Doze teses sobre o antipoder – Jonh Holloway

Fonte:http://resresil.blogspot.com.br/search/label/John%20Holloway

Traduzido por Daniel Cunha
de Contrapoder: una introducción, Colectivo Situaciones 
 

 

 

NOTA DO GRUPO FIM DA LINHA: Este texto pode ser considerado uma versão resumida do livroMudar o mundo sem tomar o poder. Para maior desenvolvimento dos argumentos, ver o livro citado (ed. Boitempo)

 

1. O ponto de partida é a negatividade

 
Começamos com o grito, não com o verbo. Diante da mutilação das vidas humanas pelo capitalismo, um grito de tristeza, um grito de horror, um grito de raiva, um grito de negação: NÃO!
 
O pensar, para dizer a verdade do grito, tem que ser negativo. Não queremos entender o mundo sem negá-lo. A meta da teoria é conceitualizar o mundo negativamente, não como algo separado da prática, mas como um momento da prática, como parte da luta para mudar o mundo, para fazer dele um lugar digno da humanidade.
 
Mas, depois de tudo o que passou, como podemos inclusive começar a pensar em mudar o mundo?
 
2. Não se pode criar um mundo digno por meio do Estado
 
Durante a maior parte do século passado, os esforços para criar um mundo digno da humanidade se enfocaram no Estado e na idéia de conquistar o poder estatal. As polêmicas principais (entre “reformistas” e “revolucionários”) eram acerca de como conquistar o poder estatal, seja pela via parlamentar ou pela via extra-parlamentar. A história do século XX sugere que a questão de como ganhar o poder não era tão importante. Em nenhum dos casos a conquista do poder estatal logrou realizar as mudanças que os militantes esperavam. Nem os governos reformistas nem os governos revolucionários lograram mudar o mundo de forma radical.
 
É fácil acusar todas as lideranças destes movimentos de trair os movimentos que encabeçavam. O fato de que tenha havido tantas traições sugere, entretanto, que o fracasso dos governos radicais, socialistas ou comunistas tem raízes muito mais profundas. A razão pela qual o Estado não pode ser usado para levar a cabo uma mudança radical na sociedade é que o próprio Estado é uma forma derelações sociais capitalistas. A existência mesma do Estado como uma instância separada da sociedade significa que, seja qual for o conteúdo de suas políticas, ele participa ativamente no processo de separar as pessoas do controle de sua própria vida. O capitalismo é simplesmente isso: a separação das pessoas de seu próprio fazer. Uma política que está orientada em direção ao Estado reproduz inevitavelmente dentro de si mesma o mesmo processo de separação, separando os dirigentes dos dirigidos, separando a atividade política séria da atividade pessoal frívola. Uma política orientada em direção ao Estado, longe de conseguir uma mudança radical da sociedade, conduz à subordinação progressiva da oposição à lógica docapitalismo.
 
Agora podemos ver que a idéia de que o mundo poderia ser mudado por meio do Estado era uma ilusão. Temos a boa sorte de estar vivendo o fim dessa ilusão.
 
3. A única forma de conceber uma mudança radical hoje não é como conquista do poder, mas como dissolução do poder
 
revolução é mais urgente do que nunca. Os horrores que surgem da organização capitalista da sociedade se tornam cada vez mais intensos. Se a revolução através da conquista do poder estatal se revelou como ilusão, isso não quer dizer que devemos abandonar a idéia de revolução. Mas é necessário concebê-la em outros termos: não como a tomada do poder, mas como a dissolução do poder.

 

II

 
4. A luta pela dissolução do poder é a luta pela emancipação do poder-fazer (potentia) do poder-sobre (potestas)
 
Para começar a pensar em mudar o mundo sem tomar o poder, deve-se fazer uma distinção entre o poder-fazer (potentia) e o poder-sobre (potestas).
 
Qualquer tentativa de mudar a sociedade envolve o fazer, a atividade. O fazer, por sua vez, envolve a capacidade de fazer, o poder-fazer. Muitas vezes usamos a palavra “poder” nesse sentido, como algo bom, como quando uma ação junto com outros (uma manifestação ou inclusive um bom seminário) nos dá uma sensação de poder. O poder neste sentido tem seu fundamento no fazer: é o poder-fazer.
 
O poder-fazer é sempre social, sempre parte do fluxo social do fazer. Nossa capacidade de fazer é produto do fazer de outros e cria as condições para o fazer futuro de outros. É impossível imaginar um fazer que não esteja integrado de uma forma ou outra ao fazer de outros, no passado, no presente ou no futuro.
 
5. O poder-fazer se transforma no poder-sobre quando se rompe o fazer
 
A transformação do poder-fazer em poder-sobre implica a ruptura do fluxo social do fazer. Os que exercem o poder-sobre separam o feito do fazer de outros e o declaram seu. A apropriação do feito é ao mesmo tempo a apropriação dos meios de fazer, e isso permite aos poderosos controlar o fazer dos fazedores. Os fazedores (os humanos, entendidos como ativos) estão separados assim de seu feito, dos meios de fazer e do próprio fazer.
 
Como fazedores, estão separados de si mesmos. Esta separação, que é a base de qualquer sociedade na qual alguns exercem poder sobre outros, chega ao seu ponto mais alto nocapitalismo.
 
Rompe-se o fluxo social do fazer. O poder-fazer se transformaem poder-sobre. Os que controlam o fazer de outros aparecem agora como os Fazedores da sociedade, e aqueles cujo fazer está controlado por outros se tornam invisíveis, sem vez, sem rosto. O poder-fazer não aparece como parte de um fluxo social, mas existe na forma de um poder individual. Para a maioria das pessoas o poder-fazer está transformado em seu contrário, a impotência, ou poder de fazer o que está determinado por outros. Para os poderosos, o poder-fazer se transforma em poder-sobre, o poder de dizer ao outro o que eles têm que fazer, e, portanto, em uma dependência com respeito ao fazer de outros.
 
Na sociedade atual, o poder-fazer existe na forma de sua própria negação, como poder-sobre. O poder-fazer existe no modo de ser negado. Isto não quer dizer que deixe de existir. Existe, mas existe como negado, em uma tensão antagônica com sua própria forma de existência como poder-sobre.
 
6. A ruptura do fazer é a ruptura de cada aspecto da sociedade, cada aspecto de nós mesmos
 
A separação do feito e dos fazedores significa que as pessoas já não se relacionam entre si como fazedores, mas como proprietários (ou não proprietários) do feito (visto já como uma coisa divorciada do fazer). As relações entre as pessoas existem como relações entre coisas, e as pessoas existem não como fazedoras, mas como portadoras passivas das coisas.
 
Esta separação dos fazedores do fazer e, portanto, deles mesmos, está discutida na literatura em termos estreitamente relacionados entre si: alienação (o jovem Marx), fetichismo (o velho Marx), reificação (Lukács), disciplina (Foucault) ou identificação (Adorno). Todos esses termos estabelecem claramente que o poder-sobre não pode ser entendido como algo externo a nós mesmos, mas que ele permeia cada aspecto de nossa existência. Todos esses termos se referem a um enrijecimento da vida, uma contenção do fluxo social do fazer, um obscurecimento das possibilidades.
 
O fazer está convertido em ser: isto é o núcleo do poder-sobre. Enquanto o fazer significa que somos e não somos, a ruptura do fazer arranca o “e não somos”. O que nos resta é simplesmente “somos”: identificação. O “e não somos” é esquecido ou se trata como puro sonho. A possibilidade nos é arrancada. O tempo se homogeneíza. O futuro é agora a extensão do presente, o passado o antecedente do presente. Todo fazer, todo movimento, está contido dentro da extensão do que é. Pode ser lindo sonhar com um mundo digno da humanidade, mas isto é nada mais que um sonho. O regime do poder-sobre é o regime do “assim são as coisas”, o regime da identidade.
 
7. Participamos na ruptura de nosso próprio fazer, na construção de nossa própria subordinação
 
Como fazedores separados de nosso próprio fazer, recriamos nossa própria subordinação. Como trabalhadores, produzimos o capital que nos subordina. Como docentes universitários, jogamos um papel ativo na identificação da sociedade, na transformação do fazer em ser. Quando definimos, classificamos ou quantificamos, ou quando sustentamos que a meta da ciência social é entender a sociedade tal como ela é, ou quando pretendemos estudar a sociedade objetivamente, como se fosse um objeto separado de nós mesmos, participamos ativamente na negação do fazer, na separação de sujeito e objeto, no divórcio entre fazedor e feito.
 
8. Não há nenhuma simetria entre o poder-fazer e o poder-sobre
 
O poder-sobre é a ruptura e negação do fazer. É a negação ativa e repetida do fluxo social do fazer, do nós que nos constituímos através do fazer social. Pensar que a conquista do poder-sobre pode levar à emancipação do que nega é absurdo.
 
O poder-fazer é social. É a constituição do nós, a prática do reconhecimento mútuo da dignidade.
 
O movimento do poder-fazer contra o poder-sobre não deve ser concebido como “contra-poder” (termo que sugere uma simetria entre poder e contra-poder), mas como anti-poder (termo que, para mim, sugere uma assimetria total entre o poder e nossa luta).
 
 
III
 
9. Parece que o poder-sobre nos penetra tão profundamente que a única solução possível é através da intervenção de uma força externa. Esta não é nenhuma solução
 
Não é difícil chegar a conclusões muito pessimistas sobre a sociedade atual. As injustiças e a violência e a exploração nos gritam, mas entretanto parece que não há saída possível. O poder-sobre parece penetrar tão fundo em cada aspecto de nossas vidas que é difícil imaginar a existência de “massasrevolucionárias”. No passado, a penetração profunda dadominação capitalista levou muitos a ver a solução em termos de liderança de um partido de vanguarda, mas resultou que isto não foi nenhuma solução, já que simplesmente substituiu-se uma forma de poder-sobre por outra.
 
A resposta fácil é a desilusão pessimista. O grito inicial de raiva ante os horrores do capitalismo não está abandonado, mas aprendemos a viver com ele. Não nos tornamos aficionados pelo capitalismo, mas aceitamos que não há nada a fazer. A desilusão implica cair na identificação, aceitar que o que é, é. Implica participar, pois, na separação do fazer do feito.
10. A única forma de romper o círculo aparentemente fechado do poder é vendo que a transformação do poder-fazer em poder-sobre é um processo que implica necessariamente a existência de seu contrário: a fetichização implica a anti-fetichização
 
Na maioria das vezes, discute-se a alienação (fetichismo, reificação, disciplina, identificação, etc.) como se fosse um fato consumado. Fala-se das formas capitalistas de relações sociais como se tivessem sido estabelecidas na aurora do capitalismo para seguir existindo até que o capitalismo seja substituído por outro modo de produção. Em outras palavras, faz-se uma separação entre constituição e existência: localiza-se a constituição do capitalismo no passado histórico, e assume-se que a sua existência atual é estável. Este enfoque conduz necessariamente ao pessimismo.
Se, ao contrário, vemos a separação do fazer e do feito não como algo terminado, mas como um processo, o mundo começa a se abrir. O próprio fato de que falamos em alienação significa que a alienação não pode ser total. Se a separação, alienação (etc.) é entendida como processo, isto implica que o seu curso não está predeterminado, que a transformação do poder-fazer em poder-sobre sempre está aberta, sempre estáem questão. Um processo implica um movimento de devir, implica que o que está em processo (a alienação) é e não é. A alienação, então, é um movimento contra sua própria negação, contra a anti-alienação. A existência da alienação implica a existência da anti-alienação. A existência do poder-sobre implica a existência do anti-poder-sobre, ou, em outras palavras, o movimento de emancipação do poder-fazer.
O que existe na forma de sua negação, o que existe no modo de ser negado, existe realmente, apesar de sua negação, como negação do processo de negação. O capitalismo está baseado na negação do poder-fazer da humanidade, da criatividade, da dignidade: mas isso não quer dizer que isto deixa de existir. Como mostraram oszapatistas, a dignidade existe apesar de sua negação. O poder-fazer existe também: não como ilha em um mar de poder-sobre, mas na única forma em que pode existir, como luta contra sua própria negação. A liberdade também existe, não como a apresentam os liberais, como algo independente dos antagonismos sociais, mas na única forma em que pode existir em uma sociedade caracterizada por relações de dominação, como luta contra essa dominação.
A existência real e material do que existe na forma de sua própria negação é a base da esperança.
 
11. A possibilidade de mudar a sociedade radicalmente depende da força material do que existe no modo de ser negado

A força material do negado pode ser vista de diferentes maneiras.
Em primeiro lugar, pode-se ver na infinidade de lutas que não têm como meta ganhar o poder sobre outros, mas simplesmente a afirmação de nosso poder-fazer, nossa resistência contra a dominação por outros. Estas lutas tomam muitas formas diferentes, desde a rebelião aberta até lutas para ganhar ou defender o controle sobre o processo de trabalho ou o acesso ou adequação a serviços de saúde, ou a afirmação de dignidade mais fragmentadas e muitas vezes silenciosas dentro do lar. A luta pela dignidade, pelo que está negado pela sociedade atual, pode ser vista também em muitas formas que não são abertamente políticas, na literatura, na música, nos contos de fadas. A luta contra a inumanidade é onipresente, já que é inerente a nossa existência como humanos.
Em segundo lugar, a força do negado pode ser vista na dependência do poder-sobre com respeito àquilo que nega. A existência de pessoas cujo poder-fazer existe como capacidade de dizer a outros o que estes têm que fazer sempre depende do fazer de outros. Toda a história da dominação pode ser vista como a luta por parte dos poderosos para libertar-se de sua dependência dos impotentes. A transição do feudalismo aocapitalismo pode ser vista desta maneira, não apenas como a luta dos servos para libertar-se dos senhores, mas como a luta dos senhores para libertar-se dos servos, através da conversão de seu poder em dinheiro e assim em capital. Amesma busca de liberdade com respeito aos trabalhadores pode ser vista na introdução da maquinaria, ou na conversão massiva de capital produtivo em capital dinheiro, que joga um papel tão importante no capitalismo contemporâneo. Em cada caso, a fuga dos poderosos com respeito aos fazedores éem vão. Não há forma como o poder-sobre possa ser outra coisa senão a metamorfose do poder-fazer. Não há como os poderosos escaparem de sua dependência em relação aos impotentes.
Esta dependência se manifesta, em terceiro lugar, na instabilidade dos poderosos, na tendência do capital à crise. A fuga do capital com relação ao trabalho, através da substituição de trabalhadores por máquinas ou por sua conversão em capital dinheiro, defronta o capital, com sua dependência final em relação ao trabalho (isto é, sua capacidade de converter o fazer humano em trabalho abstrato produtor de valor), na forma de queda das taxas de lucro. O que se manifesta na crise é a força do que o capital nega, quer dizer, o poder-fazer não subordinado.
 
12. A revolução é urgente, mas incerta, uma pergunta e não uma resposta
As teorias marxistas ortodoxas buscaram capturar a certeza para o lado da revolução, com o argumento de que o desenvolvimento histórico conduziria inevitavelmente à criação de uma sociedade comunista. Esta tentativa é fundamentalmente errônea, já que não pode haver nenhuma certeza na criação de uma sociedade auto-determinante. A certeza só pode estar do lado da dominação. A certeza pode ser encontrada na homogeneização do tempo, no congelamento do fazer em ser. A auto-determinação é inerentemente incerta. A morte das velhas certezas é uma libertação.
Pelas mesmas razões, a revolução não pode ser entendida como uma resposta, mas como uma pergunta, como uma exploração da realização da dignidade. Perguntando caminhamos.

 

Nosso lugar, nosso tempo – John Holloway

Fonte:http://resresil.blogspot.com.br/2012/11/nosso-lugarnosso-tempo-john-hollway.html

[Discurso pronunciado em um concerto em Rostock no dia 3 de junho de 2007, no contexto dos protestos contra o G8. Agradecimentos a Dorothea Härlin, Lars Stubbe, Néstor López, Raquel Gutiérrez e Vittorio Sergi.]
Traduzido por Daniel Cunha
 
 
Nosso lugar. Este é o nosso lugar. Não seu, nosso. O nosso é um espaço sem fronteiras, sem definições. Eles têm seu próprio lugar, aí, atrás das barreiras metálicas, do arame farpado, cercado por milhares de policiais. Aí está o lugar para os assassinos em massa, no cárcere que nós criamos para eles. Os líderes políticos do mundo se movem somente quando estão cercados de policiais e guarda-costas, atrás de barreiras altas, protegidos por armas e helicóptetros. Não podem mover-se livremente porque têm medo.

Nosso tempo. Este é o nosso tempo. Não seu, nosso. 

 
Um tempo de intensidade, um tempo de paixão, um tempo de sonhos, um tempo de romper o tempo. Um tempo no qual negamos toda continuidade, um tempo para fazer um mundo novo. Dançaremos até o amanhecer e mais além se quisermos. O tempo deles é o tempo do relógio que marca os segundos da morte, o tempo da continuidade que diz “obedece hoje, obedece amanhã”. Seu tempo é a agenda de seu plano para a destruição da humanidade.
 
Nossa música, nosso baile. Esta é a nossa música, este é o nosso baile. Não seu, nosso.Eles não têm música, a única música que conhecem é a música que colocam em alto volume para abafar os gritos das pessoas que estão torturando em Guantánamo e nos campos de concentração em todo o mundo. O único baile que conhecem é a marcha de seus soldados que pisoteiam o mundo.
 
Nosso lugar, nosso tempo, nossa música, nosso baile. Somos o centro do mundo.

É importante ter isto presente. Sobretudo nestes tempos miseráveis. Sobretudo quando eles lançaram a quarta guerra mundialcontra nós, a guerra de todos os estados contra toda a gente. Sobretudo quando ocapital está festejando suas orgias. Sobretudo quando a repressão violenta de todos o que queremos criar outro mundo chegou a ser a prática rotineira de todos os estados. Querem nos subordinar. Nos converter em robôs sem mente. Nos fazer como eles.

 
Querem que sejamos como eles. Imaginem, ser como eles, pedaços mal-cheirosos de inumanidade! Somente a idéia dá vontade de vomitar. Isto é a última coisa no mundo que queremos. Por todos os meios possíveis, por brutalidade, sedução, suborno, tentam fazer com que nós sejamos como eles, que atuemos como eles. Este é o inimigo real: não eles, mas ser como eles. Quantas revoluçõesterminaram assim, com os líderes revolucionários convertendo-se em novos governantes! 
 
Quantos movimentos revolucionários foram atorados no sem-sentido violento de um exército confrontado com outro, com toda idéia de emancipação esquecida há muito! Se chegamos a ser como eles, já perdemos.
 
A assimetria, então, é a chave de nossa luta. Nenhuma simetria. Sobretudo, nenhuma simetria. Nossa arma é que não atuamos como eles, que não falamos como eles, que não nos parecemos com eles, que não somos compreensíveis para eles.
 
Contra seus escudos e barreiras colocamos nosso espaço sem fronteiras. Contra seu relógio, nosso tempo de intensidade e relaxamento. Contra o ruído de sua vacuidade, nossa música. Contra sua marcha, nosso baile.
 
Contra sua hierarquia, nossa horizontalidade. Contra seu Estado, nossas assembléias. Contra sua democracia representativa, nossa autodeterminação. Contra suas instituições, nosso organizar. Contra a brutalidade de suaviolência, a criatividade de nossa autodefesa arraigada no apoio popular. Contra sua polícia, nossos palhaços (…ou?).
 
Contra sua auto-satisfação, nossa raiva. Contra sua morte, nossa vida. Contra seu dinheiro, nossa dignidade. Contra sua destruição, nossa criação. Contra seu trabalho, nosso fazer.
 
Contra seu dismorfismo sexual, nossa perversidade polimórfica. Contra suas definições, nosso transbordar. Contra sua prosa, nossa poesia. Contra seus substantivos, nossos verbos. Contra sua pomposidade, nossa risada. Contra sua arrogância, nossa consciência de que eles dependem de nós. Contra sua  permanência, nossa compreensão de que nós os fazemos e que se não os fazemos amanhã não vão existir amanhã. Contra seu mando, nossainsubordinação. Contra seu controle, nosso mundo que não podem controlar, que nunca poderão controlar.
 
Nosso lugar, nosso tempo, nossa música, nosso baile. Neste momento nós somos o centro do mundo. Desfrutemos!

Krishnamurti

Fonte:http://onuminosum.blogspot.com.br/search/label/krishnamurti

RARA ENTEVISTA DE KRISHNAMURTI
Entrevista de Krishnamurti na edição nº. 2 de PLANETA de outubro de 1972, transcrita pela Instituição Cultural Krishanmurti
Instituição Cultural Krishanmurti transcreveu os trechos mais importantes de uma das raras entrevistas concedidas por Jiddu Krishnamurti (1895-1986) durante toda a sua vida. Publicada originalmente na edição nº. 2 de PLANETA de outubro de 1972, ela traz as idéias centrais do seu ensinamentos, confundidos como filosofia e muitas delas bastantes polêmicas, como a aversão pelos símbolos e a falta de crença no poder da oração.
Por Carlo Suarès
Krishnamurti nasceu no sul da Índia. Um dos numerosos filhos de uma família de brâmanes pobres, foi adotado com a idade de 9 anos, juntamente com seu irmão Nitya, por Annie Besant, discípula de Madame Blavatsky, fundadora do movimento teosófico, que dizia ter instruções ocultas a respeito do menino. Ela via nele o “veículo” em preparação de um novo “instrutor do mundo”. O adolescente era uma dessas criaturas excepcionais que muito raramente – uma vez no decorrer de inúmeros séculos – iluminam de maneira nova a consciência humana. Pouco tempo depois, em 1910, uma vasta organização mundial, contando centenas de milhares de adeptos espalhados em todos os continentes, foi criada para receber o instrutor anunciado, e Krishnamurti, apesar de sua pouca idade, assumiu a direção do movimento.
Ele e seu irmão foram educados na Inglaterra, França e Califórnia, em vista de sua missão futura, mas esse período de intensidade eufórica terminou bruscamente com a morte trágica de Nitya. Nesse meio tempo, um centro permanente tinha sido criado no norte da Holanda, em Ommen, onde o castelo de Eerde e dois mil hectares de terra tinham sido doados a Krishnamurti. Um campo foi trabalhado desde 1925. Não parou de crescer até o momento da guerra. No verão, cerca de três mil pessoas ali iam ouvir a palavra de Krishnamurti.
Ao regressar da Califórnia, e amadurecido pela morte do irmão, o jovem pregador começou a dizer algo bem diferente do que podiam imaginar seus tutores. Rejeitava toda espécie de autoridade, todo ensinamento espiritual, toda crença. Não era uma revolta por reação, mas ele percebia que, se desejamos penetrar profundamente o mistério da vida – e da morte –, o único ponto de penetração somos nós mesmos.
Em 1928, Krishnamurti libertou-se totalmente: anunciou a dissolução total e irreversível da organização criada a sua volta, a recusa de ter um único discípulo (a verdade repetida é uma mentira, pregava ele), a restituição de todos os bens que lhe tinham sido doados, a recusa de aderir a uma crença qualquer, ainda que fosse a da sua própria missão. “Nenhuma crença organizada pode liberar o homem que procura a verdade”, afirmava ele. Hoje, acrescenta: “Nenhuma crença de espécie alguma, organizada ou não, pode nos orientar para a verdade.”
As reuniões de Ommen terminaram com a guerra. Desde então, Krishnamurti viaja pelo mundo: vai onde o convidam, contanto que lhe ofereçam moradia, transporte e subsistência. Volta todos os anos à Índia e à Califórnia. No outono de 1968, falou em diversas universidades americanas, entre as quais Yale e Berkeley. Suas conferências são muitas vezes poesia pura e, em agosto de 1970, iniciou uma palestra dizendo: “Escutem nosso canto.”
Documento único – Considerado uma grande possibilidade de nossa época, pela maioria dos pensadores contemporâneos, e tendo estabelecido sua vida e seu pensamento bem longe dos compromissos deste mundo, até aqui Krishnamurti jamais concedeu entrevistas ou colaborou em revistas periódicas. Só abriu exceção para PLANETA. Este é, portanto, um documento único.
E ele começa dizendo: “Todos nós sabemos que esta época é explosiva, que os meios humanos, conservados mais ou menos inalterados durante milhares de anos, foram repentinamente multiplicados milhões de vezes; que os computadores, para citar apenas um exemplo, tornam-se de hora em hora mais fantásticos; a biologia está à beira de descobrir o mistério da vida e mesmo de criar a vida; a Lua já foi visitada. Sabemos que os dados mais bem fundamentados das ciências estão ruindo; que tudo está sendo constantemente repensado e que os cérebros humanos são obrigados e forçados a se pôr em movimento. Na confusão atual, o homem está à procura de uma segurança material que só pode ser encontrada através dos conhecimentos tecnológicos. As religiões tornaram-se superestruturas que não possuem mais uma importância vital nos acontecimentos do mundo, enquanto as questões fundamentais permanecem sem resposta: o tempo, a dor, o medo.”
“E será que o homem ultra-moderno, que está tão a par das últimas descobertas científicas, teria incendiado seu universo inconsciente? Enquanto uma única parcela inconsciente permanecer nele, ele projetará uma irrealidade de símbolos e de palavras em virtude da qual terá a ilusão de se comunicar com alguma coisa superior.”
PLANETA – Gostaria de lhe fazer perguntas a respeito da religião. As grandes religiões atuais nasceram em épocas em que a Terra era um disco chato, em que o Sol percorria a abóbada celeste, etc. Até uma era recente, – Galileu não está muito longe, – elas impunham pela violência uma imagem infantil do cosmos. Hoje, forçadas pelas circunstâncias, caminham de mãos dadas com a ciência e contentam-se em confessar que suas cosmogonias são apenas simbólicas. Mas proclamam que, apesar dessa capitulação, são depositárias de verdades eternas. O que pensa disso?
Krishnamurti – Elas continuam sua propaganda habitual a fim de adquirir poder sobre as consciências (fracionadas da Consciência Universal pelo conteúdo que as formam, se auto-mantém na auto-identificação e expansão em seu relacionamento com a natureza, pessoas, coisas e idéias que projetam de si próprias no tempo que criam – o vir a ser – em sua reação, a semelhança do cronológico, o tempo como realização). Procuram apoderar-se da infância para melhor condicioná-la. As religiões das igrejas e dos Estados proclamam a necessidade de todas as virtudes, enquanto a história delas é uma série de violências, terrores, torturas, massacres inacreditáveis.
PLANETA – Todas as religiões pregam alguma forma de oração, algum método de contemplação, a fim de entrar em comunhão com uma realidade superior, cujo nome,Deusatmancosmos, etc., varia. Que ato religioso o senhor pratica? Costuma rezar?
Krishnamurti – A repetição de palavras sagradas apenas adormece a mente agitada. A oração é um calmante que permite ao indivíduo viver no interior de seu reduto psicológico sem sentir a necessidade de destruí-lo. O mecanismo da oração, como todos os mecanismos, dá resultados mecânicos. Não existe oração que seja capaz de penetrar a ignorância de si mesmo. Toda oração dirigida ao que é ilimitado (atemporalidade da mente) pressupõe que o indivíduo limitado (fracionamento, temporalidade constituída pelas projeções em busca de satisfação e prazer) sabe onde e como atingir o ilimitado.
PLANETA – Não seria possível ao homem moderno comunicar-se melhor com a realidade do universo graças a uma consciência devidamente esclarecida e ampliada?
Krishnamurti – Aquele que deseja ampliar sua consciência pode escolher, entre as psicodrogas, aquela que melhor lhe convém. Quanto ao fato de se comunicar melhor com o universo graças a um acúmulo de informações e de conhecimentos científicos a respeito do átomo ou das galáxias, seria o mesmo que dizer que uma imensa erudição livresca a respeito do amor nos faria conhecer o amor.
Isso quer dizer que o homem possui idéias, conceitos, crenças a esse respeito e está PRESO num sistema de explicações, numa prisão mental. Em lugar de liberar o indivíduo, a oração o aprisiona. Ora, a liberdade é a essência da religião, no verdadeiro sentido da palavra.
Essa liberdade essencial é negada por todas as organizações religiosas, apesar de afirmarem o contrário. Muito antes de ser um estado de oração, o conhecimento de si é o início da meditação (ação sem centro contínuo de ação). Não é nem um acúmulo de conhecimentos psicológicos, nem um estado de submissão religiosa, do qual se espera a graça. É isso que destrói as disciplinas impostas pela sociedade ou pela Igreja.
Trata-se de um estado de atenção (plena a sua própria funcionalidade não sendo possível nessa AÇÃO a interferência do passado) e não de uma concentração sobre algo particular. A mente estando tranqüila e silenciosa observa o mundo exterior e não projeta (de si mesma) mais nenhuma imaginação nem ilusão. Para observar o movimento da vida, o cérebro é tão rápido quanto ela, ativo e sem direção (objetivo). Somente então o imensurável, o intemporal, o infinito pode (surgir na ausencia de qualquer atividade ou movimento) nascer. Essa é a verdadeira religião.
PLANETA – Pelo que entendi, o senhor aconselha o homem a descondicionar a totalidade absoluta de sua própria consciência. Aliás, o que me desconcerta mais no seu pensamento é a afirmação insistente de que esse descondicionamento total da consciência não necessita de tempo algum.
Krishnamurti – Se fosse um processo evolutivo, não chamaria mutação. Mutação é uma mudança brusca de estado (deixar de ser, para que algo diferente e realmente novo possa surgir no vazio pela cessação de qualquer movimento de conteúdo mental).
PLANETA – Não imagino um “mutante”, isto é, um homem mudando de estado de consciência, que não carregasse consigo a resultante de todo o passado. O homem modifica o meio e o meio o modifica…
Krishnamurti – Não: o homem modifica o meio e o meio modifica a parte do homem que está ligada à modificação do meio, e não o homem inteiro, na sua profundidade extrema. Nenhuma pressão exterior (compulsão, orientação, proselitismo, ate mesmo volição) pode fazer isso: essa última (qualquer pressão exterior em geral) só modifica as partes superficiais da consciência. Nenhuma análise psicológica pode tampouco provocar a mutação, porque qualquer análise se situa no terreno da duração (chamado tempo psicológico). E nenhuma experiência pode provocá-la, por mais exaltada e “espiritual” que seja. Ao contrário, quanto mais parece ser uma revelação, tanto mais ela condiciona o indivíduo. Nos dois primeiros casos – modificação psicológica produzida pela análise ou pela introspecção e modificação produzida por uma pressão exterior –, o indivíduo não passa por nenhuma transformação profunda: não é modificado, formado, reajustado, de maneira a se adaptar ao meio social. No terceiro caso – modificações provocadas por uma experiência dita espiritual, seja segundo uma fé (crença) organizada, seja segundo uma fé pessoal –, o indivíduo é projetado na fuga que lhe dita a autoridade de algum símbolo. Em qualquer dos casos há a ação de uma força imperiosa que se apóia sobre uma moral social, isto é, um estado de contradição e de conflito. Toda sociedade é contraditória em si mesma. Ora a contradição, o conflito, o esforço, a competição são barreiras que impedem qualquer mutação, porque mutação quer dizer liberdade.
PLANETA – Daí a fuga nos símbolos?
Krishnamurti – Só existem imagens simbólicas nas partes inexploradas da consciência. Até mesmo as palavras não passam de símbolos. Precisamos explodir (penetrando seu sentido íntimo) as palavras.
Vivemos de palavras. Se a chamada vida espiritual é um conflito permanente, é porque introduzimos a pretensão de nos alimentar de conceitos como se, famintos, pudéssemos nos alimentar da palavra “pão”. Vivemos de palavras e não de fatos. Em todos os fenômenos da vida, quer se trate da vida espiritual, da vida sexual, da organização material de nossas atividades ou de nossos lazeres, estimulam-nos com palavras. As palavras se organizam em idéias, em pensamentos e, a partir desses estimulantes, pensamos viver tanto mais intensamente quanto melhor soubermos, graças a eles, criar distâncias entre a realidade, nós, tal qual somos, (ou o que é) e um ideal, a projeção do contrário do que somos (o que deveria, ou gostaríamos de ser). De sorte que voltamos às costas à mutação.
PLANETA – Afinal, o que é essa mutação de que o senhor fala tanto?
Krishnamurti – É uma explosão total do interior (psicológico) das camadas inexploradas da consciência, uma explosão no germe ou, se desejar, na raiz do condicionamento, uma destruição da duração (tempo criado pela imaginação como realização).
PLANETA – Mas a vida é condicionamento. Como podemos destruir a duração e não destruir a vida?
Krishnamurti – Morra para a duração, para a concepção total do tempo (como duração, vir a ser); para o passado, presente e futuro. Morra para os sistemas, para os símbolos, para as palavras, porque são fatores de decomposição. Morra para seu psiquismo (movimento do conteúdo mental – ego), porque é ele quem fabrica o tempo psicológico. Esse tempo não possui nenhuma realidade.
PLANETA – Mas, então, o que nos resta senão o desespero, a angústia, o medo de uma consciência que perdeu todo ponto de apoio, inclusive a noção de sua própria entidade?
Krishnamurti – Se um homem me fizesse essa pergunta dessa maneira, diria que não fez a viagem (não entendeu o que ouviu ou leu), que teve medo de passar para o outro lado do rio.
PLANETA – Suas palavras dão medo. E me pergunto se a consciência não tem necessidade desse medo. Isso explicaria a razão de ele ter sido sempre mantido e alimentado pelas religiões, que, são consideradas como refúgios e tranqüilizantes. Elas mantêm o medo impedindo a consciência de se enxergar realmente. Elas interpõem, entre a consciência e a realidade, o véu das teologias.
Krishnamurti – Esse problema é ao mesmo tempo profundo e vasto. Procuremos abordá-lo, por assim dizer, tateando os diversos lados. O medo é tempo e pensamento (é tempo, é pensamento mensurando-se). O pensamento tanto dá continuidade ao medo quanto ao prazer. Esse fato é simples: ao pensar no objeto do nosso prazer, atribuímos continuidade ao prazer, e fazemos o mesmo com o medo, ao pensar no objeto de nosso medo. Se, ao contrário, encontramos face a face (somos o que vemos psicologicamente em movimento) o objeto de nosso medo, ele deixa de existir (não havendo qualquer movimento ele CESSA – cessamos como consciência pejada em movimento – passamos a existir descontinuamente como consciência sem coisa alguma impregnada, ou VAZIA).
PLANETA – Como assim?
Krishnamurti – Falo do medo psicológico (mensurações de situações hipotéticas), não do medo de um perigo físico que procuramos afastar, que é natural. Considere o medo da morte. Em que consiste exatamente? Dividimos a totalidade do fenômeno vital (o existir) em vida e morte. A vida é conhecida; da morte, no entanto, não sabemos nada. Temos medo do que não conhecemos ou temos medo de perder o que conhecemos? É evidente que vida e morte são dois aspectos do mesmo fenômeno (que culturalmente separamos). Se deixarmos de considerá-los como dois fenômenos diferentes, não existe mais conflito.
PLANETA – Mas não existe um medo fundamental?
Krishnamurti – Não. O medo é sempre o medo de alguma coisa. Todo medo, mesmo inconsciente, é o resultado de um pensamento. O medo geralmente difundido em todos os domínios é o medo psicológico, no interior do ego, são sempre o medo de NÃO SER. De não ser isso ou aquilo, ou simplesmente de não ser. A contradição evidente entre o fato de tudo que existe (temporalidade) ser transitório e a procura de uma permanência psicológica (perpetuidade) – eis a origem do medo.Veja também: Conversa entre Krisnhamurti e o físico David Bohn

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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Texto Representativo da Obra de Krishnamurti
Krishnamurti. Bombaim. 10/02/1985. K. F. Bulletin 54 (1988) – Carta de Notícias. Janeiro-Dezembro 1991. ICK.

Instituição Cultural Krishnamurti 

Nesta noite, vamos percorrer um longo caminho. Ontem estivemos tratando do sofrimento e do findar do sofrimento. Quando o sofrimento chega ao fim, há paixão. Pouquíssimos de nós realmente compreendem a questão do sofrimento ou nela penetram profundamente. Será possível liquidar, de vez, o sofrimento? Todos os seres humanos têm feito essa pergunta, embora, talvez, não muito conscientemente, mas, no fundo, todos querem saber se a dor e o sofrimento humano podem acabar. Enquanto o sofrimento não termina, não pode haver amor.
O sofrimento é um violento golpe no sistema nervoso, como um soco no corpo e na psique. E geralmente tentamos escapar dele através de drogas, bebida,movimentos religiosos – ou, então, acabamos cínicos ou passamos a aceitar as coisas como inevitáveis.
Será que podemos investigar, a fundo e com seriedade, se é possível ficar com o problema sem fugir dele? Suponhamos que perca meu filho e, sofrendo com isso um grande choque, experimentando uma dor imensa, descubra que sou um ser humano extremamente solitário. Não consigo encarar nem suportar a situação e, por isso, fujo dela. Há inúmeras formas de fuga – religiosas, mundanas ou filosóficas. Mas será que posso permanecer com o que aconteceu, com essa coisa chamada sofrimento, sem procurar, de modo algum, fugir da dor, da angústia, da solidão, da aflição, do abalo? Será que podemos observar um problema, observá-lo apenas, sem procurar resolvê-lo, olhar para ele como se fosse uma jóia preciosa, de fino acabamento? Para uma coisa bonita olhamos sem parar, sem qualquer desejo de fugir dela; sua beleza nos atrai tanto e tanto prazer nos proporciona que ficamos olhando para ela o tempo todo. Se, da mesma forma, pudermos observar nosso sofrimento, sem um movimento sequer de julgamento ou fuga, ficar com a tristeza… nesse caso, a própria ação de ficar com o fato nos liberta completamente daquilo que produziu a dor. Voltaremos a isso depois.
Desejamos também considerar o que é a beleza – não a beleza de uma pessoa nem de quadros e estátuas de museus, nem os mais remotos esforços do homem para transmitir seus sentimentos através da pedra, da pintura ou de um poema, mas indagar a nós mesmos o que é a beleza. Talvez a beleza seja a verdade. Talvez seja o amor. Sem compreendermos a natureza e a profundidade dessa coisa extraordinária que é a beleza, jamais chegaremos ao que é sagrado. Examinemos, portanto, a questão da beleza.
O que acontece quando vemos algo grandioso como a montanha coberta de neve contra o céu azul? Por um segundo a majestade da montanha, com sua imensidão, com seu belo recorte contra o céu azul apaga toda nossa preocupação com nós mesmos. Nesse segundo, não há “ninguém” a olhar. Por um segundo, a grandiosidade da montanha afasta todo sentimento egocêntrico do nosso viver. Certamente que já devem ter notado isso. Já observaram uma criança com um brinquedo? Durante o dia inteiro ela fez travessuras (o que é normal), e então damos um brinquedo a ela. Agora, por um bom tempo, até que escangalhe o brinquedo, ela permanece tranqüila; o brinquedo dissipou sua agitação, absorveu-a. Assim também quando vemos algo extremamente belo – a beleza nos absorve? Significa isso que só há beleza quando cessa a luta do eu, quando não existe mais egocentrismo. Compreendem isso? Se não ficamos absorvidos nem impressionados por algo muito belo, como uma montanha ou um vale cheio de sombras; se não somos arrebatados pela montanha, podemos compreender a beleza sem o ego? Quando o eu está presente, não há beleza; quando existe egocentrismo, não há amor; e o amor e a beleza estão sempre juntos – não são duas coisas separadas.
Temos de tratar também da morte. Isso é uma coisa que todos precisamos encarar. Sejamos ricos ou pobres, ignorantes ou eruditos, jovens ou velhos, a morte é inevitável para todos nós; todos vamos morrer. E nunca fomos capazes de compreender a natureza da morte; estamos sempre com medo de morrer, não estamos? Para compreender a morte temos de indagar o que é o viver, o que é a nossa vida, pois estamos desperdiçando a nossa vida, estamos desperdiçando nossas energias de muitas maneiras, nas muitas profissões especializadas. Pode ser que sejam ricos, muito competentes, que sejam especialistas, um grande cientista ou um homem de negócios; pode ser que tenham poder, posição, mas, no fim da vida, será que tudo isso não foi um desperdício? Toda essa lida, sofrimento, essa enorme ansiedade e insegurança, as tolas ilusões que o homem acumulou (deuses, santos, etc.), não será tudo isso um desperdício? Por favor, essa é uma pergunta séria, que cada um tem de fazer a si próprio.
Ninguém pode responder por nós. Costumamos separar o viver do morrer. A morte fica lá no fim da vida; nós a colocamos o mais longe possível – depois de muito tempo. Mas, ainda que seja uma longa jornada, temos de morrer. E o que é isso a que chamamos viver – ganhar dinheiro, ir ao escritório das nove às cinco? E com isso sofremos interminável conflito, temor, ansiedade, solidão, desesperança, depressão. Mas será que toda essa existência a que chamamos vida, viver (essa imensa vicissitude do homem com seu conflito sem fim, decepção, degradação) – será isso viver? Mas é a isso que chamamos viver; é isso que conhecemos, é como isso que estamos familiarizados, essa é a nossa existência diária. E a morte significa o fim de tudo, o findar de tudo que pensamos, acumulamos e gozamos. E vivemos apegados a tais coisas. Estamos apegados à família, ao dinheiro, aos conhecimentos, às crenças com as quais temos convivido, aos ideais. Estamos apegados a tudo isso. E a morte vem e diz: “Esse é o fim de tudo, meu velho”.
Tememos morrer, isto é, deixar tudo que conhecemos, tudo que experimentamos, reunimos – nossa encantadora mobília e a bela coleção de quadros de pintura. A morte chega e diz: “Nada mais lhe pertence.” É por isso que nos apegamos ao conhecido e tememos o desconhecido. Podemos inventar a reencarnação, que devemos renascer numa próxima vida. Mas nunca indagamos o que nasce na vida seguinte. O que renasce é um feixe de memórias.
A pergunta, portanto, é esta: por que o cérebro separou o viver (que é conflito e tudo o mais) do morrer? Por que essa divisão? Existe essa divisão quando há apego? Podemos viver no mundo moderno com a morte? Não estamos falando de suicídio, mas em acabar com o apego (e isso é a morte) enquanto vivemos. Estou apegado à casa em que vivo – comprei a casa por um bom dinheiro e apego-me ao mobiliário, aos quadros, à família, a todas essas memórias.
Então chega a morte e acaba com tudo. Mas será que podemos conviver diariamente com a morte, dando um fim a tudo no fim de cada dia, eliminando todo nosso apego? Isso é o que significa morrer. Como costumamos separar o viver do morrer, estamos sempre com medo.
Quando levamos juntos, contudo, a vida e a morte, o viver e o morrer, então descobrimos que há um estado cerebral em que cessa todo conhecimento como memória.
Precisamos do conhecimento para escrever uma carta, vir até aqui, falar inglês, fazer a contabilidade, ir para casa etc. Mas será que podemos usar o conhecimento sem sobrecarregar a mente? Poderá o cérebro usar o conhecimento quando necessário, mas estar livre de todo conhecimento? Nosso cérebro está sempre registrando; agora mesmo estão registrando o que se está dizendo. O registro torna-se memória e a memória, nesse registro, é necessária em certo domínio, no domínio da atividade física. Por conseguinte, pode o cérebro usar o conhecimento quando necessário mas estar livre do velho conhecimento? Pode o cérebro estar livre para funcionar perfeitamente noutra dimensão? Todos os dias, portanto, quando forem dormir, eliminem tudo que acumularam; morram no fim do dia.
E então ouvimos uma declaração como esta: viver é morrer; viver e morrer não são duas coisas diferentes. Se não ouvirem essa declaração com os ouvidos apenas, se estiverem escutando com muita atenção, perceberão a verdade do fato, perceberão a realidade. E, imediatamente, verão como isso é claro. Assim, será que, no fim do dia, podemos morrer para tudo que não for necessário? Morrer para a lembrança de nossas mágoas, nossas crenças, temores, ansiedades, infortúnios – será que podemos pôr fim a tudo isso diariamente? E aí descobrimos que estamos vivendo com a morte o tempo todo, pois a morte é o fim.
Precisamos, de fato, investigar essa questão do findar. Nunca terminamos, definitivamente, coisa alguma; só quando conseguimos alguma vantagem com isso, alguma recompensa. Mas, será que podemos viver assim no mundo de hoje – liquidando tudo voluntariamente, sem pensar no futuro, sem esperar por algo “melhor”, ter, portanto, uma maneira holística de viver, vivendo e morrendo a cada momento? Estamos tratando juntos de coisas que o homem se vem ocupando há um milhão de anos – o viver e o morrer. Temos, portanto, de examinarmos juntos o problema e não reagir a ele, dizendo: “É, mas eu creio na reencarnação” – pois, nesse caso, termina o diálogo entre nós.
Estamos apegados a um mundo de coisas – ao nosso guru, ao conhecimento acumulado, ao dinheiro, às crenças com que temos vivido, aos ideais, à memória de nosso filho ou filha e por aí afora. Nós somos a memória. Nosso cérebro é todo memória – não somente a memória dos conhecimentos recentes mas também a dos remotos, a memória profunda que conserva o que foi o animal, o macaco. Fazemos parte dessa memória e estamos apegados a toda essa consciência. Certo? Isso é um fato. Aí chega a morte e diz: “Acabou o seu apego.” E nós tememos tal coisa, tememos ficar completamente libertos disso tudo. A morte, no entanto, retira de nós tudo que adquirimos. Podemos inventar e dizer: “Sim, mas eu continuo na próxima vida.” Mas o que é que continua? Compreendem a pergunta? Que significa o desejo de continuar? Haverá alguma espécie de continuidade a não ser a da sua conta bancária, ir diariamente ao escritório, a rotina do culto e a continuidade das crenças – tudo que o pensamento criou?
O pensamento é limitado e, assim, cria conflito – já vimos isso. E o eu, o ego, a persona é um complicado feixe de memórias, antigas e recentes. Vivemos de memórias. Vivemos do conhecimento, adquirido ou herdado; somos o produto do conhecimento. O eu é o conhecimento resultante das experiências passadas, dos pensamentos etc. Isso é que é o eu. O eu pode inventar que há algo divino em nós; mas isso ainda é atividade do pensamento. E o pensamento é sempre limitado. Podem ver isso por si mesmos; não precisam ler livros nem estudar as filosofias; podem perceber claramente por si próprios que são um feixe de memórias. E a morte põe fim a toda memória. Eis porque ficamos atemorizados. A questão, portanto, é esta: podemos conviver com a morte no mundo moderno?
Agora devemos também examinar juntos o que é o amor. Será que o amor é sensação? Será desejo? Será prazer? Será coisa criada pelo pensamento? Será que amam a esposa ou o marido ou os filhos? Será que o amor é ciúme? Não digam que não. Será que o amor é medo, ansiedade, sofrimento e tudo mais? O que é o amor? E sem esse quê, esse perfume, essa chama (ainda que sejam ricos, tenham poder, posição, importância) sem amor, serão apenas uma concha vazia. Precisamos, por conseguinte, aprofundar essa questão do amor. Se amassem seus filhos, haveria guerras? Se amassem seus filhos, permitiriam que eles matassem outros? Pode haver amor quando existe ambição? Por favor, enfrentem tudo isso. Mas não conseguimos porque estamos presos a uma rotina, à sensação repetida de sexo etc.
O amor nada tem que ver com prazer, com sensação. O amor não provém do pensamento; não faz parte, por isso, da estrutura do cérebro. É algo que está completamente fora do cérebro, pois o cérebro, por sua própria natureza, é instrumento da sensação, das reações nervosas etc. Quando há sensação, não existe amor. O amor não é coisa da memória.
E temos que discutir sobre a vida religiosa e a religião. Essa é uma questão muito complexa. Os seres humanos vêm buscando alguma coisa que esteja além do mundo físico, além da existência diária do sofrimento, dor ou prazer. Têm buscado algo transcendente, primeiro nas nuvens, sendo o trovão a voz de deus. Depois, cultuaram árvores, pedras – e os aldeões que vivem longe desta feia e detestável cidade ainda veneram pedras, árvores, pequenas imagens.
O homem deseja saber se existe alguma coisa sagrada e, então, chega o sacerdote e diz: “Vou-lhe mostrar” – é exatamente o que faz o guru. Os sacerdotes do Ocidente possuem seus rituais, frases de repetição, roupas ornamentadas e o culto a imagens. E os daqui também têm suas próprias imagens. Há os que não acreditam em nada disso; são ateus e se dizem humanitaristas. Mas os que ouvem a este que fala querem descobrir se há algo fora do tempo, além do pensamento. Vamos, portanto, investigar juntos, exercitar nosso cérebro, nossa razão, nossa lógica para averiguar o que é religião, o que é vida religiosa e se é possível viver uma vida religiosa neste mundo moderno.
Investiguemos, por conseguinte, para descobrir o que, de fato e verdadeiramente, é a vida religiosa. E só podemos descobrir isso quando compreendemos o que são as religiões e as descartamos totalmente – não quando pertencemos a uma religião, a uma organização, um guru ou determinada autoridade que se diz espiritual. Não há autoridades espirituais; esse é um dos crimes que cometemos: inventar um mediador entre nós e a verdade.
Quando indagamos o que é religião, nessa própria indagação já estamos vivendo religiosamente; não no fim dela. No processo mesmo de olhar, observar, discutir, duvidar, objetar, não ter crença nem fé, nessa própria investigação já estamos levando uma vida religiosa. Vamos fazer isso agora.
Tratando-se de assunto religioso, parece que perdem a razão, a lógica, o bom senso. Precisamos, portanto, ser lógicos, racionais, descrentes, indagadores em relação a tudo que o homem criou – deuses, salvadores, gurus e toda sua autoridade; precisamos eliminar, completamente, tudo isso. Nada disso é religião; é apenas a autoridade que alguns poucos assumem. Nós é que lhes conferimos autoridade.
Já notaram que, sempre que há desordem social e política nas relações humanas, aparece um déspota, um ditador? Temos recentes exemplos disso. Sempre que há desordem em nossa vida, criamos uma autoridade; somos responsáveis pela autoridade e existem pessoas prontas a aceitar essa autoridade. Sempre que há medo, inevitavelmente o homem procura um meio de se proteger, de se manter em segurança, uma vez que ele se sente atemorizado. E é por causa desse medo que inventamos deuses. Por causa desse medo é que inventamos os rituais e todo esse circo a que damos o nome de religião. Todos os templos neste país, todas as igrejas e mesquitas, tudo isso foi o pensamento que criou. Podem afirmar que há uma revelação sem jamais duvidarem de tal coisa. Mas ponham em dúvida essa revelação.
Acontece que aceitam; se usarem, contudo, a lógica, a razão, o bom senso, perceberão como acumulam superstições – e nada disso, obviamente, é religião. Será que podem descartar tudo isso para descobrir a essência da religião, qual é a mente, o cérebro, capaz de viver religiosamente? Será que podem, como seres humanos cheios de temor, viver sem inventar nada, sem criar ilusões, e enfrentar o medo? O medo psicológico pode desaparecer completamente quando ficamos com ele, sem fugir dele, dando a ele total atenção. É como lançar um jato de luz sobre o medo, um forte jorro de luz; o medo se extingue por completo. E, quando não há medo, já não há mais deuses, já não mais rituais, pois tudo isso se torna desnecessário, estúpido. As coisas que o pensamento inventa nada têm que ver com religião, pois o pensamento não passa de um processo material resultante da experiência, do conhecimento e da memória. É o pensamento que inventa todo o palavrório e estrutura das religiões organizadas, que já perderam totalmente a significação. Será que, voluntariamente, podem rejeitar tudo isso sem esperar por uma recompensa? Será que querem fazer isso? Se fizerem, então ninguém mais perguntará o que é religião.
E haverá alguma coisa que ultrapasse o tempo e o pensamento? Podem fazer essa pergunta mas, se o pensamento inventar que existe algo transcendente, isso ainda constitui um processo material. O pensamento é um processo material que acumula o conhecimento nas células cerebrais. O orador não é cientista, mas podem ver isso em si mesmos, podem observar em seu próprio cérebro a atividade do pensamento. Desse modo, se puderem desfazer-se de tudo isso voluntariamente, sem oposição nem resistência, nesse caso, inevitavelmente, indagarão: existirá algo que esteja além do tempo e do espaço? Haverá algo jamais visto antes por qualquer outro homem? Haverá algo imensamente sagrado? Haverá algo jamais tocado pelo cérebro? E é isso que vamos descobrir, se é que já deram o primeiro passo, o de varrer completamente toda essa baboseira chamada religião. Quando usam o cérebro e a lógica, podem duvidar, indagar.
Assim, o que significa a meditação que faz parte dareligião? O que é meditação? Será fugir do tumulto, ter uma mente silenciosa, uma mente tranqüila e pacífica? E, para ficarem atentos, para manterem os pensamentos sob controle, praticam um sistema, um método, um processo. Sentam-se de pernas cruzadas e repetem um mantra qualquer. Disseram-me que essa palavra, etimologicamente, significa “ponderar”, “não vir a ser”, “absorver”, “eliminar toda atividade egocêntrica”. Mas nós repetimos, repetimos, repetimos e continuamos vivendo egocentricamente, egoisticamente, pois mantra perdeu o significado.
O que é, pois, meditação? Será um esforço consciente? Costumamos meditar conscientemente, praticar a fim de conseguir alguma coisa – uma mente ou um cérebro tranqüilo, um estímulo para o cérebro. Mas qual é a diferença entre esse meditador e o homem que diz “Quero dinheiro e vou trabalhar para obtê-lo?” Qual é a diferença entre os dois? Ambos estão buscando alguma coisa. Só que a busca de um classificamos de espiritual e a do outro, de mundana. Não obstante, ambos estão buscando algo. Assim, para o orador, isso não é meditação; meditação nada tem que ver com qualquer desejo consciente e deliberado como produto da vontade.
Precisamos indagar, portanto, se há alguma espécie demeditação que não seja produzida pelo pensamento. Haverá alguma espécie de meditação da qual não estejamos consciente? Compreendem isso? Nenhum processo deliberado de meditação é meditação. Isso é tão claro! Podem sentar-se de pernas cruzadas pelo resto da vida, meditar, respirar e praticar tudo mais sem que cheguem sequer perto da outra coisa, pois isso não passa de uma ação intencional para conseguir um resultado – causa e efeito. Mas o efeito torna-se a causa e, assim, acabam presos num círculo. Haverá uma espécie demeditação que não resulte do desejo, da vontade, do esforço? O orador afirma que há. Mas não precisam acreditar nisso; pelo contrário, devem duvidar, indagar, assim como o orador indagou, duvidou, rejeitou. Haverá uma espécie de meditação não planejada nem organizada? Para examinar isso, precisamos compreender o cérebro condicionado, o cérebro limitado, o cérebro que tenta alcançar o ilimitado, o imensurável, o atemporal, se é que existe esse atemporal. E, para isso, é necessário compreender o som. Som e silêncio são inseparáveis.
Costumamos separar o som do silêncio. O som é o mundo; o som é a batida do coração; o universo está repleto de sons; os céus, as milhares de estrelas, todo o firmamento está cheio de som. E consideramos o som uma coisa intolerável. Mas, quando escutamos o som, o próprio ato de escutar é silêncio. O silêncio não se separa do som. A meditação, portanto, não é algo planejado, organizado. A meditação apenas é. Começa com o primeiro passo que é o estar livre de todos os ressentimentos, livre de tudo que já acumulamos – temores, ansiedades, solidão, desespero, sofrimento. Essa é a base, o primeiro passo e o primeiro passo é o último passo. Se derem o primeiro passo, termina tudo. Mas não estamos com vontade de dar esse primeiro passo porque não queremos ser livres. Queremos depender – do poder, de pessoas, do meio-ambiente, de nossa experiência, do conhecimento. Nunca nos libertamos da dependência, do medo.
No findar do sofrimento está o amor. E nesse amor há compaixão. A compaixão tem sua própria inteligência. E quando age a inteligência, atua a própria verdade. Quando essa inteligência está presente, não há conflito. De tudo já ouviram falar – da cessação do medo, do findar do sofrimento, da beleza e do amor. Mas uma coisa é ouvir, e outra, agir. Ouvem tudo isso (que é verdadeiro, lógico, sensato, racional) mas não agem de acordo com isso. Vão para casa e começa tudo de novo – as preocupações, os conflitos, toda a miséria. Assim, perguntamos: qual é a finalidade de tudo isso? Que adianta ouvir este orador e não viver o que ele diz? Quando ouvimos e não agimos, desperdiçamos nossa vida; se ouvirem algo verdadeiro e não agirem, estarão desperdiçando a vida. E a vida é algo muitíssimo precioso – é a única coisa que temos. E acontece que perdemos também contato com a natureza, o que significa que perdemos contato com nós mesmos, parte que somos danatureza. Não amamos as árvores nem os pássaros nem as águas nem as montanhas. Estamos a nos destruir uns aos outros. E tudo isso é desperdício de vida.
Quando percebemos toda essa coisa não apenas intelectualmente nem verbalmente, então vivemos uma vida religiosa. Botar uma tanga, tornar-se pedinte ou entrar para um mosteiro, nada disso é vida religiosa. A vida religiosa começa quando cessa o conflito, quando existe amor. Podemos amar uma pessoa (esposa ou marido), mas aquele amor é para todos os seres humanos, não se destina a uma só pessoa, não é restritivo. Portanto, se empenharem coração, mente e cérebro haverá algo que transcende o tempo. E aí estará a bênção – não nos templos, nas igrejas nem mesquitas. Essa bênção estará onde estivermos.
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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Conversa entre J.Krishnamurti e o Físico David Bohm :
O pensamento é limitado

1º Diálogo em 11 de Junho de 1983 entre J.Krishnamurti e o Físico David Bohm

                                 realizado em Brockwood Park, Inglaterra.

Veja também: O Físico, o Xamã e o Místico – Patrick Drouot

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Uma visão geral sobre a vida e obra deKrishnamurti
[http://www.jkrishnamurti.org/pt/]
Jiddu Krishnamurti nasceu em 11 de maio de 1895 em Madanapele, uma pequena vila no sul da Índia. Ele e seu irmão foram adotados em sua juventude pela Dra. Annie Besant, então presidente daSociedade Teosófica. Dra.Besant e outros proclamaram que Krishnamurti seria o instrutor do mundo, vindo como os teosofistas haviam previsto. Para preparar o mundo para sua chegada, uma organização internacional chamada Ordem da Estrela do Oriente foi formada e o jovemKrishnamurti tornado seu líder.
Em 1929, entretanto, Krishnamurti renunciou ao papel que lhe fora destinado, dissolveu a Ordem com seus inúmeros seguidores e devolveu todo o dinheiro e a propriedade doados para seu trabalho.
A partir de então, por quase sessenta anos, até sua morte em 17 de fevereiro de 1986, ele viajou pelo mundo falando para grandes audiências e indivíduos sobre a necessidade de uma mudança radical na humanidade.
Krishnamurti é tido mundialmente como um dos maiores pensadores e instrutores religiosos de todos os tempos. Ele não apresentava nenhuma filosofia ou religião, mas falava sobre coisas que preocupam a todos nós em nossa vida diária, dos problemas do viver numa sociedade moderna com sua violência e corrupção, da busca individual por segurança e felicidade e da necessidade da humanidade de se livrar do peso interior do medo, da dor e da tristeza. Ele explicou com grande precisão o funcionamento da mente humana e apontou a necessidade para trazer à nossa vida diária uma qualidade profundamente meditativa e espiritual.
Krishnamurti não pertencia a nenhuma organização religiosa, seita ou país, nem estava associado a qualquer escola política ou pensamento ideológico. Pelo contrário, ele afirmou que estes são os verdadeiros fatores que dividem os seres humanos e que trazem o conflito e a guerra. Ele lembrava incessantemente aos seus ouvintes que antes de sermos hindusmuçulmanos, ou cristãos, somos seres humanos, que somos iguais ao resto da humanidade e que não somos diferentes uns dos outros. Ele pediu que andemos suavemente por esta terra sem nos destruir ou ao meio ambiente. Ele transmitiu aos seus ouvintes um profundo senso de respeito pela natureza. Seus ensinamentos transcendem os sistemas de crenças feitos pelo homem, o sentimento de nacionalismo e de sectarismo. Ao mesmo tempo, eles dão um novo sentido e direção à busca da humanidade pela verdade. Seus ensinamento, além de serem relevantes à idade moderna, são atemporais e universais.
Krishnamurti não falava como um guru, mas como um amigo. Suas palestras e discussões não são baseadas num conhecimento tradicional, mas em seus próprios vislumbres sobre a mente humana e sua visão do sagrado, portanto ele sempre transmite uma sensação de frescor e clareza, apesar da essência de sua mensagem ter se mantido inalterada através dos anos.
Quando se dirigia a grandes audiências, as pessoas sentiam que Krishnamurti estava falando com cada uma delas pessoalmente, sobre seus problemas em particular. Em suas entrevistas privadas ele era um professor compassivo, ouvindo atentamente o homem ou mulher que vinha a ele em sofrimento, encorajando-o a curar a si mesmo através do seu próprio entendimento. Estudiosos de religião descobriram que suas palavras lançavam uma nova luz aos conceitos tradicionais. Krishnamurti aceitou desafios de cientistas modernos e psicólogos e os acompanhou passo a passo, discutiu suas teorias, eventualmente capacitando-os a enxergar os limites dessas teorias. Krishnamurti deixou um imenso acervo em forma de discursos públicos, escritos, discussões com professores e estudantes, com figuras religiosas e científicas, conversas com indivíduos, entrevistas em televisão e rádio e cartas. Muito deste material foi publicado como livros, áudio e vídeos.
Mais informações sobre a vida de Krishnamurti podem ser encontradas nas biografias escritas por Mary Lutyens e Pupul Jayakar.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

  Como o cérebro pode transforma-se a si mesmo? 
J. Krishnamurti

Série: Um mundo de paz – 1º Palestra, 27 agosto 1983 – Broekwood Park –

Como o cérebro pode transforma-se a si mesmo?
– É possível efetuar uma mutação nas próprias células cerebrais condicionadas por milhares de anos?
– Ou se diz que isso não é possível e se põe fim à investigação ou se diz eu realmente não sei.
– Sem qualquer escolha estou consciente de que meu cérebro está condicionado?
– Qual é a natureza do condicionamento?
– É essencialmente experiência e conhecimento?
– Por que a estrutura da psique é essencialmente baseada no conhecimento?
– O que sou eu sem memória?
– É possível viver psicologicamente sem memórias?
– A divisão entre memória e o observador cria conflito.

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          J. krishnamurti – Como aprender sobre si mesmo?



1º Palestra – Universidade de San Diego, Califórnia, EUA
5 de Abril de 1970.

Como aprender sobre si mesmo?
Se não vamos ser dependentes de algum salvador ou autoridade, então onde procuramos a luz?
Estando fragmentados com desejos contraditórios, não tendo amor, como vamos observar?
Um fragmento observa o resto?
Você é separado da coisa que observa? Você consegue no momento da violência, no momento de sua raiva, sem o censor?
Quando o observador torna-se o observado, a contradição desaparece?
Podemos nos libertar do conhecimento acumulado?
Existe estupidez se não comparo de modo algum? Você entende alguma coisa através da comparação?

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J.  Krishnamurti 
Na solidão você pode estar completamente seguro (legendado)

             Diálogo entre David Bohm (Físico), David Shainberg (Psiquiatra), 

             e J.Krishamurti, realizado em Brockwood Park em Maio de 1976.
 
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O Holomovimento – David Bohm

Fonte: http://onuminosum.blogspot.com.br/2013/01/oholomovimento-david-bohm-centro.html

 
Físico norte-americano, David Bohm foi aluno de J. Robert Oppenheimer e durante a Segunda Guerra estudou os efeitos do plasma nos campos magnéticos, trabalhou no desenvolvimento da bomba atómica. Foi colega de trabalho de Einstein, na Universidade de Princeton. As suas contribuições para a física, principalmente na área da mecânica quântica e da teoria da relatividade, foram significativas. Ainda como estudante de pós-graduação em Berkeley, chegou a uma teoria que desempenha um papel importante nos estudos da fusão – fenómeno hoje conhecido como “difusão de Bohm“. O seu primeiro livro, Teoria quântica, foi publicado em 1951, e considerado por Einstein a exposição mais clara que ele já havia visto sobre o assunto.
 
As visões científica e filosófica de Bohm são inseparáveis. Em 1959, lendo um livro do filósofo indiano Krishnamurti, constatou o quanto as suas idéias sobre mecânica quântica se fundiam com as idéias filosóficas de Krishnamurti. Juntos, promoveram palestras e debates sobre assuntos importantes e que depois foram publicados em livros. No seu livro Totalidade e Ordem Implícita, de 1980, trouxe a teoria sobre as variáveis ocultas e a interpretação superficial da mecânica quântica, propondo que uma ordem oculta atua sob aparente caos e falta de continuidade das partículas individuais de matéria descritas pela mecânica quântica.
 
A Teoria da Ordem Implícita
 
A idéia básica da ordem implícita: “Em geral, a totalidade da ordem abrangente não pode se tornar manifesta para nós; somente um certo aspeto dela se manifesta. Quando trazemos essa ordem abrangente para o aspeto manifesto, temos uma experiência de percepção. Mas isso não quer dizer que a totalidade da ordem seja apenas aquilo que se manifesta. Na visão cartesiana, a totalidade da ordem, pelo menos potencialmente, é manifesta, embora não saibamos como manifestá-la por nós mesmos. Precisaríamos de microscópios, telescópios e outros instrumentos”.
 
A sugestão básica da teoria de Bohm é a de que vivemos num mundo multidimensional e a nossa moradia está situada no nível mais óbvio e superficial: o mundo tridimensional dos objetos, espaço-tempo, ou seja, na ORDEM EXPLÍCITA. Neste nível, explica Bohm, “a matéria é de graduação densa, e embora possa ser descrita em relação a si mesma, não é a maneira de explicá-la e entendê-la com clareza. Infelizmente, nesse nível, é que muitos físicos trabalham hoje em dia, apresentando descobertas na forma de equação de significado obscuro”.
 
Então, o que fazer? Bohm indica o caminho: avançar para um nível mais profundo, para a ORDEM IMPLÍCITA, a fonte ou fundo abrangente de toda a nossa experiência física, psicológica e espiritual. Esta fonte está situada numa dimensão de extrema sutileza, ou seja, na ORDEM SUPERIMPLÍCITA. E não termina aí, pois além dela pode-se postular muitas ordens semelhantes “mergulhando numa fonte ou esfera infinita n-dimensional”. A filósofa Renèe Weer perguntou a Bohm em entrevista se isso ocorreria como na teoria de campo de Einstein. Bohm respondeu: “Na ordem implícita, não somente lidamos sempre com o todo (como faz a teoria de campo), mas também dizemos que as conexões do todo, nada têm a ver com a localização no espaço e no tempo, mas com uma qualidade inteiramente diversa, denominada abrangência”. A entrevistadora pediu maiores explicações: “por outras palavras, o importante é a inexistência de locais de cruzamento ou travessia?”, perguntou ela. A resposta de Bohm: “Nos modelos antigos, ou uma partícula cruza um lugar, ou uma força ou campo de energia cruza esse lugar; portanto, do ponto de vista da ordem implícita, não vemos distinção fundamental entre Einstein e Newton. Dizemos que são diferentes, mas ambos diferem na mesma medida da ordem implícita”.
 
Ao fundo vasto e dinâmico desta teoria, Bohm chamou Holomovimento. Segundo Bohm, oholomovimento está situado na esfera do que é manifesto. O movimento básico doholomovimento é o recolhimento e o desdobramento. “Afirmo que toda a existência é, basicamente, um holomovimento que se manifesta numa forma relativamente estável”
 
Bohm explica que o fluxo está, pelo menos, numa condição de equilíbrio “fechando-se como vórtice que se fecha sobre si mesmo, embora continue a mover-se”. A entrevistadora quis saber mais: – O senhor disse que essas seriam formas mais densas de matéria e não mais subtis ou menos estáveis.
 
Bohm: “Digamos que são formas mais estáveis de matéria. Veja, até a nuvem conserva uma forma estável, de modo a ser vista como uma manifestação do movimento do vento. Da mesma maneira, a matéria como que formaria nuvens no interior do holomovimento e elas manifestariam o holomovimento aos nossos sentidos e pensamentos comuns”.
 
– Seriam todas as entidades e… nós mesmos, com todas as nossas faculdades, formas doholomovimento?

Bohm: “Sim, e também as células, os átomos. Acrescento que isso começa a favorecer a compreensão da mecânica quântica: esse desdobramento constitui uma idéia direta do que é entendido pela matemática da mecânica quântica. Estamos falando precisamente sobre o que é chamado de transformação unitária ou descrição matemática básica do movimento na mecânica quântica. Trata-se simplesmente da descrição matemática do holomovimento“.

Criatividade como matéria prima da economia

http://www.empreendedorescriativos.com.br/entrevistas/criatividade-como-materia-prima-da-economia/

7/JANRaul Perez

“A indústria criativa é um dos segmentos mais promissores da economia brasileira”, indicava uma manchete de revista no mês passado. De fato, só em 2012, estudos deram conta que o mercado criativo do país é o quinto maior do mundo e os profissionais da área chegam a receber salários até três vezes maiores do que a média nacional.

Além disso, o governo federal está de olho nessa economia que chega a movimentar 2,7% do Produto Interno Bruto do Brasil, segundo dados da Federação das Indústria do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). O setor ganhou uma secretaria exclusiva na estrutura do Ministério da Cultura e, em breve, novas linhas de crédito adaptadas a produtos e serviços criativos estarão disponíveis, segundo a SEC.

Mas a economia que tem na ideia sua matéria-prima exige novas abordagens e diferentes formas de troca. Uma das mais importantes vozes sobre o assunto no Brasil, Lala Deheinzelin, explica como funciona essa nova dinâmica, baseada em colaboração, trocas diretas e relacionamento em rede.

A entrevista faz parte da série iniciada no fim do ano passado pelo Empreendedores Criativos, em que curadores do Movimento HotSpot respondem questões elaboradas por jovens empreendedores sobre mercado. As perguntas desta entrevista foram feitas por Felipe Iszlaji, idealizador do Dicionário Criativo.

Publicitário, doutor em Linguística, escritor de poemas, roteiros e letras de música, ele fundou a plataforma como um “auxílio à escrita    criativa”. Desde então, o Dicionário Criativo participou da primeira edição do Empreendedores Criativos, fechou parceria com a Getty Images e, recentemente, foi aprovado em edital do CNPQ para contratar pesquisadores das áreas da Computação e Linguística Computacional para aperfeiçoar sua tecnologia semântica. Confira:

Felipe Iszlaji – Ao contrário da economia tradicional – a economia da escassez – a economia da cultura e do conhecimento é a economia da abundância. Isso porque conhecimento é um recurso infinito. No entanto, o tempo das pessoas para consumirem produtos culturais é finito. O tempo de um usuário em um site é, por exemplo, um dos parâmetros utilizados para a conquista de anunciantes. A disputa por esse ‘tempo’, por essa audiência, não continua sendo um motivo de feroz competição? 

Lala Deheinzelin – O tempo é outra faceta da moeda. Quando não existe moeda existe o tempo. Todos os negócios na internet que são aparentemente livres ou grátis, não são, estão sendo na verdade pagos com o único recurso que não se renova, é escasso e não é abundante, o tempo. Nessa nova economia da abundância, a questão é como trabalhar com isso e como as pessoas se conscientizam do valor do seu tempo. A época de portais disputando o tempo e a atenção das pessoas já vai começar a declinar, porque elas já estão muito mais ligadas naquilo que o Michel Bauwens fala sobre a passagem da economia da atenção para a economia da intenção, onde as pessoas se juntam em torno de um propósito.

Essa questão do tempo finito é o que vai levar inevitavelmente a sair da competição e entrar em modelos colaborativos, porque a única maneira que tem de ganhar tempo e de ganhar tudo é a partir de processos colaborativos, onde tempo, informação e desejo acabam convergindo na construção coletiva, a exemplo da Wikipedia e de outros processos que são feitos dessa maneira. Sendo assim, o sucesso da economia da abundância, da economia da cultura e do conhecimento está diretamente ligado ao uso do tempo e das pessoas se assenhorarem desse uso. O Clay Shirky, no livro “Cultura da Participação”, diz que para fazer a Wikipedia foram necessárias 100 mil horas. Esse tempo equivale, ao que se vê comerciais de TV,  a um único fim de semana, só nos Estados Unidos. Nós vemos 1 trilhão de horas de TV por ano e esse tempo, que não aproveitamos, será um dos recursos mais importantes no futuro.

FI – Os recursos que financiam os produtos culturais (patrocínio, publicidade, fomento etc.) estão de fato se pulverizando, podendo financiar um número exponencialmente maior de iniciativas? Pergunto isso porque o Dicionário Criativo está fazendo essa aposta. Ele acredita e pretende ser uma ferramenta para a democratização dos meios de produção culturais. Mas não basta democratizar os meios de produção e os meios de divulgação se os agentes desses novos produtos não conseguirem “pagar suas contas”.

LD – Conheço pouco sobre financiamento cultural, patrocínio, publicidade e fomento, porque trabalho mais com questões ligadas ao desenvolvimento e à sustentabilidade, mas sim, eu tenho impressão que a era do marketing cultural e do financiamento privado à cultura está se esgotando. Eu acho que, de maneira geral, as soluções estão no trabalho colaborativo, porque democratizar os meios de produção e os meios de divulgação é super importante. Não adianta ter produtos se não há processos.

Por exemplo, não adianta você ter um produto cultural se você não tem um processo de distribuição ou de torná-lo visível. E para que eles sejam eficazes a chave está em colaborar. Ter o seu escritório, a sua secretária, etc. não faz mais sentido, o futuro é de co-working. Toda a chave para poder pagar contas está na questão do colaborativo. A nossa metodologia de trabalho para conseguir pagar contas é o que a gente chama de mapeamento de recursos 4D , que são as quatro dimensões da sustentabilidade. E

Então não é apenas o recurso financeiro – além da moeda e do tempo -, mas as demais dimensões: os recursos sociais, culturais e ambientais. Quando você trabalha com isso, fazendo troca direta, por exemplo, usando outro tipo de recurso, a conta pode ser muito otimizada. A experiência mostra que você precisa de 30% de moeda e os outros 70% você consegue realizar em troca direta de recursos.

FI – Os exemplos do Google e do Facebook são emblemáticos da era do conhecimento. São empresas de sucesso e de grande valor de mercado. No entanto, elas são mais exceção do que regra de sucesso nessa nova economia. E os investidores de risco continuam procurando apenas exemplos como esses, ou seja, empresas que em poucos anos se tornem bilionárias. Existem agentes econômicos dispostos a investir em empresas inovadoras, de impacto, mas que não necessariamente se tornarão multimilionárias?

 LD– Eu sou futurista. A questão toda de trabalhar com o futuro é porque aquilo que existe hoje é fruto de pensamento do passado. Então tudo aquilo que faz sucesso atualmente é fruto de coisas que estão deixando de ser. É como quando olhamos para o céu e vemos estrelas, na verdade é a luz de algo que não está mais lá. Esse modelo concentrado, como o Google e, sobretudo o Facebook, já viveu o seu auge. Acredito que a próxima fase da internet vai ser uma fase distribuída e não concentrada e, com isso, o mercado vai se adaptar também. Acho que a saúde do mercado e o mercado do futuro serão muitas pequenas empresas, muito diferenciadas entre si.

Os investidores vão ter que entrar na nova lógica e aqueles que são mais espertos já estão entrando, estão vendo que é possível conseguir menos resultado em quantidade, porém mais resultado em qualidade e com mais possibilidade  porque Google e Facebook são a exceção e não a regra. Apoiar uma diversidade de negócios isso sim é o futuro. Os agentes estão crescendo cada vez mais, basta ver a quantidade de pessoas falando sobre startups, o número de investidores anjo que está crescendo, mas ainda falta muita, muita visão.

No nosso caso, por exemplo, o BNDES que deveria estar fazendo parcerias com instituições de financiamento como a Finep e o Sebrae ou mesmo com os bancos comerciais para poder ter financiamento, investimento e crédito em escala menor, ainda está operando na lógica antiga, de apoiar grandes infraestruturas – o menor investimento dele para a área criativa é de R$ 1 milhão, o que não é real. Estamos realmente vivendo um momento de transição e ela supõe mudanças nessa lógica, que, no meu ponto de vista, terão que acontecer inevitavelmente.  Quem demorar para mudar vai peder o bonde e quem mudar logo e começar a trabalhar com muitos, pequenos, distribuídos, colaborativos e em rede, vai se dar bem.

FI – Como montar uma equipe e mantê-la motivada dentro dessa nossa lógica da geração Y que, dizem, é essencialmente empreendedora? Onde encontrar os mais criativos e que tipo de relação de trabalho deve ser construída com eles?

 LD – Toda a questão de empreendedorismo vai provavelmente mudar muito e acho que o Brasil vai ter um papel grande nisso. O Domenico de Masi fala que os Estados Unidos exportaram o seu modelo, de um capitalismo até um pouco predatório, através de filmes, da cultura e de management, da ideia do empreendedor solitário, self-made man, lutando, competindo, aniquilando a concorrência. Isso tudo já foi, é passado. A gente ainda vê isso, mas é questão de tempo.

Quem passar para uma lógica colaborativa vai sobreviver, quem continuar acreditando que competitividade vem a partir da competição, no meu entender, não vai se dar muito bem. E o que a gente vê com os jovens é que eles cada vez mais estão saindo dos seus trabalhos porque cada vez mais eles fazem algo que os motiva e que dá prazer, se não, eles não se interessam. Existe uma crise de busca de talentos nas empresas, porque ninguém fica, ninguém vai se matar se não for por alguma coisa que acredita. As pessoas estão ficando cada vez mais autônomas.

E, mais uma vez, eu acho que a chave para encontrar os criativos é na questão colaborativa. O tipo de relação a ser construídas com eles é de rede, de coletivos, de todo o tipo de processo colaborativo, que foi, por exemplo, o que a gente trabalhou no CRio Redes (inciativa colaborativa para  propor soluções urbanas para o Rio de Janeiro), ou o que é o Hub, ou o que são os financiamentos coletivos. A tendência que a gente observa de forma muito clara é que todas as pessoas mais criativas, mais talentosas, estão entrando neste outro modelo. E se você der uma olhada em quem são as pessoas que participaram das falas do CRio Redes, todos eles já tão nessa nova lógica de trabalho.

FI – Quais são os principais modelos de negócios da Economia Criativa? Os empreendedores estão conseguindo inovar não apenas nos produtos e modelos de distribuição, mas também na maneira de produzir receita?

LD – Temos um modelo inicial, que eu chamaria de indústria criativa, que é setorial. Aquele modelo que foi difundido e muito estruturado pelo Reino Unido, com 11 ou 13 setores e que tem a ver com artes, produção de conteúdo ou serviços criativos. O segundo modelo, que já começo achar mais interessante, é aquele que sai do setorial e vai para o territorial, a ideia das cidades e dos territórios criativos, que já faz mais sentido, porque o futuro é muito pouco setorial. O trabalho setorial funciona quando você está falando em estrutura e em modelos indiferenciados. Num futuro onde tudo é cada vez mais diferenciado customizado, único, o modelo setorial não tem tanto sentido. E o que faz mais sentido, onde você consegue melhores resultados é no território, considerando o blend, a receita mista e sofisticada que é cada um desses territórios.

O terceiro modelo é o que eu chamo de economia criativa. Existem muitas definições, mas eu trabalho com ideia de que a economia criativa é uma economia baseada em recursos intangíveis. A economia tradicional é baseada em recursos tangíveis, como terra, ouro, petróleo, tudo aquilo que é material. E a economia criativa é baseada em intangíveis, ela inclui não apenas os negócios criativos, mas toda a inovação e a mudança e o que qualifica, diferencia e valoriza qualquer tipo de empreendimento, indústria, instituição a partir de seus atributos intangíveis. O que se percebe é que a economia criativa pode ser uma grande chave para a sustentabilidade  Esse é o modelo que mais me encanta, ver como é que se consegue criar um modelo de trabalho que possa ser uma solução para a sustentabilidade porque a economia tradicional não é. Não dá pra ser sustentável com uma economia baseada em recursos tangíveis.

O futuro mais uma vez vai depender da maneira de produzir receita. E o que eu tenho defendido como futurista e especialista em sustentabilidade é essa questão dos processos colaborativos, peer-to-peer e da enfase nos processos de distribuição e de visibilidade não tanto na produção. E nessa questão de ter formas de definir, recursos, resultados e valor para além do monetário, considerando várias dimensões.

Por um congresso de religiões esquisitas + entrevista – Hakin Bey

 
Publicado no Blog Resistências e Resiliências

Nós aprendemos a desconfiar do verbo ser, da palavra é — digamos assim: notem a impressionante semelhança entre o conceito de SATORI e o conceito de REVOLUÇÃO DA VIDA COTIDIANA — em ambos os casos: a percepção do “ordinário” com conseqüências extraordinárias para consciência e ação. Não podemos usar a frase “é como” porque ambos os conceitos (como todos os conceitos, todas as palavras para esta matéria) vêm encrustadas de acréscimos — cada um sobrecarregado com toda sua bagagem psico-cultural, como convidados que chegam suspeitamente bem supridos demais para o fim de semana.

Então, permitam-me o velho uso Beat-Zen do satori, enquanto simultaneamente enfatizando — no caso do slogan Situacionista — que uma das raízes de sua dialética pode ser traçada até a noção dadaísta e surrealista do “maravilhoso” irrompendo de (ou dentro de ) uma vida que apenas parece sufocada pelo banal, pelas misérias da abstração e alienação. Eu defino meus termos fazendo-os mais vagos, precisamente a fim de evitar as ortodoxias do Budismo e do Situacionismo, para evitar suas armadilhas ideológico-semânticas — aquelas máquinas quebradas de linguagem! Ao invés disso, proponho que os devastemos por partes, um ato de bricolage cultural. “Revolução” significa apenas outra volta da manivela — enquanto a ortodoxia religiosa de qualquer tipo leva logicamente a um autêntico governo de manivelas. Não vamos idolatrar o satori imaginando que seja monopólio de monges místicos, ou como contingente a qualquer código moral; e melhor que fetichizar o Esquerdismo de 68, nós preferimos o termo de Stirner “insurreição” ou “levante”, o qual escapa das implicações embutidas de uma reles mudança de autoridade.
Esta constelação de conceitos envolve “quebrar regras” de percepção ordenada para chegar à experiência direta, de alguma forma análoga ao processo pelo qual o caos espontaneamente resolve-se em ordens fractais não-lineares, ou a forma em que energia criativa “selvagem” resolve-se como brincadeira e poesia. “Ordem espontânea” saída do “caos”, por sua vez, evoca o Taoísmo anarquista de Chuang Tzu. O zen pode ser acusado de falta de consciência das implicações “revolucionárias” do satori, enquanto que os Situacionistas podem ser criticados por ignorar uma certa “espiritualidade” inerente à auto-realização e sociabilidade que suas causas exigem. Idenficando o satori com a revolução da vida cotidiana, estamos desempenhando um pouco de casamento de espingarda tão memorável quanto o famoso encontro surrealista entre um guarda-chuva e uma máquina de costura, ou o que quer que fosse. Miscigenação. A mistura de raças defendida por Nietzsche, que era atraído, sem dúvida, pelo erotismo mestiço.                                             Hakim Bey
Estou tentado a descrever a forma pela qual o satori “é” como a revolução da vida cotidiana — mas não posso. Ou, para colocar de outra forma: quase tudo que escrevo gira em torno deste tema; eu teria de repetir quase tudo a fim de elucidar este único ponto. Ao invés disso, como um apêndice, ofereço mais uma curiosa coincidência ou interpenetração de 2 termos, um do Situacionismo, de novo, e outro, desta vez, do sufismo. A dérive ou “vagar” foi concebida como um exercício para deliberadamente revolucionar a vida cotidiana — um tipo de perambulação a esmo pelas ruas da cidade, um nomadismo urbano visionário envolvendo uma franqueza quanto à “cultura como natureza” (se eu compreendi corretamente a idéia) — pelo qual sua absoluta duração inculca nos perambuladores uma propensão para experimentar o maravilhoso; nem sempre em sua forma benéfica, talvez, mas confiantemente sempre produtiva de compreensão — seja através da arquitetura, do erótico, da aventura, das bebidas e drogas, do perigo, da inspiração, o que for — em direção à intensidade da percepção e experiência não mediadas.
O termo correspondente no sufismo seria “viajar aos distantes horizontes” ou simplesmente “viajar”, um exercício espiritual que combina as energias urbanas e nômades do Islã numa única trajetória, às vezes chamada “a Caravana do Verão”. O dervixe promete viajar a uma certa velocidade, não passando mais do que 7 noites ou 40 noites em uma cidade, aceitando o que vier,   movendo-se para onde quer que sinais e coincidências ou simplesmente caprichos possam guiá-lo, rumando de lugar de poder a lugar de poder, consciente da “geografia sagrada”, do itinerário como significado, da topologia como simbologia. Aqui está outra constelação: Ibn Khaldun; On the Road [“Pé na Estrada”] (tanto o de Jack Kerouac quanto o de Jack London); a forma da novela picaresca em geral; Barão de Munchausen; wanderjahr; Marco Polo; garotos numa floresta suburbana no verão; cavaleiros arturianos buscando encrenca; viados caçando rapazes; de bar em bar com Melville, Poe, Baudelaire — ou canoagem com Thoreau no Maine… viagem como a antítese do turismo, espaço ao invés de tempo. Projeto de arte: a construção de um “mapa” apresentando uma razão de 1:1 em relação ao “território” explorado. Projeto político: a construção de “zonas autônomas” móveis dentro de uma rede nômade invisível (igual aos Encontros do Arco-íris). Projeto espiritual: a criação ou descoberta de peregrinações nas quais o conceito de “santuário” tenha sido substituído (ou esoterizado) pelo conceito de “experiência de pico”.
O que estou tentando fazer aqui (como de costume) é fornecer uma base sonora irracional, uma estranha filosofia, se você preferir, para o que eu chamo de Religiões Livres, incluindo as correntes Psicodélica e Discordista, neo-paganismo não-hierárquico, heresias antinomianas, caos e Magia do Kaos, Vodu revolucionário, cristãos anarquistas e “sem igreja”, Judaísmo Mágico, a Igreja Ortodoxa Moura, a Igreja do SubGênio, as Fadas, Taoístas radicais, místicos da cerveja, povo da Erva, etc, etc.
Ao contrário das expectativas dos radicais do século XIX, a religião não desapareceu — talvez estivéssemos melhor se tivesse desaparecido — mas ao invés disso aumentou seu poder, semelhante em proporção ao crescimento global no reino da tecnolgia e do controle racional. Tanto o fundamentalismo quanto a Nova Era obtêm alguma força da profunda e disseminada insatisfação com o Sistema que trabalha contra toda percepção da maravilha da vida cotidiana — pode chamar de Babilônia ou o Espetáculo, Capital ou Império, Sociedade da Simulação ou do mecanismo desalmado — como quiser. Mas essas duas forças religiosas desviam o próprio desejo pelo autêntico em direção a novas abstrações esmagadoras e opressivas (moralidade no caso do fundamentalismo, mercantilização no caso da Nova Era) e por esta razão podem ser muito apropriadamente chamadas de “reacionárias”.
Assim como radicais culturais procurarão se infiltrar e subverter a mídia popular e assim como radicais políticos desempenharão funções similares nas esferas do Trabalho, Família e outras organizações sociais, também existe uma necessidade de que radicais penetrem a própria instituição da religião, ao invés de meramente continuar a proferir chavões do século XIX sobre materialismo ateu. Vai acontecer de qualquer forma — melhor chegarmos a isto com consciência, com encanto e estilo.

Tendo certa vez vivido perto do Quartel-general do Conselho Mundial de Igrejas, eu gosto da possibilidade de uma versão paródica das Igrejas Livres — a paródia sendo uma das nossas principais estratégias (ou chame de detournement ou desconstrução ou destruição criativa) — uma espécie de rede frouxa (não gosto desta palavra; vamos chamar de “teia de aranha”) de cultos esquisitos e indivíduos fornecendo palestras e serviços uns aos outros, de onde pode começar a emergir uma direção ou tendência ou “corrente” (em termos mágicos) forte o suficiente para descarregar uma devastação psíquica nos Fundamentalistas e nos adeptos da Nova Era, mesmo nos aiatolás e no Papado, jovial o bastante para discordarmos uns dos outros e ainda assim darmos grandes festas — ou conclaves, ou conselhos ecumênicos, ou Congressos Mundiais — os quais antecipamos com alegria.

As Religiões Livres podem oferecer algumas das únicas alternativas espirituais possíveis em relação às tropas de assalto dos televangelistas e palermas manipuladores de cristais (sem falar das religiões estabelecidas), e desta maneira se tornarão mais e mais importantes, mais e mais vitais em um futuro onde a demanda pela erupção do maravilhoso dentro do comum se tornará a mais retumbante, pungente e tumultuosa de todas as demandas políticas — um futuro que começará (espere, deixe eu ver meu relógio)… 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… AGORA.

SEGUNDA-FEIRA, 3 DE DEZEMBRO DE 2012

Terrorismo Poético
Entrevista com Hakim Bey na High Times Magazine
High Times – Hakim, de onde você é?
Hakim Bey – Bem, a informação padrão (que é tudo o que falo) é que eu era um poeta da corte um principado sem nome do norte da Índia, que eu fui preso na Inglaterra por um atentado anarquista a bomba e que eu vivo em Pine Barrens, Nova Jersey, em um trailer da Airstream ( tradicional marca americana de trailers). Quando venho a Nova York fico num hotel em Chinatown.
High Times – O que é Zona Autônoma Temporária?
HB – A Zona Autônoma Temporária é uma idéia que algumas pessoas acham que eu criei, mas eu não acho que tenha criado ela. Eu só acho que eu pus um nome esperto em algo que já estava acontecendo: a inevitável tendência dos indivíduos de se juntarem em grupos para buscarem a liberdade. E não terem que esperar por ela até que chegue algum futuro utópico abstrato e pós-revolucionário. A questão é: como os indivíduos maximizam a liberdade sob as situações nos dias de hoje, no mundo real? Eu não estou perguntando como nós gostaríamos que o mundo fosse, nem naquilo em que nós estamos querendo transformar o mundo, mas o que podemos fazer aqui e agora. Quando falamos sobre uma Zona Autônoma Temporária, estamos falando em como um grupo, uma coagulação voluntária de pessoas afins não-hierarquizadas, pode maximizar a liberdade por eles mesmos numa sociedade atual. Organização para a maximização de atividades prazerosas sem controle de hierarquias opressivas. Existem pontos na vida de todos que as hierarquias opressivas invadem numa regularidade quase diária: você pode falar sobre educação compulsória, ou trabalho. Você é forçado a ganhar a vida, e o trabalho por si só é organizado como uma hierarquia opressiva. Então a maioria das pessoas, todos os dias, tem que tolerar a hierarquia opressiva do trabalho alienado. Por essa razão, criar uma Zona Autônoma Temporária significa fazer algo real sobre essas hierarquias reais e opressivas – não somente declarar antipatia teórica a essas instituições. Você vê a diferença que eu coloco aqui? No aumento da popularidade do livro, muitas pessoas se confundiram com esse termo e usaram ele como um rótulo para todo o tipo de coisa que ele realmente não é. Isso é inevitável, uma vez que o próprio vírus da frase está solto na rede (para usar metáforas de computadores). Se as pessoas usam erroneamente ele ou não isso não é tão importante, porque o significado está incrustado no termo. É como um vírus verbal. Ele diz o que significa.
 
HT – Você pode explicar o terrorismo poético?
HB – Por terrorismo poético eu entendo ações não-violentas em larga escala que podem ter um impacto psicológico comparável ao poder de um ato terrorista – com a diferença que o ato é uma mudança de consciência. Digamos que você tem um grupo de atores de rua. Se você chamar o que você esta fazendo de “performance de ruas”, você já criou uma divisão entre o artista e a audiência, e você alineou de si mesmo qualquer possibilidade de colidir diretamente nas vidas diárias da audiência. Mas se você pregar uma peça, criar um incidente, criar uma situação, pode ser possível persuadir as pessoas a participar e a maximizar sua liberdade. É uma estranha mistura de ação clandestina e mantira ( que é a essência da arte) com uma técnica de penetração psicológica de aumento de liberdade, tanto no nível individual quanto social.

COCRIAÇÃO: REINVENTANDO O CONCEITO – Augusto de Franco

 

Foto: Plenária de encerramento do Festival de Ideias no Ibirapuera 23/08/2012

 

Augusto de Franco 

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Espere o inesperado ou você não o encontrará.

Heráclito (c. 500 a. E. C.)

 

Co-criação é uma idéia que está se espalhando rapidamente nos últimos anos. Embora o termo (co-creation) tenha surgido no mundo dos negócios – para designar o desenvolvimento de novos conceitos, produtos ou serviços em conjunto com os stakeholders de uma empresa – a sua apreensão e a sua aplicação já extravasaram o âmbito corporativo. No entanto, ainda não surgiram novas teorizações que dessem conta desse sentido mais amplo do conceito. Co-creation ainda é justificada como uma estratégia empresarial, confundida frequentemente com coworking, tomada às vezes como equivalente de crowdsourcing e, em geral, concebida e emulada como um processo participativo conduzido por uma instância centralizada. Em uma época de emergência de novos fenômenos interativos que estão impulsionando a transição da sociedade hierárquica para a sociedade em rede, o velho construct de co-criação revela-se impotente para captar, descrever e analisar as mudanças que estão acontecendo em todas as áreas da atividade humana, inclusive nos negócios. É necessário e urgente, portanto, reinventá-lo e isso pode ser feito a partir da premissa básica, quase evidente por si mesma, de que toda criação é co-criação.

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O SURGIMENTO DO CONCEITO DE CO-CREATION

O conceito de co-criação, ou melhor, o termo co-creation, apareceu em 2000, provavelmente como desdobramento de outro conceito, o de co-produção (co-production), surgido no final da década de 1970, com o sentido geral de “participação do cliente na produção” (1). Atribui-se a Coimbatore Krishnarao Prahalad e a Ventak Ramaswamy a autoria do termo co-creation em um artigo da Harvard Business Review intitulado “Co-Opting Customer Competence” (2). Posteriormente, em 2004, o tema seria retomado e mais desenvolvido pela mesma dupla acadêmica (Prahalad & Ramaswamy) no livro The Future of Competition (3). Foi então que a ideia se tornou amplamente conhecida.

A idéia surge, portanto, no âmbito do marketing e dos negócios. Co-criação seria “uma forma de inovação que acontece quando as pessoas de fora da empresa…” (fornecedores e, sobretudo, clientes, como relata a sofrível descrição da Wikipedia em português), “associam-se ao negócio ou produto agregando inovação de valor, conteúdo ou marketing e recebendo em troca os benefícios de sua contribuição, sejam eles através do acesso a produtos customizados ou da promoção de suas ideias”. Cita-se como exemplo a própria Wikipedia que, “editada por milhares de pessoas no mundo todo… protagoniza [sic] um dos pilares da co-criação, a colaboração” (4).

Francis Gouillart, cofundador da Experience Co-Creation Partnership e professor do Center for Experience Co-Creation da Ross School of Businessda Universidade de Michigan, declarou recentemente (2010) que o futuro das empresas depende da co-criação, argumentando que o marketing tradicional, em que as empresas criam e as pessoas consomem, está morrendo. Agora os consumidores participam da concepção dos produtos que desejam. O objetivo – pelo menos para as empresas – seria reduzir custos e riscos, pois as empresas sozinhas não têm mais condições de determinar o que seria melhor para seus clientes (5).

Já há uma extensa literatura disponível sobre a co-creation e seus antecedentes (como a co-production e suas variantes; e. g., a peer production) (6). Mas em geral tudo gira ainda em torno dos negócios e das vantagens competitivas da colaboração participativa desencadeada e administrada por estruturas centralizadas.

Essas ideias surgiram com o florescimento da participação nos anos 1980. Uma referência importante é o método Lead User, proposto por Eric von Hippel (1986) no MIT. Hippel propunha a User Innovation para desenvolvimento de novos produtos com a participação de consumidores, comunidades e fornecedores (7).

Depois do artigo seminal de Prahalad e Ramaswamy (2000), surgiu, entre outras menos conhecidas, a ideia de Open Innovation com Henry Chesbrough (2003) (8). Em seguida, a ideia de Crowdsourcing com Jeff Howe (2006) (9) e as ideias reunidas em Wikinomics (como a peer production) com Don Tapscott (2006) (10).

Em 2007 Karim Lakhani e Jill Panetta publicaram um interessante artigo (MIT Press) intitulado “The Principles of Distributed Innovation” que foi tomado como uma das referências teóricas para a fundação, em 2008, da empresa holandesa Fronteer Strategy, especializada em co-creation(11). Em 2009, Martijn Pater, um dos seus fundadores, publicou o texto “Co-Creation’s 5 Guiding Principles” (12). É interessante observar como o conceito de co-creation foi operacionalizado e formatado como um produto de consultoria empresarial e vendido sob o lema “No matter who you are, most of the smartest people work somewhere else” (a chamada Joy’s Law). Para tais efeitos práticos e comerciais a co-creation vai ser definida como “o desenvolvimento de novos conceitos, produtos ou serviços em conjunto com clientes, parceiros e expert stakaholders”.

Recentemente, Francis Gouillart e Ventak Ramaswamy (2010) publicaram The Power of Co-Creation: Build it with them to boost growth, productivity and profits (13). Ainda que esses autores advoguem um novo estágio para a co-creation, baseado em uma “full theory of interactions”, seus pressupostos continuam ancorados na participação.

 

PROBLEMAS COM O VELHO CONCEITO DE CO-CREATION

Há dois problemas principais aqui do ponto de vista da sociedade em rede que está emergindo ou da nova fenomenologia da interação social que está, afinal, tornando-se mais visível nos últimos anos. O primeiro, apenas mencionado acima, é a confusão entre participação e interação. E o segundo é a redução da co-criação à velha concepção de negócios proprietários centralizados. Esses problemas já foram tratados, em parte, no texto Vida e morte das empresas na sociedade em rede (14), cuja leitura integral – incluindo seus dois anexos – é fundamental para a compreensão do que vem a seguir.

Trata-se sempre, ao fim e ao cabo, de vender mais deixando o cliente satisfeito ou, como está na moda dizer nos dias que correm, de oferecer melhores experiências para os clientes; ou, ainda, de criar condições para que eles possam desfrutar de novas experiências realizadoras, como propõe Gouillart (2010) (15). Algumas empresas (como Nike, Nokia e IBM), sensibilizadas com a ideia de co-criação, começaram logo a ver as suas vantagens do ponto de vista da gestão corporativa, enfatizando a importância do “engajamento dos funcionários” (employee engagement, também chamado de worker engagement) que ela enseja ou proporciona.

Para adiantar alguns aspectos que serão tratados com mais profundidade neste texto, poderíamos dizer que: ainda é marketing, quando já deveria ser branding; ainda é gestão corporativa hierárquica quando deveria ser regulação por emergência; ainda é um recurso para estimular a inteligência individual quando deveria ser um processo para ensejar a precipitação da inteligência coletiva; ainda é um modo de tornar a empresa mais apta a enfrentar a concorrência nos novos tempos, sem mudar o que é fundamental: a sua estrutura e a sua dinâmica; ainda é um conjunto de concepções próprias do mundo fracamente conectado e de suas instituições erigidas para direcionar e aprisionar fluxos gerando escassez, quando já há, em várias áreas e setores, abundância de meios. Os problemas do conceito, entretanto, são bem maiores, como veremos em seguida.

employee engagement (ou worker engagement) constitui um bom exemplo dessas defasagens de concepção. Significa que uma parte – em alguns casos a parte principal – dos co-criadores deve continuar sendo composta por funcionários ou trabalhadores (ou seja, por pessoas empregadas na realização de sonhos alheios, dos sonhos dos donos das empresas, e subordinadas aos chefes por eles instituídos e não por empreendedores associados com suficiente liberdade para inovar).

Tais concepções são inadequadas para os Highly Connected Worlds que já florescem neste dealbar do terceiro milênio. Nesses novos mundos distribuídos que estão emergindo a própria natureza do que chamávamos de negócio (ou de empreendimento) está sendo radicalmente alterada, mas os teóricos que lançaram e continuam desenvolvendo o conceito de co-creation – talvez com a notável exceção de Tapscott – por algum motivo, ainda não estão percebendo isso.

 

Co-creation não é apenas uma estratégia de business

A co-criação é um conceito mais amplo, que não pode ser reduzido ao mundo dos negócios. Ela já acontece nas sociedades e nas ciências (desde que existe vida em sociedade, quer dizer, vida humana e desde que existem investigação, busca, polinização e aprendizagem, quer dizer, convivência social). O próprio ser humano, em certo sentido, é fruto de co-criação, dos pontos de vista biológico e cultural (ou melhor, daquele ponto de vista biológico-cultural capaz de captar o que chamamos propriamente de ‘humano’).

Não é, portanto, uma característica própria do mercado ou distintiva do novo mercado emergente e sim uma fenomenologia da interação social. Na medida em que o mercado se torna, cada vez mais, social, mais evidente vai ficando o papel da co-criação nos negócios porque mais evidente vai ficando esse papel em todas as esferas da atividade humana, sobretudo na educação e na pesquisa – como já foi tratado no texto Multiversidade (2012):

“O florescimento nos últimos anos de ambientes de co-criação é um dos sintomas da emergência dos processos de Multiversidade. Esses ambientes estão brotando, sob diferentes formas, em vários lugares. A única condição para neles interagir é o desejo de interagir a partir da apresentação de uma idéia ou da livre adesão a uma ideia já apresentada. Configura-se, a partir daí, uma comunidade de aprendizagem-criação que vai desenvolver a idéia. Ideias análogas ou congruentes se relacionarão, polinizando-se mutuamente, reconfigurando as comunidades originais. As novas ideias combinadas são transformadas em projetos (uma espécie de design thinking, mas sem metodologia ou sequência de passos pré-determinada). E os projetos resultantes, teóricos ou práticos, vão então ser realizados, muitas vezes em interação com outros projetos semelhantes ou convergentes. O aprendizado que tal processo proporciona é incomparavelmente maior do que aquele que se pode obter subordinando-se a uma instituição hierárquica de ensino e pesquisa controlada.

Lugares de co-creation tendem a proliferar nas cidades. A multivercidade emergirá na medida em que florescerem experiências glocais na cidade-rede” (16).

 

Co-creation não é coworking

A ideia de novos lugares de co-creation – da qual trataremos mais extensamente adiante – ainda está sendo bastante confundida com a ideia decoworking (um conceito surgido na mesma onda participativa, no final dos anos 90 do século passado e experimentado a partir de meados da primeira década dos anos 2000) (17). Já existem hoje várias centenas de espaços de coworking, praticamente em todos os continentes e isso está em expansão, o que contribui para aumentar a confusão.

Na co-creation não se trata, como no coworking, de um lugar onde as pessoas possam trabalhar juntas – no sentido de contiguidade espacial, mas cada qual focada no seu próprio trabalho – e de compartilhar experiências incidentalmente, por necessidade ou por espírito colaborativo, e sim de idear e projetar interativamente os mesmos trabalhos, ou melhor, as mesmas criações.

É possível que os recentes ensaios de free coworking (18) acabem convergindo com as experiências de co-creation na acepção utilizada aqui (ou seja, de interactive co-creation). Mas por enquanto coworking e co-criação interativa são coisas muito diferentes.

 

Crowdsourcing (sem polinização) não envolve co-creation

Fenômeno semelhante ocorre com o crowdsourcing, também muitas vezes confundido com co-criação. Mas no crowdsourcing aplicado a partir de chamadas centralizadas de empresas fechadas não ocorre propriamente co-criação – como já foi assinalado em Vida e morte das empresas na sociedade em rede (2011):

“No crowdsourcing praticado pela empresa fechada, oferta-se um prêmio para quem apresentar a melhor solução para algum problema ou desafio. A empresa que faz isso desperdiça capital social porque não internaliza o processo contínuo de criação que poderia ser gerado pela interação entre as unidades de capital humano mobilizado. Os que atendem à chamada centralizada da empresa hierárquica interessada, a rigor, em outsourcing (ou em “externalizar sua área de inovação”), acabam se comportando como competidores, cada qual torcendo para que os outros concorrentes apresentem soluções piores do que a sua (e, pior ainda, sem terem sequer a possibilidade de conhecê-las). Mas, via de regra, a inovação surge da polinização mútua, da fertilização cruzada de ideias diferentes. É por isso que os processos de co-criação do open source, como o do Linux e do Apache, ainda são muito mais potentes do que o crowdsourcing praticado pelas empresas fechadas.Sem interação entre os criadores, sem polinização mútua, sem rede, o crowdsourcing não é co-criação e sim um novo tipo de terceirização” (19).

Para que existisse co-criação no crowdsourcing seria necessário acrescentar a polinização ao processo:

“Ao adotar o crowdsourcing com polinização, a empresa insere os co-criadores em seu ecossistema. Não terceiriza nem secundariza, mas principaliza esses players incorporando-os na comunidade móvel de negócios que a constitui, agora não mais separada do meio, mas interagente com o meio através de membranas permeáveis. Eles – esses co-criadores – passam a fazer parte da empresa-em-rede que substituirá a velha empresa-mainframe, hierárquica e separada do meio por paredes opacas” (20).

No crowdsourcing sem polinização – ou seja, sem rede – não há apenas o desperdício das pessoas, mas também o desperdício das ideias. A seleção e a escolha de vencedores (e não raro de um vencedor) gera desnecessariamente escassez onde havia abundância (de pessoas criativas e ideias inovadoras). Frequentemente as ideias mais inovadoras não estavam concentradas no projeto vencedor, mas distribuídas “em pedaços” em projetos que, como não foram vencedores, não serão mais objeto da atenção de ninguém. Mas esses “pedaços” de ideias só poderiam se juntar e se completar caso houvesse interação entre os concorrentes, que deveriam então ser co-laboradores ou verdadeiramente co-criadores.

A co-criação é mais ou menos isso: um processo composto por tentativas recorrentes de estabelecer e restabelecer congruências múltiplas e recíprocas entre ideias que mutam quando interagem, nem sempre se aproximando e se fundindo, mas frequentemente se distanciando e que podem ser novamente modificadas na interação para se combinar e reagir “quimicamente” umas com as outras em novas combinações gerando novas “substâncias” (novas ideias substantivas). Na verdade quem interage são as pessoas e dizer que as ideias interagem e mutam é um modo de dizer que as ideias apresentadas por uma pessoa são modificadas e reinventadas por essa pessoa quando ela interage com outras pessoas.

E aqui vem o fundamental: nesse processo interativo – na medida da sua interatividade (ou seja, dos seus graus de distribuição e conectividade) – começa a se manifestar outra classe de fenômenos, por assim dizer, moleculares, gerando resultados que não podem ser explicados pela soma das contribuições individuais das pessoas interagentes ou pelo efeito agregado da sua participação.

 

Co-creation não pode ser baseada em participação

Para que a co-creation seja baseada, como querem alguns de seus principais formuladores, como Ramaswamy e Gouillart, em uma “full theory of interactions” é necessário ter alguma theory of interaction (21). Mas tudo que esses pioneiros da co-creation escrevem não denota algum conhecimento da nova fenomenologia da interação. Com raras exceções, eles não trabalham com emergência, autoregulação e com os fenômenos associados à inteligência coletiva (como o clustering, o swarming, o cloning, o crunching, as reverberações, os loopings etc.) que estão sendo descobertos recentemente (sobretudo a partir dos anos 2000) pela chamada nova ciência das redes.

Qualquer teoria da interação será parte integrante da nova ciência das redes porque ambientes de interação são redes (mais distribuídas do que centralizadas e tão mais interativos serão esses ambientes quanto mais distribuídas ou menos centralizadas forem as redes que os conformam). Mas o paradigma dos próceres da co-creation ainda é o da participação (22), quer dizer, sempre voltado à mobilizar e arrebanhar os atores para que eles sejam partícipes de processos pré-desenhados por instâncias centralizadas (e fechadas). E assim como não pode, a rigor, haver inovação aberta em empresa fechada, também não pode haver co-criação interativa em ambientes configurados para a participação.

Em ambientes configurados para (ou pela) participação ficamos procurando os nodos que se destacam não somente por entroncar fluxos (atuando como hubs), mas pelo seu poder de impedir que o fluxo escorra por múltiplos caminhos (atuando como filtros ou obstáculos à livre interação). O arrebanhamento participativo pressupõe líderes; no caso, pessoas com alto capital humano, inovadores outliers, criadores excepcionais. O modelo é coletivo, sim, porém centrado nos indivíduos. Quer se beneficiar do efeito-crowd, mas por razões quase estatísticas: garimpando bem miríades de contribuições teremos mais chances de encontrar algumas pepitas preciosas… Como diz o manual da Fronteer Strategy, um dos passos fundamentais para administrar a co-creation é “select the very best”, pois “co-creation works with the 1%” (23). Segundo esse manual existe uma regra emergente: 1% das pessoas (que estão no cume da pirâmide), em qualquer comunidade, gera a maioria da produção criativa do grupo, 10% seriam compostos por “sintetizadores” e todos os demais (dos 100% que totalizam a pirâmide) seriam apenas consumidores. Obviamente é uma visão mercadocêntrica do mundo, mas a despeito disso é uma apreensão errada da hipótese do 1%, que faz sentido na rede (tendo a ver, entre outras coisas, com a refiação em redes P2P) e não na pirâmide (24).

Tal modelo não leva em conta que para ter boas ideias é preciso ter muitas ideias, não porque descartaremos as ideias ruins, peneirando para ficar apenas com poucas e boas e sim porque toda ideia pode (quem sabe?) ser boa como reagente catalisador ou vetor polinizador no emaranhado maior das ideias que se agrupam e se dispersam, ficam inertes e de repente enxameiam, aparentemente divergem e até se contrapõem, mas, em alguma dimensão, se clonam continuamente e… quando menos se espera, o emaranhado sofre alguma mutação que permite que ideias inicialmente díspares ou incongruentes se encaixem numa nova síntese.

Sim, o modelo não leva em conta que para ter ideias extraordinárias precisamos das ideias ordinárias. Que ideias extraordinárias não têm origem em pessoas extraordinárias. Que todas as pessoas, a depender dos arranjos em que estão configuradas, podem cumprir um papel criativo para que o conjunto seja criativo. E eis que surge aquela pedra preciosa, logo identificada pelo seu brilho. Mas como escreveu o físico Marc Buchanan (2007) em O átomo social:

“Diamantes não brilham por que os átomos que os constituem brilham, mas devido ao modo como estes átomos se agrupam em um determinado padrão. O mais importante é frequentemente o padrão e não as partes, e isto também acontece com as pessoas” (25).

 

Não há co-creation sem rede

Ou seja, o modelo implicado na co-creation participativa não tem nada a ver com rede e seus construtores não parecem estar muito familiarizados com o assunto (redes). Do contrário se preocupariam mais com os ambientes do que com as características dos indivíduos, mais com capital social do que com capital humano, mais com a interação do que com a participação, mais com a liberdade para criar do que com as metodologias (e os manuais e os guias) urdidas para, supostamente, promover e conduzir a criação. É incrível que seja assim quando todas as investigações já realizadas sobre grupos criativos mostram que não se pode explicar a sua criatividade (ou o seu alto índice de inovatividade) pela soma das características intrínsecas dos indivíduos agrupados. Um cluster de gênios não produz necessariamente uma ideia genial. E nada garante que um grupo de clones de Albert Einstein fosse capaz de produzir uma teoria da relatividade melhor do que a que ele produziu (aparentemente) sozinho. (E o mais interessante dessas receitas manualizadas para produzir criatividade é que em nenhum lugar onde elas foram aplicadas surgiram assim tantos Einsteins).

Porque as redes têm o seu próprio metabolismo. Às vezes um único input originado de uma pessoa considerada medíocre é o fator decisivo para constelar uma concepção criativa sintetizada por uma pessoa considerada genial (que passa a ser considerada genial por tal motivo, pelo fato de ter conseguido expressar uma síntese, como resultado de um processo que percorreu, como relâmpagos que se bifurcam sucessivamente, os múltiplos caminhos da rede). A mente brilhante, a mente genial é sempre responsável pela ideia genial, mas a mente não é o cérebro (individualizável posto que residente no corpo físico de um indivíduo) e sim uma nuvem de computação, uma nuvem social.

Co-criação não pode ser criação de indivíduos ajuntados arbitrariamente a partir de uma convocação externa que fixa um tema e não permite a emergência de outros temas, selecionados centralizadamente a partir de critérios pré-traçados, obrigados a seguir uma metodologia ou uma sequência de passos determinada, estabelecida ex ante à interação e estimulados com premiações conferidas a partir de modos de regulação que produzem artificialmente escassez (como a escolha de vencedores com a inevitável produção de vencidos). Co-criação é resultado de interação, quer dizer, de continua adaptação mútua, de imitação e de verdadeira co-laboração.

Não há, nesse sentido – no sentido da co-criação interativa (e seria redundante acrescentar a palavra interativa, não fosse o desconhecimento ainda generalizado da fenomenologia da interação) – co-criação no crowdsourcing (tal como ainda é praticado, a partir da chamada centralizada de uma empresa fechada e da promessa de um prêmio ao vencedor).

Também não há co-criação interativa nas consultas feitas pelas empresas fechadas aos seus stakeholders “externos”, incluindo fornecedores, clientes e comunidades usuárias de seus produtos ou serviços ou por estes afetadas.

Enquanto persistir uma fronteira opaca entre stakeholders “internos” e “externos” (uma boa definição de empresa-fechada) é sinal de que a interação envolvida na co-criação não é livre, não pode trafegar por todos os caminhos. Pois desse modo as ideias, surjam onde surgirem, não podem se propagar em um meio isotrópico: os “campos de fertilização” serão mais vulneráreis aos insumos seguros, provenientes dos meios “internos”, comandados e controlados hierarquicamente, do que àqueles que provêm de regiões desconhecidas e cuja origem não é atestada e não pode ser certificada como tão segura (quem sabe até em razão da permanente suspeita de que possam ser vírus inoculados por concorrentes ou inimigos…).

Por tudo isso parece ser necessário e urgente reinventar o conceito de co-criação como co-criação interativa (interactive co-creation).

 

UM NOVO CONCEITO DE COCRIAÇÃO

A evidência básica da qual se deve partir – se não por outra razão pelo fato de ser a “mais evidente” – é: toda creation é co-creation.

Uma teoria da co-criação é, portanto, uma teoria da criação. De onde vêm as ideias? Como elas são formadas? Estas são as perguntas fundamentais.

Nenhuma ideia nasce do nada (a não ser a extremamente complexa – pela sua impossível simplicidade – idéia de nada, talvez origem de tudo). Nenhuma pessoa concebe uma idéia a partir do zero. Uma ideia é sempre um clone de outras ideias (um clone sempre diferente porque sujeito a um processo variacional). As ideias são frutos da interação (e cloning é um fenômeno da interação). Não conhecemos ainda com suficiente profundidade a fenomenologia da interação para entender como se dá, na sua intimidade, esse processo interativo entre as pessoas que concebem ideias a partir da imitação e da polinização entre as cópias e dessas cópias com outras ideias presentes no emaranhado de relacionamentos em que essas pessoas estão imersas. Mas já sabemos o suficiente para afirmar que o conhecimento-vivo, ou seja, aquela configuração sempre móvel de ideias sobre alguma coisa (no sentido metafísico do termo), concebidas e modificadas continuamente pela relação com outras ideias, é uma relação social (e não um conteúdo arquivável e transferível na sua integridade de um sujeito a outro).

E já sabemos também que quanto maior a liberdade para que as ideias possam ser buscadas, concebidas, clonadas e modificadas na interação entre os sujeitos, maior é a capacidade dos sujeitos interagentes de produzir ideias inovadoras (que são inovadoras não porque sejam absolutamente novas em relação às ideias anteriores que as geraram e sim porque expressam configurações inéditas de fluxos, e inéditas ao ponto de conseguirem ser percebidas como tais).

A rigor todas as ideias são inovadoras na medida em que expressam configurações de fluxos que nunca são exatamente iguais às configurações que geraram ideias semelhantes; ou seja, nenhuma ideia pode ser rigorosamente igual à outra em um universo que é criativo e que se cria à medida que avança (26). Mas existem campos conformados na rede social que aprisionam e condicionam fluxos obrigando-os a passar pelos mesmos caminhos. E existem circularidades inerentes às conversações recorrentes em uma mesma “região” do espaço-tempo dos fluxos (vista, às vezes, como cluster na rede social) – do contrário não poderia haver o que chamamos de cultura; de sorte que quando estamos imersos em um desses campos sociais deformados temos a impressão de que as ideias ali não se renovam, parecendo ser sempre as mesmas.

Foi por causa disso que a ideia de inovação ganhou tanta notoriedade, sobretudo nos meios corporativos, que são ambientes de aprisionamento e condicionamento de fluxos. As ideias novas têm mesmo dificuldade de surgir ou de ser identificadas como tais nesses meios, não porque lá não existam pessoas criativas (todas as pessoas são criativas) e sim porque essas pessoas estão imersas em ambientes que não são criativos (posto que foram desenhados para a reprodução e não para a criação). Reprodução é resultado de condicionamento de fluxo, como naquela máquina infernal de Modern Times, o magnífico filme de Chaplin (1936).

O mesmo acontece nas escolas e universidades. O ensino é, fundamentalmente, reprodução. A aprendizagem, porém, é sempre criação. Você só aprende verdadeiramente o que inventa porque aprender não é (saber) reproduzir um conteúdo pretérito e sim captar uma configuração inédita de fluxos e inédita ao ponto de poder ser percebida, pelo próprio sujeito, como diferente das configurações anteriores (27). Assim, cada aprendizagem é uma descoberta, um insight, quase um satori e envolve sempre a concepção de ideias novas. Se você não inventa nada, não aprende nada.

Portanto, quanto mais liberdade, mais criação. Quanto mais abertura à interação – sobretudo à interação com o outro-imprevisível – mais liberdade criadora terá o criador-coletivo. Sim, o criador-coletivo é a rede social que cria e é este o significado mais profundo da co-criação. É um fenômeno de rede, quer dizer, da pessoa (conectada), não do indivíduo (isolado).

Não sabendo como ocorrem tais fenômenos no espaço-tempo dos fluxos, é ocioso ficar imaginando fórmulas, receitas e metodologias para desencadear e conduzir a criação. Mas já podemos saber o que não-fazer: não tentar administrar a criação a partir de diretivas centralizadas, não condicionar fluxos: exatamente o que tentam fazer as metodologias, ao estabelecer uma via sacra com estações obrigatórias ou passos sucessivos para se obter tal ou qual resultado esperado (quando a inovação é sempre um resultado inesperado).

Mas do ponto de vista do sujeito, a criação nasce com o desejo e não pode ser despertada por ordens emitidas a partir de instâncias exteriores a ele e urdidas antes da sua interação com outros sujeitos. É por isso que os administradores de organizações ficam tão angustiados com o baixo nível de inovatividade de seus funcionários. Como o modelo de gestão foi desenhado para comando-e-controle, ela dá conta de viabilizar a reprodução, mas é incapaz de ensejar a criação. E é por isso que os gestores corporativos aderem à velha idéia de co-creation que surgiu no mundo dos negócios: pressionados pelo mercado a inovar para sobreviver, eles querem inovar de qualquer jeito e se isso não está sendo fácil de realizar com o público “interno”, por que não tentar o público “externo”?

Eles pensam na base daquela Joy’s Law: os caras mais criativos devem estar em outro lugar e eu tenho que lançar meus tentáculos para capturá-los ou, pelo menos, para ter acesso a eles (com baixo custo, para não inviabilizar meu negócio). Isso também explica o sucesso docrowdsourcing (apreendido pelos administradores como uma espécie de outsourcing).

Podemos dizer que o impulso de se abrir ao ecossistema é basicamente correto, mas o caminho que escolheram, tomado por motivos errados, é errado (pois enquanto permanecer a separação rígida ou a fronteira opaca entre stakeholders “internos” e “externos” não poderá ocorrer a tão desejada open innovation). Um caminho errado levará a um resultado também errado: o índice de inovatividade de corporações que tomaram tal caminho, usando todas as modas mais updated de gestão disponíveis na prateleira de novidades da alta consultoria empresarial (open innovation,crowdsourcingco-creation e o que mais for inventado), não cresceu significativamente. A despeito da intensa autopropaganda dos consultores de inovação, qualquer pessoa inteligente sabe que inovador é quem inova e não quem fala sobre inovação – como já foi escrito em Fluzz (2011):

“A maior parte dos sistemas de inovação urdidos por organizações hierárquicas são, de fato, contra a inovação. Não querem a inovação, querem a inovação que eles querem. Ora, mas se eles já sabem qual é a inovação que deve acontecer, então não é inovação. Se fosse, não poderiam conhecê-la de antemão. Via de regra acabam constituindo escolas de inovação (que são túmulos para as novas ideias). Querem usar as novas ideias para justificar as velhas (porque suas escolas, latu senso, nada mais são do que coagulações de velhas ideias).

Em termos de ideias, a inovação acontece quando os muros epistemológicos são perfurados por hifas, viabilizando a polinização, a fertilização cruzada entre campos do conhecimento que foram separados (pelas escolas).

Os que falam em inovação não são, em grande parte, inovadores. Inovador é quem inova, não quem fala como a inovação deve ser. Para inovar você deve fazer o contrário do que lhe dizem, do que querem ouvir de você, do que esperam que você faça. Simplesmente, faça diferente. Para tanto, você tem que ter liberdade… O espírito de liberdade é a fonte de toda criatividade. Você não pode inovar sob encomenda e vigilância de um sistema que quer que você inove, sim, ma non troppo. É como se lhe dissessem: inove, mas não exagere: não saia fora de nossa visão, não bagunce nossos processos, não desarrume nosso modelo de gestão. A mesma pulsão de morte que exige obediência para disciplinar a interação, quer também disciplinar a inovação” (28).

Assim como o desejo – origem de toda criação – não pode ser enfiado de fora para dentro, transfundido por nenhum método de gestão ou programa de atualização, o processo criativo também não pode ser fabricado artificialmente e replicado. Se pudesse não haveria um problema: bastaria seguir a receita, aplicar a fórmula. Mas como ele é imprevisível, envolvendo um número de variáveis que não conseguimos equacionar, a única coisa que podemos fazer é não atrapalhá-lo. Fundamentalmente, para criar zonas favoráveis à criação (campos de co-creation) o que precisamos é de obstruir ou direcionar o mínimo possível os fluxos, aumentando os graus de liberdade das pessoas para interagir.

Nada de seguir princípios orientadores como inspire participationselect the very bestconnect creative mindsshare resultscontinue development (inspirar participação, selecionar os melhores, conectar mentes criativas, compartilhar resultados e continuar o desenvolvimento) – para citar o “The 5 Guiding Principles in Co-creation” empacotados pela Fronteer Strategy (29), que, aliás, já começam cometendo o equívoco de confundir participação com interação e continuam errando ao recomendar a seleção das melhores ideias e das melhores pessoas para lidar com questões complexas e ao mandar conectar as mentes criativas, imaginando que mentes criativas são o mesmo que cérebros de indivíduos criativos. Nada de adotar metodologias com passos orientadores como aquela aparentemente tão simpática adotada pelo Design Thinking (em uma de suas versões): defineresearchideationprototypeobjectivesimplementlearn (definir, pesquisar, idear, prototipar, objetivar, implementar e aprender). Tudo isso, que à primeira vista parece ajudar a orientar a atividade co-criativa das pessoas, na verdade atrapalha na medida em que restringe a liberdade de interagir.

As pessoas que vivem inventando processos e métodos para que as outras façam coisas que elas mesmas não fazem – meio na base do “quem sabe faz, quem não sabe ensina” – precisam cair na real. Em primeiro lugar precisam entender que a criação não é bem um trabalho. É a satisfação de um desejo, uma realização pessoal, o exercício de uma arte e a fruição de um prazer. Ninguém cria porque foi mandado, ninguém cria obedecendo, ninguém cria seguindo um caminho pré-traçado. Criar é usufruir a liberdade de deixar-se-ir. Livre como quem não tem rumo, diria Manoel de Barros (2010) (30). É perder-se para inventar caminho, diria Clarice Lispector (1969) (31). Os poetas, que são pessoas-fluzz, conseguem captar essa complexidade da simplicidade (ou seria o inverso?).

 

Campos de i-based co-creation

É claro que nada isso desconstitui o conceito de co-creation. Simplesmente reinventa-o, libertando-o de tantas amarras. Se você quer ensaiar aco-creation, em primeiro lugar, deve criar um campo de co-creation – um ambiente. Como percebeu McLuhan (1974), a inovação tem a ver com ambiente, não com tecnologia; e, poderíamos acrescentar, nem com metodologia (que também é uma tecnologia) (32). Esse ambiente pode ser um lugar físico ou virtual. Ambos são necessários – como já foi dito no texto Multiversidade (2012) referindo-se à educação, ou melhor, aos novos processos de aprendizagem emergentes na sociedade-rede (33):

“O local físico não será abandonado, trocado pelo virtual. A tendência é a que surjam escolas-não-escolas físicas, localizadas e altamente conectadas, para dentro e para fora (e, portanto, globalizadas), em rede. Cada local será o (um) mundo (todo): este é o sentido de ‘glocal’.

A velha Universidade, se não quiser ficar obsoleta, se fragmentará ou se esporalizará, para brotar em muitos lugares físicos e virtuais, como uma rede miceliana, uma floresta de clones fúngicos subterrânea, toda interligada por hifas, imitando a vida, que, como percebeu Lynn Margulis (1998), é “uma holarquia, uma rede fractal aninhada de seres interdependentes” (34).

Mas lugares físicos são extremamente importantes. Lugares frequentados pelos mesmos emaranhados (as pessoas que – carregando sempre consigo suas conexões – comparecem recorrentemente nesses lugares) geram redemoinhos no espaço-tempo dos fluxos, sulcam veredas no território urbano e instalam programas organizadores de cosmos sociais. Ou seja, criam mundos!

É claro que esses mundos serão temporários. Nada dura para sempre e tudo o que tenta fazê-lo torna-se insustentável. Enquanto permanecer a supremacia das instituições hierárquicas, os processos de Multiversidade serão como aquelas zonas autônomas temporárias (TAZ) de Hakim Bey (35). Elas desobedecerão às ordens dos ensinadores. Elas cavarão seus próprios futuros ao removerem camadas e camadas, depositadas umas sobre as outras, em séculos, milênios, de entulho meritocrático, quer dizer, sacerdotal, hierárquico e autocrático”.

Campos de co-creation são zonas autônomas temporárias, espécies de abrigos onde as pessoas podem se refugiar dos campos de reprodução da Matrix (as organizações hierárquicas).

Mas campos de co-creation são apenas ambientes para impedir que as pessoas sejam ensinadas, orientadas, mandadas, conduzidas, tecnificadas, metodologizadas, instrumentalizadas para satisfazer propósitos estranhos aos seus desejos. Além disso (ou além de tentar fazer isso), tais ambientes não farão (mais) nada: serão as pessoas que co-criarão. Se quiserem. Quando quiserem. Do jeito que quiserem.

Ao contrário do que possa parecer, isso não inviabiliza a aplicação do novo conceito de interactive co-creation ou i-based co-creation (que é – aí sim! – uma verdadeira open distributed innovation).

Podemos promover eventos ou induzir processos baseados em co-criação. Nesses processos, no entanto, algumas coisas devem ser observadas se quisermos superar a velha concepção participativa, descentralizada, controlada e comandada a partir de organizações hierárquicas fechadas. Eis alguns exemplos do que fazer e não-fazer:

———-#  Podemos continuar propondo desafios, inclusive listando temas para convocar o exercício da co-creation, mas não podemos impedir que surjam outros temas na interação. Ou seja, a co-creation tem que ser aberta ao que não estava planejado, ao inesperado (que é, justamente, o sentido de inovação).

———-#  Podemos continuar conferindo prêmios, mas não podemos adotar processos que produzam artificialmente escassez para selecionar os que vão merecer as premiações.

———-#  Podemos ofertar premiações, mas não podemos nos apropriar das ideias que aparecerem e forem desenvolvidas no processo. A premiação é um estímulo, um fomento, mas não é equivalente à compra da ideia ou do projeto dela decorrente. Se alguém quiser comprar uma ideia ou um projeto deve negociar um preço com seus criadores, depois do processo. Os pagadores do prêmio não podem encará-lo como um compromisso de venda previamente firmado ou tacitamente aceito pelos recebedores. Os criadores podem sempre recusar as ofertas.

———-#  Podemos fazer chamadas a partir de organizações centralizadas, mas não podemos escolher os “bons” ou os melhores de antemão (vetando a entrada dos “maus” ou dos piores), nem impedir que as pessoas se articulem em rede, ou seja, interajam entre si e com quem mais quiserem para conceber e desenvolver suas ideias e para realizar os projetos decorrentes dessas ideias por sua própria conta – a menos que elas vendam as ideias (ou os projetos).

———-#  Podemos estabelecer regras de convivência, mas não podemos obrigar as pessoas a seguir uma metodologia, uma sequência de passos determinada ex ante à interação.

———-#  Podemos determinar que os projetos originados das ideias desenvolvidas no processo de co-creation sejam expostos em um determinado lugar para fazer propaganda, prestar contas, atrair apoios ou colher financiamentos (por exemplo, uma plataforma de crowdfunding), mas não podemos proibir que eles também sejam expostos em outros locais (nem mesmo em plataformas semelhantes) e lancem mão de outros mecanismos de fund raising.

Se evitarmos esses obstáculos à livre interação teremos, simplesmente… redes! Ensejaremos a constituição do sujeito da co-criação interativa: a rede social, quer dizer, as pessoas interagindo – presencialmente ou por qualquer mídia, inclusive pelas novas mídias sociais (que podem ser ferramentas de netweaving, mas não são redes sociais) (36).

Alguém mais imbuído de espírito pragmático ou utilitário, como o que impregna os ambientes do mundo dos negócios, poderia perguntar: mas para quê tudo isso, aonde chegaremos com essas redes?

Ora, não chegaremos a lugar algum (ou a qualquer outro lugar). Se tivermos redes co-criadoras já teremos chegado ao objetivo da co-criação. Teremos pessoas se relacionando segundo um padrão distribuído de organização, aprendendo e criando, ou aprendendo-criando interativamente: o que a co-criação poderia pretender, além disso?

 

Interactive co-creation como open distributed innovation

Para concluir este breve ensaio, cabe resumir algumas características principais do novo conceito de cocriação interativa ou i-based co-creationproposto aqui:

Cocriação é criação, intermitente e imprevisível. Co-criação é um processo permanente – ou, talvez melhor, intermitente – tão permanentemente imprevisível quanto a criação, que não tem hora para acontecer, para começar ou para acabar. Os eventos ou processos induzidos de co-creation são momentos ou períodos de cruzamento (ou fertilização cruzada) de trajetórias pessoais distintas, mas a co-criação continua depois dos eventos ou dos processos (e já existia, com outras configurações, antes deles). Toda vez que ocorre um evento ou processo de co-criação instala-se um campo de aprendizagem-criação, um ambiente favorável à busca e à polinização, abrindo uma janela para que as pessoas possam escapar dos campos de ensino-reprodução.

Cocriação é aberta. Aberta, mas não apenas no sentido da Open Innovation tal como foi recuperada pela gestão corporativa: para as empresas fechadas, open é o que abre as portas (que, obviamente, estavam fechadas porque… elas são fechadas) da organização ao público “externo” (em geral para alguém de dentro sair da caixa com o objetivo de capturar alguma coisa que está fora e, algumas vezes, para deixar uma pessoa – ou idéia – “estrangeira” nela entrar, sem considerá-la como pertencente a ela de fato). Diferentemente dessa concepção, a co-creation é realmente open, num triplo sentido: a) sua chamada ou convocação para os eventos ou espaços é open (neles qualquer um pode entrar, seja para co-criar em temas previamente escolhidos, seja para propor outros temas, inesperados); b) seu processo é open (é um programa não-proprietário, que pode ser copiado, replicado, modificado e reproduzido, pertencendo, portanto, ao domínio público); e c) seu desfecho é open(imprevisível).

Cocriação é distribuída. Não centralizada ou descentralizada, mas distribuída de fato (37), quer dizer, a topologia da rede social que se configura no processo de co-creation é distribuída (ou, pelo menos, mais distribuída do que centralizada). Isso significa que não há hierarquia na co-criação, ou seja, não há a possibilidade de alguém, em virtude do cargo ou posição que ocupa em uma estrutura de poder, mandar nos outros, dizer o que eles devem ou não devem fazer exigindo-lhes obediência. Em um campo de co-creation todos interagem nas mesmas condições (o CEO e o auxiliar de escritório). E os articuladores e animadores dos eventos ou processos de co-criação não podem conduzir os co-criadores, seja por meio da inculcação de ensinamentos (como se fossem professores), seja por meio de tecnologias ou metodologias que obriguem os fluxos a passar por determinados caminhos pré-traçados. Articuladores e animadores de processos de co-criação são netweavers, não dirigentes.

Cocriação é baseada na interação. Não na participação, mas na interação mesmo. Isso significa, em primeiro lugar, que não se trata de arrebanhar pessoas para trabalhar para nós (ou colocá-las em função dos nossos propósitos), nem se trata de inspirá-las, liderá-las ou guiá-las de algum modo, seja por meio de diretivas emanadas de alguma autoridade (legitimada pela sua posição hierárquica, representatividade, popularidade ou reputação), seja por meio de regras estabelecidas antes do processo, seja pelo convencimento ou pelo assentimento obtido em troca de um prêmio ou favor (como quem conduz uma criança docemente pela mão para algum lugar que ela não se propôs a ir com a promessa de passar antes na sorveteria). Mas dizer que a co-creation é i-based significa, em segundo lugar, que ela constitui ambientes favoráveis à manifestação da fenomenologia da interação, sobretudo à precipitação daqueles fenômenos associados à inteligência coletiva. Este é o propósito de tudo.

Em uma espécie de invocação de entidades ainda desconhecidas e que não controlamos, ensaiamos na i-based co-creation um novo modo de convivência capaz de dar vida ao simbionte social que prefiguramos quando nos abrimos à interação com o outro-imprevisível.

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Notas e referências

(1) Cf. Bendapudi, Neeli & Leone, Robert P. (2003). “Psychological Implications of Customer Participation in Co-Production”, The Journal of Marketing, Vol. 67, No. 1 (Jan., 2003).

(2) Prahalad, C. K. & Ramaswamy, V. (2000). “Co-opting customer experience”, Harvard Business Review, January-February 2000.

(3) Prahalad, C. K. & Ramaswamy, Venkat (2004). The Future of Competition. Harvard: Harvard Business School Press, 2004.

(4) Cf. Cocriação, disponível em

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cocria%C3%A7%C3%A3o

(5) Cf. o post (de 09/11/2010) da HSM Online “Francis Gouillart: Futuro das empresas depende da cocriação”, disponível em

http://www.hsm.com.br/artigos/francis-gouillart-futuro-das-empresas-depende-da-cocriacao#comment-11888

(6) A lista abaixo (conquanto ainda desarrumada, não formatada corretamente e incompleta) pode dar uma noção da extensão da literatura disponível até meados de 2010:

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(7) CF. von HIPPEL, E. (1896). “Lead Users: A Source of Novel Product Concepts”. Management Science 32 (7): 791-806. Disponível em:http://www.jstor.org/pss/2631761

(8) Chesbrough, H. W. (2003). Open Innovation: The new imperative for creating and profiting from technology. Boston: Harvard Business School Press.

(9) Howe, Jeff (June 2006). “The Rise of Crowdsourcing”. Wired. http://www.wired.com/wired/archive/14.06/crowds.html Retrieved 2007-03-17.

(10) Tapscott, Don & Williams, Anthony (2006 / 2008). Wikinomics: How Mass Collaboration Changes Everything. Portfolio.

(11) Cf. LAKHANI, Karin & PANETTA, Jill (2007). “The Principles of Distributed Innovation”. Disponível em

http://www.slideshare.net/augustodefranco/the-principles-of-distributed-innovation

(12) PATER, Martijn (2009). “Co-Creation’s 5 Guiding Principles”. Disponível em

http://www.fronteerstrategy.com/uploads/files/FS_Whitepaper-Co-creation_5_Guiding_Principles-April_2009.pdf

(13) Ramaswamy, Venkat & Gouillart, Francis (2010). The Power of Co-Creation: Build It with Them to Boost Growth, Productivity, and Profits. Simon & Schuster, Free Press.

(14) FRANCO, Augusto (2011). Vida e morte das empresas na sociedade em rede. São Paulo: Escola-de-Redes, 2011. Disponível em:

http://www.slideshare.net/augustodefranco/vida-e-morte-das-empresas-na-sociedade-em-rede-o-livro

(15) Ref. cit. Nota (5), supra.

(16) FRANCO, Augusto (com a colaboração de LESSA, Nilton) (2012). Multiversidade: da Universidade dos anos 1000 à Multiversidade nos anos 2000. Disponível em

http://www.slideshare.net/augustodefranco/multiversidade-10753463

(17) Segundo a Wikipedia, “o termo coworking foi criado por BernieDeKoven em 1999 e em 2005 usado por Brad Neuberg para descrever um espaço físico, primeiramente chamado de “9 to 5 group”. Neuberg criou o “Hat Factory”, um espaço de coworking baseado em São Francisco, um apartamento onde trabalhavam 3 profissionais de tecnologia e que abria suas portas durante o dia para “avulsos” que precisavam de um lugar para trabalhar e queriam compartilhar experiência. Hoje, existem mais de 400 espaços de coworking, em 6 continentes”. Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Coworking

(18) Cf. CoWorking News, in

http://www.coworking-news.de/?s=Free+Coworking

(19) Ref. cit. na Nota (14) supra.

(20) Idem.

(21) Cf. “The Third Stage of Co-Creation” no verbete Co-Creation in

http://en.wikipedia.org/wiki/Co-creation

(22) Para entender a diferença entre interação e participação, cf. FRANCO, Augusto (2010). Redes são ambientes de interação, não de participação. Disponível em

http://www.slideshare.net/augustodefranco/redes-so-ambientes-de-interao-no-de-participao

(23) Cf. ref. cit. na Nota (12) supra.

(24) Cf. FRANCO, Augusto (2009). O Misterioso 1%. Disponível em

http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-misterioso-1

(25) BUCHANAN, Marc (2007). O átomo social. São Paulo: Leopardo, 2010.

(26) Cf. a entrevista concedida em 1984 por Ilya Prigogine à Renée Weber intitulada “O reencantamento da natureza”, em WEBER, Renée (1986). Diálogos com cientistas e sábios. São Paulo: Cultrix, 1991.

(27) Cf. Ref. cit. na Nota (16) supra.

(28) FRANCO, Augusto (2011). Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola-de-Redes, 2011. Versão preliminar digital disponível em

http://www.slideshare.net/augustodefranco/fluzz-book-ebook

(29) Cf. ref. cit. na Nota (12) supra.

(30) Alusão ao verso de Manoel de Barros (2010) – “Livre, livre é quem não tem rumo” – em “Menino do Mato”. Cf. BARROS, Manoel (2010). Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.

(31) Alusão ao verso de Clarice Lispector (1969) – “Perder-se também é caminho” – em LISPECTOR, Clarice (1969). Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

(32) Cf. McLuhan em uma palestra pública – intitulada “Viver à velocidade da luz” – em 25 de fevereiro de 1974, na Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, explicando o que entendia por seu famoso aforismo “o meio é a mensagem”: “Significa um ambiente de serviços criado por uma inovação, e o ambiente de serviços é o que muda as pessoas. É o ambiente que muda as pessoas, e não a tecnologia. (Mc Luhan por McLuhan, de David Staines e Stephanie McLuhan (2003). São Paulo: Ediouro, 2005. Título original: Understanding me: lectures and interviews. http://trick.ly/4ra

(33) Cf. ref. cit. na Nota (16) supra.

(34) Como observou Lynn Margulis (1998) em O que é a vida? (Rio de Janeiro: Zahar, 2002), “os fungos são organismos realmente fractais”, que fazem sexo por conexão ou conjugação de hifas (que são tubos que se assemelham aos cabos de rede que utilizamos hoje em dia para conectar nossos computadores) e existem “em extensas redes inacessíveis à visão, situadas abaixo do solo. Grandes micélios de hifas que saem em busca de alimentos prosperam sob as árvores das florestas. Os filamentos vivos chamados hifas tendem a se fundir. Depois de “praticar o sexo”, acabam formando cogumelos ou tecidos bolorentos que, por sua vez, sofrem meiose e formam esporos… Toda rede miceliana é um clone fúngico, o filho distante de uma única linhagem genética. Acima do solo, os fungos produzem esporos que flutuam no ar, alguns dos quais você por certo está inalando neste momento. Quando pousam, os esporos crescem onde quer que seja possível. Fazendo brotar redes tubulares, as hifas, no substrato úmido, novamente os fungos produzem quantidades copiosas de esporos, os quais se disseminam, espalhando sua estranha carne pelo solo que ajudam a criar”.

(35) BEY, Hakim (Peter Lamborn Wilson) (1984-1990). TAZ. São Paulo: Coletivo Sabotagem: Contra-Cultura, s/d. Disponível em:

http://www.slideshare.net/augustodefranco/taz-zona-autnoma-temporria

(36) Cf. FRANCO, Augusto (2011). É o social, estúpido! Três confusões que dificultam o entendimento das redes sociais. Disponível em:

http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-social-estpido

(37) Cf. ref. cit. na Nota (36) supra.