos. Por todos os meios possíveis, por brutalidade, sedução, suborno, tentam fazer com que nós sejamos como eles, que atuemos como eles. Este é o inimigo real: não eles, mas ser como eles. Quantas revoluçõesterminaram assim, com os líderes revolucionários convertendo-se em novos governantes! 
 
Quantos movimentos revolucionários foram atorados no sem-sentido violento de um exército confrontado com outro, com toda idéia de emancipação esquecida há muito! Se chegamos a ser como eles, já perdemos.
 
A assimetria, então, é a chave de nossa luta. Nenhuma simetria. Sobretudo, nenhuma simetria. Nossa arma é que não atuamos como eles, que não falamos como eles, que não nos parecemos com eles, que não somos compreensíveis para eles.
 
Contra seus escudos e barreiras colocamos nosso espaço sem fronteiras. Contra seu relógio, nosso tempo de intensidade e relaxamento. Contra o ruído de sua vacuidade, nossa música. Contra sua marcha, nosso baile.
 
Contra sua hierarquia, nossa horizontalidade. Contra seu Estado, nossas assembléias. Contra sua democracia representativa, nossa autodeterminação. Contra suas instituições, nosso organizar. Contra a brutalidade de suaviolência, a criatividade de nossa autodefesa arraigada no apoio popular. Contra sua polícia, nossos palhaços (…ou?).
 
Contra sua auto-satisfação, nossa raiva. Contra sua morte, nossa vida. Contra seu dinheiro, nossa dignidade. Contra sua destruição, nossa criação. Contra seu trabalho, nosso fazer.
 
Contra seu dismorfismo sexual, nossa perversidade polimórfica. Contra suas definições, nosso transbordar. Contra sua prosa, nossa poesia. Contra seus substantivos, nossos verbos. Contra sua pomposidade, nossa risada. Contra sua arrogância, nossa consciência de que eles dependem de nós. Contra sua  permanência, nossa compreensão de que nós os fazemos e que se não os fazemos amanhã não vão existir amanhã. Contra seu mando, nossainsubordinação. Contra seu controle, nosso mundo que não podem controlar, que nunca poderão controlar.
 
Nosso lugar, nosso tempo, nossa música, nosso baile. Neste momento nós somos o centro do mundo. Desfrutemos!

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